"O CASO DULCE" - PRIMEIRO RELATÓRIO
"Shakespeare nos convence de que tales
cosas son posibles cuando el mundo entero
está corrompido hasta la médula, cuando
no queda en el mundo ni honor, ni conciencia,
ni amistad, ni fe, ni lazos de sangue, ni amor,
ni lealtad".
( S. Dinamov, in "Shakespeare" )
Junho, 1976
Dulce, a mulher de Rodrigo Magalhães Spinola, sofre de elefantíase em fase bastante adiantada. Suas pernas parecem troncos de árvores dessemelhantes, troncos doentiamente enrugados, escamosos. É muito desagradável de se ver. Assim, por enquanto, limitemo-nos a informar que, diagnosticada a moléstia, uma ainda sem cura, durante algum tempo Dulce perdeu quase todas as razões e todos os impulsos que fazem alguém viver, interessadamente, até o último momento. Um desses impulsos, com sede no instinto sexual, irá atirá-la na voragem de acontecimentos surpreendentes e Dulce Spinola será tentada a tornar-se assassina: tramará a morte do Sr. Eurides Taveira.
Ela ficou triste, muito ressentida com o que chama de "desígnios divinos", acabrunhando-se, quando renomado especialista de São Paulo, e isso faz algum tempo, confirmou o diagnóstico de um colega baiano :
- Lamento muito, minha senhora. As expectativas não são animadoras.
- Ninguém tem culpa, doutor.
O especialista mostrou-se justo quando elogiou a firmeza de ânimo de Dulce. Ela quis saber do médico os prognósticos sobre a doença, sua evolução, e foi atendida inclusive em minúcias. De volta ao hotel, ela disse ao marido :
- No que se refere à nossa vida sexual, Rodrigo, você deve dispor de seus direitos mais assiduamente. Não, não faça esta cara. Eu sei que você gosta de sexo, o mais possível. Nós não nos devemos enganar um ao outro. Se dependesse de mim, se desse certo, eu mataria o Sr. Taveira para você casar com Nair, mas acho que ela preferiria Eduardo. Me perdoe, mas estou sendo realista.
- Você é trágica, Dulce, mas admiro a força do seu espírito.
- Quando a doença se afirmar, mesmo, não me olhe com misericórdia. Eu não toleraria.
Sim, ela é uma mulher de coragem. Uma pessoa resignada, dessas que apenas transitam ao longo de existência descolorida. Também não se homiziou em autocomplacências e nem se impôs flagelações. No dia em que aquele médico paulista pôde constatar a irreversibilidade da moléstia, aceitou o dado do irreversível e, ao mesmo tempo, se convenceu sobre a impossibilidade de milagre regenerador. Isso em correspondência aos seus modernos padrões religiosos.
De volta ao hotel, Rodrigo Spinola não a procurou: disse que ia jantar com uns amigos. À tensão produzida por óbvias certezas deprimentes, seguiu-se um período de desalento maior. Ela se confessou muito abatida numa carta em que falou a Eduardo sobre sua tragédia. Mais que um ex-colega de rua e de escola secundária, Eduardo era o único grande amigo, e sua importância na vida de Dulce, e no desenrolar dos acontecimentos aqui narrados, o paciente leitor conhecerá oportunamente. Quando Spinola chegou do jantar (ele não trazia o semblante de um culpado de heresia moral) Dulce achou útil ler a carta. Ela escreve bem e Spinola comoveu-se com a leitura. Condoído, então, com a desdita da esposa, Rodrigo Spinola, que vinha de ser lambido por duas mulheres pagas em apartamento fesceninamente decorado, decidiu propor uma viagem aos Estados Unidos, que ela sabia ser o mais avançado centro médico de técnicas terapêuticas. "Quem sabe a Cuba
- ele disse - , onde se diz que, apesar dessa praga que é o comunismo, a medicina tem feito milagres". Dulce o dissuadiu :- Por que gastar dinheiro atoa, meu bem? Não há cura, o diagnóstico, você bem sabe, é definitivo.
Sem obter êxito na primeira investida, Rodrigo não insistiu na proposta: estava mais interessado numa sugestão sobre incorporação imobiliária, um edifício de apartamento por andar, dezenas de andares, seis elevadores sociais, jardins de inverno, piscinas com água climatizada, quatro vagas para automóveis para cada unidade, sistema telefônico com aparelho em cada cômodo, pontos para acolha de som em FM, antena parabólica com recepção de canais nacionais e internacionais, "um empreendimento sensacional, Dulce, uma coisa capaz de encher todas as medidas, coisa pra ninguém botar defeito". Dulce considerou que a linguagem de Rodrigo lembrava aquela que tipificava o Sr. Taveira, na ocasião já casado com Nair. Desconfiou que Rodrigo a estava traindo. Rescreveu a carta para Eduardo. Para cansar-se e dormir leu várias vezes um artigo sobre o comportamento sexual das moscas.
Eduardo respondeu a carta sugerindo "coragem e fé em Deus. Quem sabe não surgirá em breve um medicamento milagroso?".
Prática da moral prática
Em Salvador, em determinada noite de um junho muito úmido, Rodrigo Spinola, ao chegar para o jantar, notou que Dulce estava estranhamente alegre ao recebê-lo: além do gesticular desenvolto, ela movia-se com inusitada rapidez
- as pernas de elefôa pareciam as de mosca arisca. Surpreendentemente encontrou-a vestida para sair e foi informado de que todos os serviçais haviam sido dispensados, por aquela noite, e que ela gostaria de ser levada ao cinema. Ficou contente em ver que ela finalmente havia emergido do deprimente silêncio a que se entregara, dias antes. Acabado o delicioso suflê de camarão que ela preparara, eles foram ao cinema mais elegante da cidade, onde assistiram a hilariante comédia italiana : "O Juízo Final".Impressionado diante de tanta vitalidade (Dulce nem se agastou quando desconhecidos circunstantes descobriram sua deformação física), Rodrigo Spinola intuiu que ela estava disposta a fazer importante revelação. E tinha a dele, abrangendo Cláudia, uma mulher do escritório, pródiga em exibições sexuais, sobretudo a de insistentemente pegar nos seios. Mais do que pegar, Cláudia os sacudia, pretextando calor. Calor em recinto refrigerado? . Ela usava entre aqueles seios um colar com moeda de dólar recoberta com ouro 23. No cinema, Rodrigo Spinola se disse que o contentamento da esposa não deixava de ser nervoso, tenso, misterioso, sobretudo misterioso, mas, e como de hábito, não quis precipitar coisa alguma: acostumara-se, desde os anos de namoro e noivado, a uma suave e segura liderança de Dulce quanto a questões domésticas e afetivas. E tudo obedecendo a um ritmo calmo, compassivo, como se as fases de cada dia fossem cuidadosamente preestabelecidas, compreendendo, inclusive, momentos apropriados para as surpresas que, em muitos casos, dão mais sabor ao cotidiano vivido com sensatez.
Assim, portanto, não fora a doença
- brutal violação do que julgavam haver sido aceitavelmente estabelecido - , nos limites e no andamento de vidas médias, eles presumiam que eram felizes. Precedentemente à elefantíase, beneficiavam-se de uma alegria morna, sem grandes apreensões, essa alegria que é sempre útil quando, em estrita obediência a determinados valores, algumas pessoas, conscientemente, domam seus impulsos e disciplinam suas emoções, represando-as. Eram, o que se pode chamar de pessoas civilizadas, desde que aceita como axiomática a proposição de Sigmund Freud, segundo a qual a civilização se baseia na permanente subjugação dos instintos humanos.Se a doença não ocorresse, é certo que Dulce e Rodrigo Spinola completariam seus ciclos de vida apenas lamentando alguns dissabores não muito amargos e duas frustrações: não terem sido contemplados com um casal de filhos e não verem unidos, em sólido lar de média burguesia, acentuadamente próspera, os grandes amigos Eduardo e Nair, revigorando-se o quarteto desgraçadamente desfeito com a aparição e as malditas manobras empreendidas pelo Sr. Taveira. Principalmente, inexistisse a elefantíase e Dulce não imaginaria matar o marido de Nair, amiga que tinha como irmã gerada no grande útero em que se forjam sentimentos ardentes e duradouros.
Nair, é bom que se diga, e não apenas porque preocupada com a formatura do irmão mais velho, não sabe que, tendo avaliado pormenorizadamente muitas inconveniências e havendo pesado inumeráveis conseqüências positivas, sua amiga Dulce decidiu torná-la viúva, de sorte a que se case com Eduardo, sem outros percalços senão os de um luto desejável. Agora, doente, cada dia mais doente, Dulce quer Eduardo bem próximo dela, ainda que como esposo de Nair.
É curioso: tantos anos depois do casamento com o Sr. Taveira, casamento imposto por uma teia de circunstâncias desfavoráveis, Nair ainda ama Eduardo e não se pode dizer que tenha vencido várias de suas angústias. Em todo o caso, vendo os irmãos e os filhos a crescer de acordo com os seus desejos, com o que se garante para uma velhice tranqüila, Nair já não chora mais, de si para consigo mesma, quando atende as convocações do Sr. Taveira no sentido de que cumpra suas obrigações de alcova. E nem vomita depois: habituou-se.
Os hábitos, na verdade, tanto quanto as tradições, nos subjugam, afetivamente, como as forças que nos prendem à terra, impedindo-nos os vôos sonhados. São eles, os hábitos, que fazem Nair pensar cada vez menos em Eduardo. Verdadeiras suas confidências a Dulce, ela jamais experimentou prazer sexual com o marido, apesar dos esforços que ele realiza para interessá-la. "Você
- Dulce gosta de repetir - é uma amanuense do amor. Eu, estando no seu lugar, seria exatamente igual, mas uma vez ou outra eu me permitiria ter algum prazer, imaginando o Taveira como um boneco inflado. Esqueça Eduardo e tente. Não faz mal nenhum. Importante é esquecer Eduardo".- Eu já tentei, mas não consigo.
Se os sonhos com Eduardo já não satisfazem Nair como antigamente, ao menos apaziguam ânsias, amansando aspirações antes revoltas, permitindo-lhe recuperar, nos territórios da memória, os excitantes e inesquecíveis dias daquela semana de íntimas convivências sexuais com o antigo namorado, sob a acolhedora proteção de Dulce e Rodrigo, casal amigo, mais que amigo: casal irmão. Se, por um motivo qualquer, Nair fosse consultada sobre o assassinato do marido, ela consentiria? . Ela se acumpliciaria com uma ausência? Robusteceria os argumentos de defesa que Dulce, pacientemente, vai anotando no seu "Diário"?
Parece-nos temerária qualquer resposta, não obstante os resíduos de desprezo que Nair tem ao marido.
É junho, ainda. Nos bairros pobres de Salvador, uma cidade de mar que abriga festivas tradições sertanejas, comemora-se o São João à beira de fogueiras que propiciam calor e luz.
Muito distante, numa cidade européia já vivendo a primavera, Eduardo Batista Calasans, engenheiro civil, conclui a leitura de uma biografia sobre o fundador do nazismo, Adolf Hitler. Pondera: o texto não é tão ruim quanto imaginara. Os dados constantes da exaustiva biografia confirmam que Hitler não soube limitar-se ao mundo germânico e perdeu-se, atraindo as injúrias do mundo, quando invadiu a França. O certo teria sido dominar toda a Polônia e voltar-se contra a União Soviética, destruí-la, tornando a Alemanha uma vitrine da boa mostra da vitória dos eleitos sobre as massas ignorantes.
Nair, para ele, já não é a obsessão de alguns anos antes. Ao datar uma carta para Dulce, na qual pretende dar mais substância a algumas idéias políticas, às quais se tem dedicado, comunicando-as à amiga, ele recorda os tempos de menino, em Itabuna. O pai gostava de festejar os santos de junho, na casa da fazenda de cacau. Haviam grandes fogueiras e enormes e coloridos balões. O povaréu queria vencer sua natural insignificância com cânticos e danças, com o que sublinhava seu primarismo e isso era bom de se ver. Eduardo achava particularmente ridículo aquele mascate, o Sr. Taveira, que gingava em meio à populança, nela se confundindo.
Ele anota para escrever a Dulce: "A Alemanha e os alemães são limpos. Se você chegar a qualquer dessas ruas, não verá sequer uma baga de cigarro no chão. As pessoas se tratam com respeito e o senso de obediência aos chefes é total. Constrói-se aqui o que eu vou chamar de socialismo limpo. Excluindo poucos subversivos, cada qual sabe o seu lugar. Peço-lhe refletir sobre a seguinte citação de Schiller : "... a fruição do prazer está separada do trabalho, os meios do fim, o esforço da recompensa. Eternamente acorrentado a um único e diminuto fragmento do todo, o homem configura-se apenas como um fragmento; escutando sempre e apenas o monótono rodopiar da roda que ele faz girar, jamais desenvolve a harmonia do seu próprio ser e, em vez de dar forma à humanidade que existe em sua natureza, converte-se em simples marca de sua ocupação, de sua ciência". É impensável no Brasil o que eu vejo aqui, dia após dia. Por que você e Rodrigo não dão um pulo aqui? Você continua me sendo muito necessária, saiba disso".
Os ruídos do foguetório junino esbatem-se contra as paredes e não devassam o cinema em que Dulce e Rodrigo se encontram. Eles não vêem, também, as policrômicas explosões que a úmida noite engole. À medida em que, assistindo o filme engraçado, Dulce se diverte (não aprecia tragédias: as do dia-a-dia bastam para impor transtornos), nela se consolida a convicção de que é iminente a chegada de Eduardo a Salvador e isto não vai acontecer, como previsto, depois da primeira quinzena de Julho. Acontecerá antes, se Rodrigo concordar com a morte do Sr. Taveira. Morto o marido de Nair, é certo que Eduardo virá da Europa no primeiro avião, encontrará ocupável o leito da mulher que sempre quis. Desse modo, Dulce imagina, ele colocará em risco, na turbulência de duas vidas comuns, suas acesas aspirações de êxitos profissionais e políticos. Então, nos ápices de tais turbulências, ela será mais necessária do que nunca.
Antes do infortúnio a que foi lançada, as pernas se avolumando desmedidamente, tornando-as enjoada com o próprio corpo, Dulce queria Eduardo sempre longe, acumulando conhecimentos sobre engenharia de grandes projetos metalúrgicos, iniciando-se em política de largo espectro e, através de cartas, iniciando-a também. Tê-lo perto, antigamente, ela cheia de vida, impunha a Dulce sentimentos moralmente detestáveis: por que Eduardo não a viu como mulher antes de maravilhar-se com a beleza física de Nair? Por que não percebeu que os seios de Nair são monstruosamente feios? E ela apalpa os próprios seios, orgulhosa, e se dá conta que Nair não sabe nada sobre o pensamento político de Eduardo.
Nair não é só uma amanuense em questões sexuais. Em tudo é uma burocrata, uma mulher desprovida de imaginação, incapaz de grandes fantasias ( que é "a mãe de todas as possibilidades", como escreveu Carl Jung), à mão, apenas, para o que é comum, corriqueiro, usual. Ela amou Eduardo, guardando agora fiapos desse amor, como teria amado qualquer um que não a atemorizasse e se mostrasse paternal, disposto a protegê-la, a dar-lhe segurança. Para Dulce, ela viveu a juventude pensando na insegurança da velhice, e, obviamente, isto não é viver. Isto é um passar pela vida, gélida vida e nada mais. É um não ser, mesmo para os registros do mais ínfimo círculo. Se Nair morresse
- Dulce se diz, entre duas gargalhadas motivadas pelo filme - nada seria alterado. Eduardo choraria, é evidente, mas suas lágrimas não adubariam terra para nenhuma flor. Rodrigo Spinola lamentaria a perda de uma mulher muito bonita, apesar dos seios, e nada mais. Perda de quem não foi dono...Nesta altura, para melhor entendimento do que se encontra em processo, tudo aconselha por em relevo que Dulce dá seqüência, cinco anos após aquele terrível diagnóstico, aos seus propósitos homicidas contra o Sr. Taveira, sem quebra, e sim muito ao contrário, do amor que devota a Eduardo, um amor que se foi gestando desde os mais verdes anos, um amor que, no antigamente, continha reprimidas parcelas de desejo sexual. É induzida pela memória desse amor que ela pretende matar o Sr. Taveira. Matá-lo a frio. Matá-lo com três tiros na cara. E mijar sobre o sangue vertido pelo filho-da-puta. Ela murmura esta palavra de baixo calão, avessa que sempre foi a xingamentos. "Filho-da-puta, sim" , repete baixinho na busca de maior convicção. Um frio lhe percorre o corpo quando antevê no chão os olhos arrancados da cara do Sr. Taveira e se dispõe a chutá-los. E colocará o corpo na lata de lixo, como resto de um troncho imprestável. Rodrigo a ajudará? Dulce é radical na sua decisão. Se algo deve ser feito, por que não levar tudo às últimas conseqüências?
Vamos recuar algumas horas. Dulce telefona para Rodrigo e faz questão que ele venha jantar. Não fala do cinema, porque os pedidos não devem ser acumulados, talvez ele tenha compromisso com alguma dessas mulheres que se vendem, e promete "um soberbo suflê de camarão. Não demore, por favor". Ela está vestida e perfumada. As pernas pesam milhões de quilos, mas esta é uma noite especial e ela arruma as muitas peças do gabinete: é nele, portas trancadas, inalcançáveis às bisbilhotices dos serviçais, mas que por via das dúvidas dispensa até a manhã do dia seguinte, que vai expor a Rodrigo as razões que a fazem disposta a matar o Sr. Taveira. "Para que nossa amiga e irmã Nair seja feliz, mesmo que Eduardo não a aceite mais. Aliás, querido, ele não tem falado sobre ela nas últimas cartas. Viúva, você poderá cortejá-la sem nenhuma queixa de minha parte e deixará de expor-se saindo com essa moça do escritório. Ou você pensa que não sei sobre Cláudia, que sou completamente idiota. Ademais, Nair poderá tornar-se sua sócia, já que vai herdar uma fortuna incalculável. Então você poderá, com mais facilidade, construir o edifício de um apartamento por andar", ela dirá ao marido, logo que ele se mostre em condições de argüir um plano para ele tão surpreendente. "Não pense
- ela aduzirá - nessa tal de opinião pública. Isso é uma ficção que amedronta os tolos. Importante é que você terá Nair livre e com muito dinheiro na mão". Na realidade o que está em jogo não é Rodrigo e também não é Nair : ela não tem os filhos e os irmãos para se ocupar, para encher o tempo?. Rodrigo não está apaixonado pelo projeto do edifício?. Para Dulce o essencial é ter Eduardo próximo, amá-lo com o espírito, alegrá-lo, estimulando-o a grandes realizações no domínio das idéias.Detenhamo-nos sobre o afetivamente malogrado ex-namorado de Nair. Ao invés do que aqui tenha sido sugerido, ele não é, nunca foi, um desses indivíduos capazes de, premiados pela natureza com excepcionais dotes físicos, despertar fáceis entusiasmos femininos. Nada disso. Eduardo é razoavelmente simpático, atrativo, mas seu grande fascínio reside na capacidade de compreender os interesses das pessoas que lhe são queridas, ou apenas amistosas, ouvi-las pacientemente, valorizando-as com inteligentes discordâncias, fornecendo-lhes informações sobre assuntos interessantíssimos.
O reconhecido empenho de fazer-se presente e ativo o mais possível, sem causar enfados, prodigalizando alegrias sempre renovadas, é nele natural, espontâneo, muito consciente. É dono de um pensamento singular, que discute sem pedantismo, que não procura impor. Para ele, por exemplo, e como escreveu numa das numerosas cartas que escreveu a Rodrigo, "a democracia é uma imbecilidade que os gregos inventaram e que os romanos idiotamente difundiram na Europa, cabendo aos judeus disseminá-la no mundo, agora até mesmo entre os pretos da África, abastardando as religiões mais impermeáveis. Ainda que não confessem, os árabes de hoje citam mais "O Capital" do que o Alcorão. Deu nisso a pressa com que Hitler agiu. Foi o incontido desejo de ver com os próprios olhos o triunfo de suas luminosas idéias que arrastou Hitler à desgraça. Agora devemo-nos o inaudito esforço de reconstruir tudo a partir de pequenos círculos como o nosso. Ou nos conformamos em viver nossas vidas em ilhas acima dos assédios das gentes empobrecidas pela falta de nobres ideais".
Lembrando-se de Eduardo, Dulce assinalou, em livro sobre a obra de André Gide, que, para o autor de "Caves do Vaticano", o importante não é o conteúdo populacheiro, esfarrapado, da regra moral à qual alguns se subordinam e se escravizam, mas ter uma regra sua, específica, individual, e, em certa medida, intransferível, uma regra moral somente divisível entre os que têm espírito forte, os que não aviltam vulgarmente suas emoções mais profundas. Numa passagem do "Diário", que começou a elaborar após a definitiva diagnose da moléstia, Dulce escreveu : "Se nos guiássemos pelos esquemas das gentinhas, incapazes para uma justa e rígida concepção de vida, terminaríamos misturadas com elas e assim perderíamos nossa identidade mais autêntica. Não seríamos mais do que pessoas comuns, esses Taveiras da vida puramente animal".
Eduardo costuma afirmar que "se a existência é uma só, se não transcende a matéria, como parece provar a crescente comunização da outrora brilhante Igreja Católica Apostólica Romana, se, em conseqüência, a mediocridade dos coletivismos nos ameaça de modo avassalador, é indispensável vivê-la intensamente a cada instante, em cada centímetro da nossa pele, em cada átimo de nossos sentimentos mais puros, mais pessoais, e isso em santuários indevassáveis. O olhar do povo é o olhar da víbora invejosa e insaciável".
Dulce reconhece que antes da doença, esse terrível divisor de águas de suas vida, não era tão extremada quanto Eduardo a respeito de temas assim. Certas influências de ordem religiosa, associadas a uma piedade natural pelos "desvalidos da sorte" (os "punidos por Deus, e punidos no ventre materno", na concepção do pai de Eduardo ) , induziam-na a fazer alguns reparos aos pontos de vista que o amigo persevera em defender com uma lógica cada vez mais férrea, e defendê-los com paixão de missionário. Nada, porém, que o contestasse a ponto de agastá-lo. Ela recorda que Eduardo, além de insistir no "Viva e deixe viver", lema que herdou incluído no pacote das muitas propriedades do seu pai, referia-se, insistentemente, à denominada "ordem natural das coisas". Isso ela nunca aceitou. Jamais, contudo, usou o argumento decisivo que, muito possivelmente, emudeceria Eduardo e o convenceria. "Se
- ela diria - existisse o que você chama de ordem natural das coisas, eu seria sua mulher e Nair não seria forçada a, por orgulho infantil, aceitar o desprezível Sr. Taveira e sim se casaria com Rodrigo. E seríamos todos felizes ou poderíamos tentar sê-lo. Eu admitiria que você freqüentasse Nair algumas vezes em cada mês. Acho que os homens devem usar de privilégios sexuais que não nos foram deferidos pela natureza. Nada aconteceu assim e penso que Nair é a principal culpada. Ela não devia ter medo do exibicionismo sexual de Rodrigo. Ele ama o sexo que tem, e daí? É um pênis bonito, vigoroso, ninguém vai me dizer que não é".Igualmente Rodrigo Spinola pensaria assim, se fosse dado a reflexões sobre temas de tal ordem. Porque, em verdade, Nair foi e é a mulher de seus desejos, muito bela a fazer-se jovem, quando a conhecera nos folguedos e nos labores estudantis, acompanhando seu desabrochar como mulher, e que excitante mulher! Esquecidos os seios avantajados, os cabelos eram louros e lisos, dentes esculpidos em pérolas, lábios carnudos e de um vermelho tão hígido que Rodrigo Spinola nunca o viu esmaecido, mesmo quando, no afã de mostrar-se, pregava-lhe grandes sustos, sobretudo com as ameaças de por o sexo a nu, destemeroso de testemunhas ocasionais.
Spinola chegava a ser brusco e Nair, na sua simplicidade, era muito sensível. Atordoava-se facilmente. Não sabia repelir os impulsivos e aquele colega, Rodrigo, no mais das vezes adorável, não a sabia frágil, insistindo em que admitisse brincadeiras que a molestavam. Foram os comportamentos expansivos de Spinola que o fizeram desinteressante aos olhos de Nair e quando ele foi advertido por Dulce sobre a conveniência de mudar seus modos (Dulce queria o casamento dos dois) já era tarde demais: nos horizontes de Nair, inconfessada rival, Eduardo brilhava como um sol. E foi correspondida, como é sabido. Às vezes ela recorda a alegria com que entregou sua virgindade a Eduardo. Dulce, recém casada com Rodrigo, teve a iniciativa de tudo e parecia muito feliz com aqueles preparativos. Ela preparou o quarto em sua casa, bordou o lençol com delicadas flores azuis, perfumou Nair como se ela mesma fosse recebê-lo, deu conselhos minudentes, e foi intrigante com uma frase :
- Dê a Eduardo o que ele pedir. Dê tudo, entendeu, dê tudo!
Eduardo, a princípio, discordou da idéia. Ele estava decepcionado com Nair. "Se ela me amasse mesmo
- disse - venceria o pecado do orgulho. Eu não tenho culpa de ter nascido rico e nem ela é culpada pela morte do pai beberrão, pobre e irresponsável".Alvoraçada com o rememorado, Nair reza: ela é a forma humana da resignação. Os deveres para com os irmãos e os filhos devem substituir tudo. Nair aceita o que entende por "leis do destino". De um modo mais escovado de simploriedades, Eduardo refere-se às "tramas das circunstâncias", o que lhe parece menos vulgar. "A ordem natural das coisas", segundo Eduardo, fundamenta-se na manutenção de essências e não deve coibir criatividades: o Senhor Deus criou os vazios do mundo para que os homens se esmerem em preenchê-los. Sem a mulher que elegeu para esposa, cabe-lhe dedicar-se a anseios capazes de dar sentido à sua vida. Ele escolheu, entre outros, a política. Ao ficar mais idoso, voltar-se-á para o desenho artístico. Não há, nem haverá, nenhum outro relacionamento amoroso em sua vida. Isso, contudo, não deve preocupar o leitor porque, como escreveu Gaston Bachelard : "A sublimação não é sempre a negação de um desejo; não se apresenta sempre como uma sublimação contra os instintos. Pode ser uma sublimação para um ideal"
Dulce e Rodrigo: uma forma de amor
Quando Rodrigo Spinola chegou para jantar o anunciado suflê de camarão, na noite em que ele e Dulce foram assistir a comédia italiana...
Não, não nos apressemos. Para o bom entendimento do que se relata, devemos falar mais sobre Rodrigo Spinola (afinal, da sua atitude depende a vida do Sr. Taveira), cuidando de evitar supressões de informes, supressões que, injustamente, possam enfraquecer alguns dos traços marcantes da sua personalidade. Não se creia, por exemplo, que, em coisas do amor, ele é um pobre coitado, aceitando Dulce como esposa por não lhe ter sido possível a conquista de Nair. A mulher, agora infelicitada pela deformação das pernas, nunca lhe pareceu como um prêmio secundário. Na realidade, ele e Dulce gostam-se e desde que passaram a conviver no parque infantil do grande edifício da rua Pacífico Medrado. A amizade prosperou fácil, até porque seus pais tinham essencialmente muito em comum: eram proprietários de firmas dedicadas a empreendimentos imobiliários, excelente fatia do mundo dos negócios mais rentáveis. Ambos pertenciam ao Lions Clube, detinham cotas em luxuosas agremiações dedicadas ao lazer e aos esportes, repetiam que se o governo não estava absolutamente certo, "de qualquer forma o que temos é melhor do que os ismos da subversão e da corrupção" , e desdenhavam as "modernidades" de uma Igreja Católica a desnudar-se de mistérios tão necessários, como a incompreensibilidade das missas discursadas em latim. E muitas coisas mais.
Spinola teve a sorte, se isso é sorte, de ser filho único e órfão de mãe: ele não sabe, aliás, que aquela que o gerou morreu em conseqüência de complicações decorrentes de um terceiro aborto. Dulce tem dois irmãos e sua parte na herança, por causa disso, não foi tão significativa quanto ainda é dito, se a questão vem à tona. Não é verdade, também, que, a esse respeito, Rodrigo Spinola tenha oferecido qualquer queixa e nem se lamuriado. Como esquecer as jóias herdadas por Dulce? Somente agora, convencido que sua grande afirmação na vida será a incorporação e a construção do edifício de 33 andares, um apartamento por andar, sente falta de recursos. Talvez venha a admitir um novo sócio nesse empreendimento, "já que o frouxo do Marcos" seu sócio na construtora "está se borrando de medo de encalhe nas unidades e me deixou na mão" e lembrou-se, certa feita, do Sr. Taveira, idéia que Dulce rejeitou.
- Por que você não convida Eduardo?
- Ela sugeriu.- Ele só me escreve sobre grandes fábricas, grandes parques industriais. Ou sobre filosofia e sobre essa chata dessa política que eu não entendo e nem quero entender.
Diferentemente do pai, que participava de campanhas beneficentes, desde cedo Rodrigo Spinola concentrou-se num pequeno elenco de propósitos: mulheres, negócios e discos de música americana. Gosta ainda de beber, mas não comete excessos. Tem medo que o álcool lhe reduza a potência sexual. O pai, uma vez, lhe falou sobre isso. "Um homem
- o pai disse - quando perde o tesão, perde 90% da vida. E que álcool tira a tesão é uma coisa que ninguém duvida. Tenho um amigo que me confessou isso. Assim, meu filho, acabe com essa mania de beber cerveja toda hora" .Não muitos meses mais tarde de iniciada a amizade de Rodrigo e Dulce, os pais de Eduardo, cacauicultores, compraram o apartamento de cobertura da rua Pacífico Medrado. Rodrigo se recorda que a irmã de Eduardo era muito ajeitadinha de carnes, um apetecível par de seios e belíssimo traseiro, mas aqueles lábios defeituosos desestimulavam qualquer iniciativa. Tímida, em função do defeito físico, não participava das brincadeiras da turma e vivia praticamente em clausura. O que se sabe é que ela foi estudar no Rio de Janeiro, consertou os lábios em bem sucedida operação plástica e especializou-se em Direito Tributário.
Foi Rodrigo quem aproximou Eduardo de Dulce, atitude que repetiria se tudo começasse de novo.
Sem que pressentissem o futuro, os dois garotos e Dulce passaram a se necessitar mutuamente: ali onde uma delas faltasse, as brincadeiras perdiam substancial parte do gosto, o prazer haurido fazia-se menor. É preciso ser criança para bem aquilatar a valia das gotas que certas ausências retiram das nossas fontes de alegrias. Num carnaval eles foram fantasiados como "Três Mosqueteiros" e fizeram sucesso no tradicional "Baile Infantil" do Clube Bahiano de Tênis, o mais aristocrático de Salvador. Um jornal lhes publicou a foto, indicando que residiam na rua Pacífico Medrado, "uma das mais asseadas da cidade porque nela existe um serviço de limpeza pública mantido pelos próprios moradores". Rodrigo não achou "a reportagem" cem-por-cento boa porque seus nomes foram negligenciados pelo cronista social. O pai, a seu pedido, telefonou para o diretor do jornal, seu companheiro de Lions, e a deficiência foi sanada com a republicação da foto na edição seguinte, fato que não despertou maior entusiasmo em Dulce e em Eduardo.
A escola primária era a mesma, o mesmo aquele professor que os municiava de conhecimentos idiomáticos (inglês e francês), de tarde, três vezes por semana, no hall privado do edifício. E o mesmo o ginásio. E foi lá, afortunadamente, até o casamento dela com o Sr. Taveira, que conheceram a escultural Nair. Completara-se, então, o quarteto dos grandes amigos, "um por todos, todos por um, e ninguém mais!", de acordo com estridente grito de Eduardo. Eles pensavam quase da mesma maneira. Quando o Sr. Taveira, instado pelo seu amigo Calasans, foi conhecer Nair, no apartamento de Eduardo, onde o quarteto tomava lanches, Rodrigo Spinola disse que o velho intrometido tinha cara de gavião, por causa do nariz avançado e dos olhos agressivos. Eduardo, que já o conhecia desde os tempos de Itabuna, sugeriu urubu ao invés de gavião e Nair teria preferido um bicho mais horrível porque o velho, fingindo ares paternais, tinha passado, como sem querer querendo, a mão em seus peitos, "e na segunda vez doeu, porque ele me deu um beliscãozinho no braço", ela disse a Dulce e esta replicou :
- Será que você não provocou ele? Eu acho que você sacode muito os peitos. Você devia se mexer menos, pular menos.
Ela não viu nenhuma maldade na observação e resolveu ficar bem comportada, quase sem se mover, sempre que aquele velho aparecesse no apartamento do pai de Eduardo, fato que se amiudava. E notou que os seios de Dulce eram pequenos e inexpressivos se comparados aos dela.
Filha de um advogado criminal de grande talento mas estroina, incapaz de poupar parte do que ganhava, comprando pilhas e pilhas de livros, bebendo uísque importado, sem se preocupar com o amanhã (a mulher era igualzinha a ele), Nair não era rica como os amigos e não morava na rua Pacífico Medrado. Residia, contudo, em praça bem próxima, sem serviço privado de limpeza da via pública mas, igualmente à distinta rua Pacífico Medrado, situada nas cercanias de Ondina, à sombra do "Morro do Escravo Miguel", personagem possivelmente inventado por algum incorporador imobiliário dotado de imaginação: quando estudante, Nair andou pesquisando sobre o mencionado "Escravo Miguel" e os professores que consultou não sabiam nada sobre esse misterioso personagem.
Ela era a mais velha de seis irmãos e, na opinião de Dulce e dos demais mosqueteiros, esta foi uma das raízes de sua desgraça. A segunda principal foi o orgulho. Para defender os irmãos, mantê-los estudando em colégios particulares (já nessa época os colégios públicos
- que foram responsáveis pela formação de tantos luminares da nossa sociedade - haviam deixado de ser eficazes no cumprimento das suas funções), pagar o curso de balé de Tânia, a irmã caçula, construir um mausoléu para os pais, um mausoléu em mármore, Nair cedeu à insistência do Sr. Taveira, indivíduo muito rico e tido como "bondoso agiota".Dizia-se que ele sustentava famílias de viúvas pobres. Em verdade, não são tantas viúvas, mas elas existem e nisso consiste uma das esquisitices do Sr. Taveira. Os mosqueteiros consideravam o agiota como um homem moralmente imundo. Foi cliente do pai de Nair, que o defendeu em rumoroso processo por crime preterdoloso (Aquele em que a vontade do criminoso, dirigida à prática de um crime menos grave, foi superada por um resultado mais grave; conforme verbete do "Aurélio"): uma das "vitimas" do Sr. Taveira, não podendo pagar a dívida, matara-se, deixando terrível carta; episódio escandalizado por um jornal esquerdista.
O agiota era um homem que do alto do Morro Ipiranga, onde residia, tirava proveito do acidente geográfico, e de potente luneta, para vê-la nua nas noites enluaradas e nos dias de radioso sol. Nair adorava deitar-se despida sobre uma esteira, no terraço do edifício em que morava, apenas três apartamentos, onde hoje existe o Clube Espanhol. Um edifício à beira mar, portanto. E a conjugação de sol e mar sugere às mulheres uns desembaraços de atitudes impensáveis naquelas submetidas às leis do campo: não pode ocorrer a uma moça do interior deitar-se nua num matagal infestado de carrapatos, percevejos, muriçocas, maruins, marimbondos, esses bichinhos que tanto coçam e sempre sob a ameaça de cobras. O mar potencializa sensualidades. Certa vez Nair levou para o terraço do edifício um pequeno grauçá e o colocou no sexo e sentiu cócegas gostosíssimas, sabendo, pelos reflexos do sol produzido pela lente da luneta, que o Sr. Taveira, ou o filho, estava a vê-la e, apesar da distância, mesmo a ouvi-la, porque Nair sorria com as travessuras do grauçá. Ela gostava de se saber vista e admirada. Pensava no filho do Sr. Taveira como "um bom partido", já que Eduardo perdia-se em hesitações, em dizer-lhe poemas, perseverando em que aprendesse a jogar xadrez: ele lhe parecia demasiadamente organizado e nunca falava em casamento. Mas era gentil. Era gentil e respeitador. Diferente de Rodrigo, "garoto devasso", Nair se dizia.
Esqueçamos Nair, alguns momentos, e sublinhemos, neste passo, que, a rigor, Dulce foi a primeira pessoa do sexo feminino que despertou os instintos sexuais de Rodrigo Spinola. Ainda adolescentes, eles gostavam de percorrer, em companhia de Eduardo, as trilhas das então floridas encostas de Ondina, excelente habitat de alegres e bonitas borboletas, enlouquecidas no uso das liberdades, naqueles irrecuperáveis idos. Hoje as suaves colinas de Ondina estão agônicas: semelham uma enorme cloaca de edifícios amontoados, excluídos alguns e esses são poucos. É destruindo uma dessas encostas que Rodrigo pensa em construir o sonhado edifício de 33 andares, um apartamento por andar, 30% de área verde em volta, "uma coisa
- ele diz - que será piramidal. E vou botar meu nome: Rodrigo Magalhães Spinola. Edifício Rodrigo Magalhães Spinola".Ali, em Ondina, em certa tarde de sol ameno, muitas as borboletas, o mar motivando seu espírito dado a aventuras, à busca de sensações novas, dificilmente doáveis, Eduardo decidiu deixar sozinhos os amigos Dulce e Rodrigo e atirar-se em meio às ondas convidativas, ainda agora benevolentes diante daqueles que ousam desafiá-las. Ele estava preocupado com uma frase de Dulce:
- As moças não gostam de ser olhadas e tratadas como se fossem estátuas e nem bonequinhas!
- Você acha que Nair não veio porque eu...
- Não falei em Nair. Eu falei em moças, em mulheres, Eduardo, em mulheres.
Eduardo afastou-se para a praia (gostava de masturbar-se, envolto pelas espumado do mar, pensando em Nair,) e Dulce e Rodrigo ficaram sós. Brincando de caçar borboletas, eles foram se aproximando e, de repente, estavam de mãos dadas debaixo de frondoso cajueiro. Usando muitas folhas caídas de uma amendoeira, Rodrigo fabricou um tapete sob o arbusto e convidou Dulce:
- Venha, sente aqui que o sol está forte e não é bom para a cabeça.
Dizendo "não gosto de ficar suando" Dulce tirou a blusa da farda do ginásio, mantendo-se de sutiã. Ela já não via Eduardo descendo para a praia.
- Se você está com tanto calor
- Rodrigo disse - então tire também a saia.- Não, não sinto calor em baixo.
- Você tem os seios muito bonitos. Tire esse sutiã. Acho muito grandes os de Nair. Tire esse sutiã. Você tem os seios de tamanho médio, do tamanho certo, e eu gostaria de beijar os biquinhos deles.
Ela tirou o sutiã e disse:
- Beije, mas não me bula em baixo.
Ele beijou e chupou, levantando-se depois. E não trepidou em mostrar-lhe o sexo, maior e mais grosso do que ela tinha imaginado, olhando-a com os apelos oriundos do fogo de que são feitos os desejos produzidos por instintos muito afirmativos. Ele se sentiu como um vulcão a precisar expelir incandescentes lavas já inaprisionáveis. Diante do sexo que lhe era oferecido, Dulce não demonstrou medo. Ela fez carícias com as mãos e com a boca e Rodrigo experimentou um prazer inesquecível, um prazer que, agora, no carro, voltando para casa para jantar o suflê de camarões, passando nas imediações do "Morro do Escravo Miguel", a memória devolve-lhe em restos, em parcelas diminuídas mas ainda consideráveis. Muitos anos antes, em Ondina, naquela tarde, Dulce exultou ao se saber capaz de contentar um homem. No entanto, ela não consentiu em ser tocada no sexo e nem beijada na boca. Queria, sim, queria, mas foi forte na recusa: ela imaginava Eduardo nu, entre as ondas.
Naquela tarde, em Ondina, quatro destinos receberam novas substâncias e novos motivos, consolidando as direções que os comportamentos e as idéias vinham construindo laboriosamente. Rodrigo resolveu que se não conseguisse as atenções de Nair, a amiga Dulce, tão apta como mulher, não seria um consolo e sim o resultado de uma necessidade. Com o que consentira, naqueles minutos de contato físico, ela se revelara cooperativa e apetitosa. Pequenos, ainda em formação, os seios eram quentinhos e com gosto de laranja-cravo. E ela, a também adolescente Dulce, se disse favoravelmente admirada com a desenvoltura de Rodrigo. Ponderou, porém, que Eduardo, e só ele, poderia opinar sobre se agira bem ou mal ao acariciar o sexo do colega e amigo. Isso pode ser, na ótica de um moralista caturra, uma atitude condenável, estranho aos bons códigos de conduta, mas é profundamente humano e diz respeito às exigências formuladas pela curiosidade. Dulce queria, afinal, de Eduardo, um imprimátur e não por ter remorso. Queria proclamar-se capaz para o amor.
Eduardo, Eduardo, ela pensava sempre em Eduardo, e ele, ao chegar da praia, aqueles olhos bem negros, de incrível vivacidade, ofereceu-lhe conchas brancas e róseas, além de um búzio de cor leitosa. Até hoje esse búzio é guardado sob escrupuloso carinho. E não escrevemos escrúpulo (essa qualidade tão rara nos nossos dias que alguns proclamam não tê-la, com cínico sorriso estampado na cara, colhendo em troca elogios pela sinceridade) por acaso: Dulce jamais admitiu a idéia de adultério. Ela desistiu de fazer a pergunta a Eduardo, temendo perturbá-lo
- ele surgiu tão belo e mostrou-se tão feliz tentando fazê-la ouvir a canção do búzio! Ademais, ficou receosa de ser interpretada como uma "oferecida". Ele jamais lhe falara sobre questões sexuais. Dedicava-se por inteiro a cultuar a beleza de Nair, sempre com muita ternura e sem afetações. Anos depois, ganhando coragem e querendo atraí-lo para conversas que o excitassem, que o fizessem esquecer Nair por alguns momentos, ela narrou o sucedido nas encostas de Ondina e confessou que, no quente dos fatos, quis formular a indagação de cunho moral, mas recuara. "Ainda não nos conhecíamos bem e ainda não éramos adultos", ela disse.- Eu teria aprovado sua audácia
- Eduardo comentou. Eu acho que você e Rodrigo nasceram para gozar a vida e para produzir mil filhos e filhas, tanto quanto eu e Nair fomos feitos para doar 10 mil crianças ao nosso mundo. Ponha isso na cabeça, Dulce: só para o nosso mundo, nosso exclusivo mundo, e que haja apenas, em torno, os que devem nos prestar serviços, esquecendo, em seguida, que nós existimos. Eu e Nair, você e Rodrigo, nossas crianças, ninguém mais. Você entendeu, Dulce? . Ninguém mais, excluídos os trabalhadores e estes não devem ter memória. Nenhuma memória!Dulce admite como acertadas muitas opiniões do marido e uma delas em particular, a de que é difícil, é mesmo muito difícil, uma pessoa igualar-se a Eduardo no verbalizar um tipo de egoísmo que termina por parecer aceitável em parte e admissível em outra. Se, no passado, rechaçava sem arrebatamentos tal egoísmo, agora Dulce o agasalha. No "Diário" anotou, em página sem data, pensando no amigo, versos de Paul Valéry: "Admire dans Narcisse un éternel retour / Vers l'onde où son image offerte à son amour / Propose à sa beauté toute sa connaissance: / Tout mon sort n'est qu'obéissance / a la force de mon amour.".
Antes da elefantíase, via as gentes das ruas como inimigos em potencial. Agora, menores seus horizontes, atenções atidas ao que se passa nas suas províncias de viver, surpreendendo perigos reais e imaginando outros ( "pois não é que o filho do motorista Gustavo quer estudar sociologia?" ) Dulce tem as gentes das ruas como inimigos atuantes, salvo os pescadores. Aqui, ela mais uma vez concorda com Eduardo: os pescadores ganham a vida no mar, não poluem a atmosfera, não matam animais que deveriam ser preservados (a exemplo dos camaleões assassinados pelo Sr. Taveira), não participam de badernas, cantam com beleza na alegria da pesca à linha ou dos arrastões, são educados, compreensivos, sem inveja.
Ela gosta de, no carro, o motorista sempre às ordens, ir à praia do "Chega-Negro", hoje batizada de Armação, ou na da Sereia, no Rio Vermelho, comprar peixe, e "seu" Firmino, um pescador conhecido de Rodrigo, às vezes manda avisar que reservou para ela alguns quilos do delicioso "pampo-da-espinha-mole". Mas são poucos e são cada vez menos os calmos e solícitos pescadores e Dulce escreveu no "Diário" que o marido ainda desconhece: "12 de janeiro. Na praia consegui somente uns dois quilos de badejo. Tive de ir ao supermercado. Fui. Eu entre eles, os das ruas... Eles me olharam, esta manhã, como se eu fosse um animal. Pernas de elefante em corpo de mulher. Um negro suarento me mirou da cintura para cima. Olhou com gula. Eu senti arrepios e alguns era de ódio. Outros, sou sincera, prefiro não definir. Meus seios tremeram. O negro sujo, como Rodrigo gosta de fazer, se pegou no sexo. Estendi as pernas, para que as visse. Ele viu e se afastou. Sou divertida para eles. Sou uma novidade. Se eu fosse muito mais rica eu importava mulheres doentes como eu, de muitas partes do mundo, e as colocaria nos lugares em que ainda ando. À vista delas, eu passaria sem ser percebida. É uma idéia tola, esta, é um delírio! Jamais voltarei ao supermercado. Meu mundo será o mundo desta minha casa. Aqui, como nos versos de Baudelaire sobre o Nirvana, "tudo é ordem e beleza. Luxo, calma e voluptuosidade". Vi no espelho a reprodução do olhar piedoso daquela indigna velhota. E de fauno do negro. Cuspi no espelho! Farei com que todos os espelhos desta casa sejam diminuídos. Pouco a pouco. Não quero que Rodrigo perceba, e o espelho grande, o do armário dele, em que se gosta de admirar, ficará intocado. Rodrigo está ficando cada vez mais vaidoso e não tem me procurado sexualmente, mas conversa muito sobre o edifício que terá o seu nome. Oferece-me presentes e 8 entre 10 são perfumes. Esta tarde escrevi para Eduardo. Falei sobre o negro do supermercado e não vou ler ou mostrar a carta a Rodrigo. É bom que ele não saiba sobre o negro. Pedi a Eduardo que ele me mande um dos coloridos pôsteres de Hitler que estão sendo vendidos na Alemanha. Não vou usar o pôster, é claro, mas Eduardo ficará contentíssimo com meu interesse".
Na mesma noite de 12 de Janeiro, Dulce esperou Rodrigo para jantar até às 22 horas. Às duas da madrugada ainda estava acordada. Ela teve vontade de recebê-lo com três tiros de revólver na cara. Sabia que ele tinha um "caso", "e é mais que provável que seja com a telefonista Cláudia que, como Nair, tem os peitos de tamanho desproporcional. Por que algumas mulheres tem seios tão esparramados, como os de Nair". Dulce tomou um tranqüilizante, um sonífero e adicionou mais uma dose de uísque no copo. Não conseguiu interessar-se pelas primeira páginas de um romance francês que Eduardo lhe havia enviado, mas uma frase da narrativa lhe pareceu bem construída e ela assinalou : "É preciso que eu me ame mais plenamente, para que possa amar os outros e pelos outros ser amada".
Ela sonhou com o negro e o negro, no seu sonho, era amante da velhota. Ao acordar, suando, tensa, Dulce viu Rodrigo ao seu lado, na cama, e ele estava com a face esquerda muito machucada, uma perna com escoriações e ataduras em um dos pés. Adivinhou que o marido sofrera um desastre automobilístico: eram 8 horas da manhã. Havia sangue nas ataduras e ela olhou Rodrigo com desejo e se pudesse (reparou no nicho do quarto) o esquentaria com palhas de uma moderna manjedoura.
O mordomo sabia sobre o desastre, ocorrido na estrada que liga Salvador ao Aeroporto Dois de Julho, no começo da noite, próximo a local onde começavam a funcionar os primeiros motéis da cidade. O carro, um Mercedes, ficara esbagaçado, e uma "garota-de-programas" que estava em sua companhia dificilmente sobreviveria. Felizmente, graças a amigos influentes, nada foi publicado nos jornais. "O patrão disse
- o mordomo confidenciou - que eu não falasse nada à senhora até que tudo se esclarecesse. Muita gente pensou que ele tivesse sofrido uma fratura na coluna". Dulce permaneceu sentada ao lado de Rodrigo até que o médico da família chegasse e com boas notícias: fratura somente naquele pé, a precisar de ser engessado.O acidente fez Dulce esquecer o negro do supermercado.
A velha de olhar piedoso ainda lhe freqüenta sonhos e os pesadelos que se amiúdam. Quando Rodrigo tirou o gesso do pé, andando normalmente, ela guardou o revólver, herança do pai, no "Quarto das bonecas", onde a mais ninguém era permitido entrar, sob a cama da boneca maior. Casal sem filhos, habitando mansão desmedidamente grande para as suas necessidades, Dulce havia reservado no lar um quarto para a sua coleção de bonecas e outro para a coleção de discos de música norte-americana de Rodrigo. Ao notar empoeirado e sujo o vestido da boneca
- japonesa, quase um metro de altura - Dulce decidiu tecer uma mantilha para ela: as pernas da boneca, perfeitas, lembravam as de Nair e lhe fora presenteada por Eduardo. Desde garota que ela gostava de fazer vestidinhos para sua coleção de bonecas. A mantilha, planejou, seria azul e bem longa, arrastando-se pelo chão. Eduardo apreciaria muito.A calça de lamê
Pedimos desculpas se, aqui e ali, nós nos afastamos da objetividade relatorial sempre que as recordações de alguma das pessoas mencionadas, põem Eduardo em cena e sob luzes fortes. Ressalvada Dulce, ele gostaria de ser esquecido, mas isso é quase impossível. Compreenda-se: Eduardo Batista Calasans não é um excepcional, mas excede, com sua visão de mundo e com seu comportamento prático, as medidas comuns. Sob esse aspecto, e para obtermos um adequado efeito comparativo, diremos que no outro extremo situa-se o Sr. Eurides Taveira, aquele que, persista Dulce em seus planos, deve morrer no dia 5 de julho, com três tiros na cara. No cinema Dulce aperta o braço do marido, acentua gargalhada numa passagem cômica de "O Juízo Final" e se diz que a data, 5 de julho, não vem de ser escolhida de modo arbitrário. Com efeito, em tal dia e há anos aconteceu o casamento do Sr. Taveira com Nair.
Debrucemo-nos sobre "o agiota bondoso".
Como geralmente sucede em casos assim, ele é o homem que atende aos tomadores de empréstimos impelidos pela urgência na conclusão do negócio (gosta de dizer, para valorizar a importância de sua atuação no mercado financeiro informal: "Ambulância que chega tarde não é ambulância, é rabecão") ou por não oferecerem aos banqueiros legais as garantias estatuídas e julgadas indispensáveis. Ou de irrelevantes "saldos médios" e outras "reciprocidades", como dizem os banqueiros, exigência tida como diabolicamente injusta, pelos que acreditam que a paga dos juros é remuneração suficiente ao banqueiro.
Próspero no setor a que se dedica, o Sr. Taveira já não faz pequenas operações: teme os desesperados, os capazes de suicídios, os escandalosos, os que, na falta de pagamento, os invectiva com absurdas citações bíblicas, encontráveis nos capítulos que condenam as usuras, "uma coisa de malucos
- o Sr. Taveira diz - porque o mundo de hoje é o mundo capitalista e não tem o que ver com os judeus que mascavam ouro mordendo as moedas". Para ele "os restos de judeus que emprestam, desonram a gente porque cobram juros de ladrões, de "gatunos". Ressalva os judeus que são banqueiros formais, aos quais tem pavor. Só teme "os banqueiros e os comunistas, mas os comunistas a gente joga a polícia em cima deles". Em um Natal, experimentalmente, o Sr. Taveira, é provável que movido pelo desejo de ser reconhecido como um igual, enviou uma caixa de uísque escocês a um banqueiro médio, aguardando, no Correio de volta, um cartão de agradecimentos. Ou que o presente fosse devolvido como algo desprezível, dada a sua origem. Nada aconteceu. A primeira esposa do Sr. Taveira, dona Indaiá, que o aconselhara a "não cutucar onça com vara curta", disse que, decerto, naquela hora, "o doutor banqueiro está é bebendo seu uísque, Euricles, eu bem lhe avisei, mas você é teimoso". Taveira ficou irado com a observação crítica e saiu de casa, para dar um bordejo, em busca de "menininhas" alugáveis. Melhor que se afastasse da mulher, não queria discutir, brigar com ela, até porque o coração dela andava em frangalhos: dona Indaiá morreu uma semana depois e o filho, chamado carinhosamente de Taveirinha, teve uma crise de choro, querendo, a pulso, se abraçar com a mãe morta. Ele se disse que o menino não era "bom da cabeça" e decidiu interná-lo num colégio de padres, embora temesse que Taveirinha, fraco do espírito, terminasse virando veado - uma suspeita infundada: Euricles Taveira Filho é hoje um jovem doente de tristeza, doente de não saber triunfar sobre a timidez, doente de uma transgressão que a Bíblia condena. Ele é perseguido pela tara de Onã, pecado que viu largamente difundido no colégio, onde os colegas reuniam-se para "espancar o macaco", pecado contra o qual luta, dando os primeiros passos, com a ajuda de um competente psicólogo. Dizem que ele é um bom rapaz. O seu objetivo na vida é ensinar inglês. Quem sabe, traduzirá os poemas e os ensaios teóricos de Ezra Pound. Estuda violino e Nair o tem por bastante sensível: em muitos aspectos as opiniões de Taveirinha lembram as de Eduardo e isso não deixa de ser bom.Vencidas as primeiras etapas, os atuais clientes do Sr. Taveira são, quase todos, médios e altos negociantes, especuladores do mercado financeiro, alguns industriais
- e saliente-se que sua rede estende-se além das fronteiras da Bahia.Ele é alto, magro, a tez corada, poucos cabelos na cabeça pequena e ovalada e um tanto desajeitada em relação ao corpo, o que não o torna repugnante e sim feio: no antigo Mercado Modelo, que o fogo consumiu, a garotada chamava-o de "o homem da cabeça magra". Magras também as mãos, os dedos são longos, nodosos e no anular esquerdo o Sr. Taveira usa um anel de platina e, nele engastado, belíssimo diamante que, à luz, segreda suaves tons azuis
- e azuis sempre inéditos, jamais a se repetirem. Ele dorme com o anel, ele faz tudo com o anel, a exceção das manhãs ou tardes em que, e isso já pertence ao passado, ia (como alegava à dona Indaiá) "para as ruas pesquisar como é que o povaréu está pensando". "No dia em que for impossível alugar as gentes do povo as "gostosas menininhas" ou eu estou ficando muito velho ou o mundo está se acabando ou sei lá! Seja o que Deus quiser porque o futuro a Deus pertence".Um homem esquisito o Sr. Taveira. Conta-se, e Nair hoje confirma, que, todas as manhãs, antes de sair para o escritório de aparência modesta e grande caixa-forte, o Sr. Taveira estende a mão enjoiada ao sol, vê a rara pedra a faiscar, com ela conversa, como se a interrogasse sobre as transações de que se ocupa, ao lado de assessores engravatados, fingindo tal tranqüilidade no trato com o dinheiro a ponto de parecer negligente, como se o dinheiro lhe escorresse das mãos. Na verdade, se a quantia é muito grande, ele sua nas axilas, apesar do ar refrigerado: cada cheque que assina planta-lhe uma grande emoção. É como se parte do seu corpo lhe fosse tirado, extraído lentamente. Quando aquele comerciante se suicidou, causando-lhe considerável prejuízo, ele olhou com raiva para o brilhante do anel, retirou a jóia do dedo, devolvendo-a ao estojo. Só voltou a se apaixonar pelos suaves tons azuis quando o caso foi encerrado graças ao grande saber jurídico do pai de Nair e à compreensão de uma justiça realista.
Sim, o Sr. Taveira tem hábitos esquisitos e um deles é o de comprar sacos de gafanhotos com os quais alimenta gordos camaleões que lhe são enviados da sua fazenda de gado, em Itapetinga. Os camaleões, por sua vez, servem para os guisados que ele tanto aprecia, embora ninguém saiba agora prepará-los como dona Indaiá. A carne de camaleões bem alimentados lembra a de jacaré, que alguns conhecedores têm por desenxabida, crespa e que "os de paladar enjoado" simplesmente condenam por erro de apriorismo exacerbado. "A carne de camaleão
- ele disse, um dia, ao amigo Calasans, pai de Eduardo - é como algumas dessas menininhas que precisam de muitos presentes para um bom serviço de cama. Ela tem que ficar no molho umas 24 horas. Outra coisa é que camaleão não aceita óleos comuns. Para comover o bicho é preciso que o óleo seja da flor do dendê ou de oliva, da melhor oliva de Portugal". Ao invés do assoalhado, não se trata de receita culinária aprendida em cardápios desses restaurantes internacionais especializados em pratos exóticos. No "Bundy's", de Nova Iorque, por exemplo, ele encontrou até deliciosas baratas fritas em molho picante, mas o próprio cozinheiro-chefe, interrogado por Taveirinha (aliás, o velho se orgulha do inglês do filho), nunca ouvira falar em moqueca ou guisado de camaleão.A estranha preferência gustativa vem do tempo em que, ao lado da fiel Indaiá, ele como diz, viveu "comendo da banda podre, pra economizar cada tostão". Mascate no Sul da Bahia, tendo vindo de Sergipe com 18 anos e já ao lado de Indaiá, um inverno mais velha do que ele, o Sr. Taveira foi construindo as origens de sua fortuna, vendendo quinquilharias nas fazendas de cacau, "naqueles tempos de gente macho, aquela gente do trabuco e do sonho de grande riqueza".
Ao contrário do que se pensa, o Sr. Taveira não é sergipano (Sergipana era dona Indaiá ). Ele nasceu numa vilazinha baiana, às margens do São Francisco, hoje submersa no lago da Barragem de Sobradinho. Muito moleque e respondão aos pais, com 12 anos fugiu de casa e serviu de guia para um cego. Capaz de gratidão, o Sr. Taveira gostaria de reencontrar os ossos desse cego, "um homem bom, com voz de santo, um homem sábio", e enterrá-los no Cemitério do Campo Santo, num mausoléu mais rico que qualquer outro, mais bonito que o do governador Otávio Mangabeira. Talvez o Sr. Taveira exagere quando fala assim, mas, em essência, ele não mente. O cego pagou para que um engraxate lhe ensinasse o ofício. Taveira progrediu com rapidez sob a orientação do cego e com poucos meses já tinha sua própria "cadeira-de-engraxate", numa praça de Aracaju.
Indaiá, que era doméstica numa casa próxima, admirava a tenacidade daquele meninote que trabalhava com afinco desde as primeiras horas da manhã, desvelando-se nos cuidados com o velho cego que sofria com uma grande inchação na perna direita. Chovesse ou não, eles dormiam debaixo de uma marquise e certa noite o cego pressentiu que a "cadeira-de-engraxate", o ganha pão dos dois, seria roubada por capadócios que não queriam nada com o trabalho. Indaiá viu com que ferocidade o meninote defendeu-se e o ajudou com gritos: um guarda-noturno os socorreu. Mais ainda, aquele guarda-noturno conseguiu que o velho obtivesse permissão para dormir nos fundos de uma garagem abandonada
- e foi nesse local, enquanto Euricles Taveira e Indaiá amavam-se tempestuosamente na grama da praça escura, que o velho fechou os olhos. De manhã, quando eles foram levar uma caneca de café quente para o cego ele estava morto. Indaiá viu lágrimas nos olhos de Taveira, mas não perdeu tempo: foi buscar o protetor, o guarda-noturno e este teve o bom senso de sugerir que os dois apanhassem o que o falecido tinha de valor - tudo numa trouxa - e dessem o fora dali. Como paga de quanto fizera só queria a "cadeira-de-engraxate", para um filho que chamou de "moleque descarado".A idéia de migrarem para o Sul da Bahia, para as terras do cacau, foi de Indaiá e isso porque lá residia um primo e ouvira conversas animadoras sobre a riqueza da terra, na casa em que trabalhava como copeira e ajudante-de-cozinheira. Assim também porque, na trouxa do velho cego, havia encontrado, além de ervas e de miniaturas de santos, feitas em madeira, moedas e cédulas no valor de seiscentos e vinte e três mil réis, quantia que não conseguiriam amealhar, mesmo que os dois trabalhassem meses seguidos, ela como doméstica e ele na "cadeira-de-engraxate" que nem mais lhe pertencia. Taveira pensou em comprar duas passagens de terceira classe num navio que, partindo de Aracaju, os deixaria em Ilhéus, na Bahia. Indaiá não quis
- "pra que luxo de navio?" - e eles vieram andando, vila após vila, cidade após cidade, fazendo pequenos serviços aqui e ali, um percurso que durou quase dois anos, até que atingiram a hoje Itajuipe, onde vivia o primo.Esse primo, Melchiades da Assunção Barreto, tinha sido abandonado pela mulher e estava meio maluco. Além disso, sofria de tuberculose e todos evitavam sua casinha de adobe, na periferia da cidade ainda sem nome. Uma noite ele desapareceu na mata e umas semanas depois vizinhos disseram que, com certeza, o louco que sabia a Bíblia de cima-pra-baixo e de baixo-pra-cima, fora comido por onças ou por uma "cobra-devora-boi". Indaiá se apossou da tapera e do que nela existia: um tabuleiro de mascate, algumas quinquilharias, meia dúzia de vidrinhos de perfume vagabundo, retroses, dois carrinhos de linha marca "Dois Corações", agulhas para coser e um corte de lamê vermelho, "fazenda muito bonita", ela disse, os olhos brilhantes de vontade.
- É bonita, sim, mas não pra você. Isto é pra vestido de puta, Indaiá, você bem sabe que é. Se ainda fosse branca...
Taveira e Indaiá não deram importância à terra do primo, umas poucas tarefas, menos que 10 hectares e naquele fim de mundo. Ele preferiu tornar-se mascate, igual ao que o primo de Indaiá tinha sido antes de ser abandonado pela mulher. Com a benção e o incentivo da companheira, "caiu no mundo pra assuntar sobre o negócio". Conheceu o árabe Fuad no meio de um picada na direção de Itabuna. Fuad também mascateava. Taveira ouviu mais do que falou e, no seu regresso à tapera, uns quatro meses depois, já se apresentou à Indaiá com dois jumentos cujos caçoás estavam cheios de mercadorias e um presente: belíssima saia de lamê branco. Ela guardou a saia, decidida a usá-la quando encontrasse um Padre que os casasse. E não tinha pressa. No jantar do seu retorno, pela primeira vez, Taveira comeu uma moqueca de carne de camaleão e achou deliciosa. Ele estava com muita fome.
Comerciando de fazenda em fazenda, numa delas conheceu o pai de Eduardo, um homem que, como ele, decidira empregar todos os esforços, todas as astúcias, toda a coragem, para "vencer na vida", enricar. E, ao modo deles, conseguiram o que pretendiam, e talvez mais. Um negociando com cacau, gado, frutas, o que a terra desse, outro, Taveira, com suas mercadorias, até descobrir, e isto aconteceu em Itabuna, que o melhor, o mais rentável, o menos perigoso (já se matava muito na região cacaueira) era alugar as moedas e as cédulas que ia amontoando. Ele trocou com o pai de Eduardo a tapera e a terra do primo de Indaiá por uma casinha em Itabuna. Era residência e escritório e foi na sala da frente que um Padre veio casá-los "sob a Lei de Deus e também as leis dos Homens". Indaiá usou a saia de lamê. Ela sabia que Taveira gostava de alugar mulheres, não dava a isso a menor importância, desde que nenhuma fosse em Itabuna, onde ela estava sempre pronta e disposta para satisfazer suas necessidades sexuais.
- Dona Indaiá
- disse o pai de Eduardo, em uma das passagens de Taveira em sua fazenda - é uma mulher de tutano e de boa água na cabeça. Erotildes é uma vaca medrosa: teve Eduardinho e a Mariazinha e não quer saber mais de filhos porque a menina nasceu com defeito nos lábios. Resultado: meto-lhe o pau por detrás e dou-lhe umas porradas.O que mais os aproximou, além da pertinácia na construção da fortuna, foi o gosto pelas mulheres jovens, "as menininhas". Trocavam informações a esse respeito e era como se falassem de graciosos animais. Os dois já residindo em Salvador, muitos anos depois, o pai de Eduardo disse:
- Meu filho tem uma coleguinha que é uma bichinha da gente nunca esquecer. O corpinho perfeito. E que perninhas lindas! E que peitaços! Outra noite passada, eu sonhei que estava dando nela um banho de língua dos pés à cabeça. O diabo é que não posso nada com ela que ela é colega de Eduardinho, embora eu não queira o namoro dos dois.
- Filha de gente de posses?
- Nada disso. É filha daquele sujeito que foi seu advogado no caso do maluco que se matou.
- Por que eu nunca reparei?
- Você está ficando velho. Vá ver a bichinha. Apareça lá em casa pelas 4 horas da tarde, é a hora em que Eduardinho e a turminha com que anda tomam merenda. A bichinha come que faz gosto.
O Sr. Taveira, que estava cansado das mulheres de aluguel, sem os dengos que ele achava envolventes e muito sensuais, não demorou em aceitar o convite. Em Nair logo pregou os seus sentidos de atenção, de pesquisa minudente, de conhecedor experimentado em "menininhas" de muitas cores e muitas formas. Nair o impressionou, também, pelos peitos de carnes tenras e biquinhos de roseta, talvez dotados de calombinhos
- aquelas protuberanciazinhas que fazem cócegas as mais estimulantes. Estranho, algo antes jamais acontecido: os olhos verdes de Nair irradiavam luminescências indefiníveis. Ela tinha, então, 15 anos e se, como vimos, já pensava em Eduardo, se temia um pouco certos modos de ser de Rodrigo, não deixava de ponderar sobre o futuro com o filho do Sr. Taveira, talvez o mais rico, na época, de todos os que residiam no Morro Ipiranga. O pai falara, em casa, sobre o filho único de Taveira, surpreendido pelos seus conhecimentos de inglês e de literatura inglesa.Na manhã seguinte ao primeiro encontro, ao alimentar os camaleões (ele gosta também de pombinhos assados com molho tártaro), o Sr. Taveira viu os olhos de Nair incrustados no diamante a faiscar. E o verde intenso não conflitava com os suaves tons azuis. Na verdade, os diferentes matizes pareciam trocar carícias e os do azul se fortaleciam: tornavam-se de um azul como o azul do mar. Ao apelar para o diamante, naquela manhã, ele queria, apenas, anúncios do sexo de Nair, mas aquele verde dos olhos o perseguia e na cambiância das cores terminava por predominar aquele forte azul de mar, talvez a significar bons augúrios, promessa de mais dinheiro e de prazeres insuspeitos. E compreendeu que Nair não era uma "menininha" qualquer, coisa do povo pobre, desleixada, "o povo que usa farrapos e não macacões", "menininha facilmente adquirível ou alugável por uns tantos mil-réis". Era um produto especial, a requerer, assim, pertinaz comportamento de caçador cuidadoso, calmo, determinado, eficiente, disposto a esperar o tempo que fosse necessário para o bote definitivo.
Ele não trabalhou, naquela manhã. Como antigamente fazia, nos primeiros anos de Salvador, Taveira livrou-se do anel e saiu às ruas, como uma pessoa comum, um homem qualquer, disposto a pesquisar sobre "como é que o povo pensa". A roupa surrada, embrenhou-se no burburinho do antigo Mercado Modelo, redescobrindo odores habituais, apesar da maresia que vinha do mar da baía de Todos os Santos. Odores que o reatavam aos tempos da roça, aos tempos em que fora denodado mascate. E era agradecido por um passado que lhe devolvia memórias que o faziam sentir-se digno proprietário de quanto possuía: "Se sou rico
- ele dizia - , sou rico porque trabalhei e não por causa de heranças", esquecendo-se dos seiscentos e vinte três mil réis que o velho cego lhe deixara, esquecendo-se que o guarda-noturno poderia ter roubado todo o dinheiro, esquecendo-se da tapera e dos poucos alqueires de terra deixados pelo primo de Indaiá.No mercado, depois de jogar umas partidas de bozó com os sebentos dados do árabe Fuad, antigo companheiro de mascataria, cuja barraca e os primeiros sortimentos de secos-e-molhados ele financiara, sem cobrar juro nenhum, como paga dos aconselhamentos recebidos naquela picada aberta no mato entre Itajuipe e Itabuna, o Sr. Taveira bebeu duas cachaças com o belchior Ezequiel, reparou no verde do limão, lembrou-se dos olhos de Nair, aqueles dois faróis que lhe iluminavam misteriosas regiões do interior do seu ser antes remansoso, xingou os marinheiros americanos
- os gringos louros enxameavam a cidade aquele dia - e comeu algumas pititingas fritas em azeite-de-dendê no tabuleiro de "Dona Véia", excelente criatura, fornecedora de degustáveis "menininhas", com ela havia aprendido que na região do rio Paraguaçu e, além, em cidades do sertão que chega até a Chapada Diamantina, hímen se chamava "vintém", expressão que ele considerou pertinentíssima: "Se um é pouco - dizia - , milhões nunca são demais". A seu modo, como se vê, o Sr. Taveira não é destituído de senso de humor. Aqui, e sem anemias de "en passant", informe-se que um alegre gesto do Sr. Taveira, anos atrás, comoveu profundamente "Dona Véia" e quase todos os do seu vasto círculo de relações: madrinha do bloco carnavalesco "Segura o Samba, Não deixa Cair", ela recebeu do Sr. Taveira, por serviços prestados, e como adjutório para os "folguedos de Momo", nove peças de lamê em três cores: azul, vermelho e branca.- São as cores da Bahia e do Esporte Clube Bahia, mas são também, e principalmente, as cores da bandeira da França, pátria da liberdade
- o Sr. Taveira explicou à idosa cafetina. As fantasias devem ter sempre essas três cores. Não quero nenhuma fantasia de uma cor só. Principalmente se o lamê for branco. E no sábado, de manhã, me mande Joaninha no escritório e que vá com uma saia feita com esse lamê vermelho. E você diga que ela faça o que eu mandar. Tome aqui 50 mil réis. Té logo, "Véia".Hoje, como naquele remoto dia, ele estava de excelente humor e feliz porque o árabe Fuad abrira caminho para a "praça" de Aracaju, cidade à qual se sente muito ligado: como esquecer o cego ? . Como esquecer Indaiá ?
De volta à casa, após comprar a mais potente luneta encontrada em loja instalada no térreo do Elevador Lacerda, cartão postal de Salvador, ainda tenso apesar do bom humor (ele já era conhecido como "agiota bondoso" e temia ter sido identificado por algum cliente), o Sr. Taveira demorou-se no banho de imersão. O sabonete era verde e outra vez ele lembrou os olhos de Nair e se masturbou pensando nela. No dia seguinte instalou na sacada da mansão, com as lentes dirigidas ao terraço do prédio de Nair, a luneta com que, anos a fio observou Nair, o alvo da sua obstinada obsessão. Na mesma luneta, ausente o pai da casa, Taveirinha exercitava seu solitário vício tendo no foco a futura madrasta nos seus banhos de sol.
Hoje o Sr. Taveira já não se masturba sob a excitação das visões de Nair: ele a tem disponível para uso e gasto e exaltações de ciúmes, exaltações que sabe exorcizar. Só se perturba mais seriamente quando presencia, sem nada entender, as animadas conversas da mulher com Taveirinha. O velho gosta das novelas de televisão, mas Nair e Taveirinha, quando aceitam palrear sobre o que as histórias televisadas sugerem ou mostram, o fazem de modo condescendente. Aborrecimento, sim, ele sente, mas não lamenta o preço que pagou e ainda paga pela mulher que o enfeitiçou com a mágica do verde daqueles olhos e tudo o mais, inclusive a obediência: Nair, devotada aos filhos e a Taveirinha, divertindo-se em remodelar o palacete, recebendo a amiga Dulce para longas conversações, vive em clausura voluntariamente escolhida, nada reclama e quase não sai de casa. O que o Sr. Taveira lamenta é o alto preço do seu êxito como alugador de dinheiro. A condição presente
- agora é tido como um banqueiro informal - impede-o de voltar a viver as emoções de um íntimo contato com as gentes populares, essas que Dulce e Eduardo chamam de "eles, os das ruas".O pai de Eduardo, o amigo Calasans, morreu poucos dias após assistir (para seu grande alívio, pois não lhe agradava uma possível união matrimonial do filho com moça sem posses), o grande triunfo do Sr. Taveira na conquista de Nair, esse Taveira já idoso, hoje proibido pelo seu médico clínico de carnes que não favoreçam a digestão. As carnes dos camaleões, sobretudo.
Para alívio de Nair, cumprem agora função decorativa os muitos e gordos e verdes camaleões que ele gosta de ver na amplitude do seu jardim, animais que ainda alimenta comprando gafanhotos à meninada do Morro da Sabina, favela contígua ao Morro Ipiranga.
Mas devemos voltar a quando, os pais mortos em desastre de ônibus, Nair se viu compelida a aceitar a milionária proposta do Sr. Taveira (ela lutava pelo futuro dos irmãos acima de qualquer coisa), o agiota pensou em, na noite de núpcias, convidá-la a aparecer na alcova vestindo uma calça de lamê branco, um lamê de primeira qualidade, encorpadíssimo, resistente ao desgaste do tempo, alvíssimo e brilhante. Foi com um "corte" de lamê ordinário, baratíssimo, de um branco simbolicamente virginal, que o Sr. Taveira, e aqui usamos sua linguagem pitoresca, conseguiu "papar" o primeiro "vintém" de "menininha branca", e isso aconteceu numa fazenda de cacau, nas bandas de Uruçuca, um lance agenciado pelo árabe Fuad. A "menininha" ficou extasiada quando se imaginou vestindo uma blusa daquela fazenda luxuosa, em tudo diferente das chitas crespas, e ao ser penetrada por Taveira não deu um ai. É certo que Taveira, delicado, a untara com vaselina, mas o principal é que, nos seus devaneios, fora anestesiada pela alegria ao antecipar a inveja das colegas da escola paroquial. Lá fora, no paupérrimo alpendre, os pais da "menininha" e o árabe esperavam, ao menos, ouvir um gritinho no momento da ruptura da membrana vaginal
- e nada ouviram e Fuad temeu que o Sr. Taveira houvesse sido enganado. Ou que a "menininha" fosse dessas de hímen complacente. Os pais, que tinham vendido o que chamavam de "pedacinho de pele", não sofreram menos na espera - e sorriram, contentes, quando o Sr. Taveira surgiu na porta carregando a garota de uns 14 anos, fazendo "cosquinhas" nela.Se no Rio de Janeiro mandou buscar o custoso corte de lamê com que pretendia vestir Nair para a primeira noite, aqui, na Bahia, em segredo, o Sr. Taveira procurou a modista que costurava para a noiva e obteve, assim, um produto cujos menores detalhes foram objeto de percuciente zelo profissional, das bainhas ao cós: o "eclair" central, que na época se chamava, ainda, de "mamãe evem", do baixo ventre à cintura, era dourado. E assim também os laterais, os das ancas.
- Quanto é que eu devo?
- Nada, Sr. Taveira, absolutamente nada. É meu presente de casamento.
- Tá bonita mesmo?
- Está linda
- a modista disse, simulando um olhar de adoçante admiração. E, para não ter prejuízo de tempo, o tempo que empregara na confecção da calça de lamê, sugeriu que levasse também um "costume" cor-de-rosa, afirmando que "o rosa sempre combina bem com os olhos verdes de dona Nair", um argumento irresistível. Ele pagou sem reclamar e saiu da butique envolvido por algumas indagações que nunca lhe tinham ocorridos. Sempre se vira posto diante de cores fortes, o vermelho do sangue e aquele dos lábios de Nair, o verde das matas que conheceu e o verde dos olhos de Nair, o azul do céu, o amarelo do sol, o prateado das moedas. Dar-se conta da beleza do rosa era uma novidade amorável e ele se sentiu um pouco a criança que fora, nascida nas barrancas do rio São Francisco, indomável no querer conquistar tempos e espaços desconhecidos, carinhoso com os peixinhos que não conseguia capturar, a temer, porém, as piranhas vorazes. E de repente disse, falando sozinho:- As águas do rio eram pardacentas e feias.
A calça de lamê foi meticulosamente embrulhada e colocada numa caixa que, de tarde, Nair recebeu mas não violou os barbantes. A noite, o Sr. Taveira foi visitar a noiva, convencido que ela estaria radiante com tantos presentes recebidos. Ademais, ele levou uma boneca que deveria ser oferecida a Dulce, madrinha do casamento a realizar-se em duas semanas, nem um dia mais: Taveira tinha pressa. Ao entrar na sala do pequeno apartamento, porém, viu num canto a grande caixa intocada e estranhou:
- Você me esperou para abrir a caixa dos primeiros presentes de casamento?. Você quer que eu...
Ela aspirou ar e coragem, falando com elogiável franqueza:
- Eu já não sou virgem, Sr. Taveira, fique o senhor sabendo.
Taveira jogou no chão o embrulho contendo a boneca de Dulce:
- Quem me roubou seu vintém?
- ele perguntou, exasperado.- Vintém, Sr. Taveira, vintém? Hímen para o senhor é vintém?
- Quem papou a coisinha, menina? Quem meteu em você?
Nair sofreou a vontade de falar em Eduardo, que, consentidamente e em festa de amor, a desvirginara. Daria pistas para a verdade (não queria perder de todo o Sr. Taveira), se não a machucasse com beliscões nos braços, se não a ofendesse também com aquela linguagem da roça, se fosse capaz de uma renúncia ao que ele mesmo chamava de "coisinha" em troca de eterna fidelidade física e de atendimentos domésticos eficacíssimos: ela não vinha de concluir um curso de "artes culinárias"?
Irritado com a revelação, sentindo-se como o comprador que recebe mercadoria com peso roubado e, ademais, falsificada, o Sr. Taveira arrebentou os barbantes que envolviam a caixa, dela retirando unicamente a embalagem que continha a calça de lamê e foi beber cerveja no bar do Clube Bahiano de Tênis e não quis engordar conversa com ninguém. Quando um conhecido perguntou que diabo fazia, a uma hora como aquela, com embrulho nas mãos, respondeu:
- Bobagem: umas calçolas que eu comprei pra minha cozinheira.
Com o segundo copo de cerveja, ele achou bonitonas as coxas de uma moça que jogava voleibol, presumiu que talvez ela não fosse mais moça coisa nenhuma, "hoje em dia elas dão seus vinténs a qualquer pé rapado", invejou a juventude dos rapazes que conversavam animadamente na mesa ao lado
- uns rapazes bonitos, bem alimentados, alegres - pensou que um entre eles pode ter sido o ladrão do "vintém" que anos a fio esperou para "papar" e, contristado, foi para a casa: o palacete já arrumado para testemunhar os atos executivos do contrato nupcial, dispensáveis, no caso, precedentes epitalâmios.Ali, o filho, que viu como um lambisgóia se comparado aos rapazes do Bahiano de Tênis, ouvia disco de Frank Sinatra, um gritador de palavras desconhecidas e antipáticas, fator a mais para tornar confuso seu estado de espírito freqüentemente esbordoado por montes das azedas novidades que o iam exilando no seu próprio mundo, o mundo que edificara com imaginação e valentia, sem se permitir gozar sequer os privilégios concedidos pela juventude gasta nos mil vilarejos percorridos ao lado de Indaiá, impondo-se ao medo quando penetrava nos ínvios caminhos e picadas das matas escuras e pejadas de perigos. "E tudo
- ele se disse - para acabar ao lado de um filho já babaquara na mocidade e para perder a noiva que não tem vintém". Sem entender tantas e tais maquinações de origem não identificada, perplexo diante tantos e tais sortilégios, ele se sentiu como essas pessoas repentinamente empurradas para vida gélida, vida com gosto de amêndoas podres e, querendo reagir, que ainda podia comprar "vinténs", durante alguns minutos, debruçado na varanda do andar superior, notando apagadas as luzes do apartamento em que Nair morava, pensou em queimar a especial calça de lamê branco. Logo, contudo, a idéia lhe pareceu uma vingança estapafúrdia : "Queimar coisas - ele se disse - é queimar dinheiro. É melhor guardar. Mas, guardar para quem, Euricles, velho maluco? ". E se lembrou de uma lição do sábio cego:- Perdi os olhos, meu filho, mas agora cheiro os melhores perfumes da natureza feita por Deus. E você não. Sinto na sua pele a delicadeza da penugem das rosas. A pele é sua, mas você não sente. E quando apalpo minhas pequeninas imagens de santos esculpidas em madeira eu ouço que eles cantam e declamam e rezam para mim. Está vendo as folhas secas que trago no meu embornal? Para mim o perfume delas nunca morrerá e na minha imaginação essas folhas que você vê secas na verdade estão verdes e vivas desde o dia em que as colhi, o dia em que acordei cego na cama de um hospital de indigentes.
"É uma porra!", o Sr. Taveira exclamou e preocupou-se em reunir e ordenar as palavras de que necessitaria para, escondendo receios causados pela possibilidade de uma recusa que ele odiaria, pedir desculpas a Nair: "Quanto soma a meu favor, querida, perder uma mulher boazinha como você por causa de uma coisinha que você devia ter guardado para mim, como um presentinho? Quanto soma a seu favor você perder a segurança que lhe dou, se matando de trabalhar para sustentar seus irmãozinhos? Vamos, vamos, nada dessa carinha triste! Tome este colarzinho de pérolas e bote no pescoço que eu quero ver as bichinhas brilhando!".
Naquela noite, enquanto o Sr. Taveira guardava a calça de lamê, cuidando que ela não fosse amarrotada, dando-se por satisfeito com o discurso que faria a Nair, ela estava narrando a Dulce todo o acontecido por causa da virgindade consagrada a Eduardo ("o velho imundo chamou de coisinha o meu saudoso véu de amor!"), e por uma centésima vez afastou a idéia de casar-se com o antigo namorado sob a dependência financeira dele, "até porque o pai de Edu não gosta de mim, me acha pobre, me lança indiretas, só fica elogiando o Sr. Taveira, insinuando, sempre insinuando. São dois velhos sujos!".
- Principalmente, Dulce, eu não sou sozinha. Eu tenho cinco irmãos!
- Você é muito orgulhosa, querida, mas quem sabe se eu não seria orgulhosa também, estando no seu lugar?
- Sou igualzinha a papai e estou contente com isso. Se o Sr. Taveira me procurar de novo eu o aceito e nunca vou traí-lo. Fisicamente está claro.
Dulce aplaudiu a honradez de Nair e perorou contra o adultério físico, admitindo o que produzido pela fantasia, e desde que cometido sem exageros, sem causar perturbação no lar. E disse, em francês, que mulher alguma esquece aquele que foi seu primeiro e grande amor espiritual.
- De resto, Nair, o nosso querido Eduardo tem na memória a alegria de ter aberto o que você disse ser "véu de amor" e que eu chamei de "oferenda de amor" quando o consagrei a Rodrigo.
Nair chorou, emocionada com as poéticas palavras de Dulce.
Naqueles dias, no Rio Grande do Sul, já engenheiro, estagiando numa empresa metalúrgica de capital alemão, Eduardo decorava um poema que termina assim: "Amai-me enquanto sois bonita". Um poema para pensar, um poema companheiro da solidão, um poema que jamais deveria ser dito.
As leis, escritas ou não, e seus artigos
Dulce advinha Rodrigo Spinola, seu marido, comentando com o motorista Gustavo a desorganização do tráfego de Salvador. Ela o espera para jantar sopa de ervilhas e, em seguida, suflê de camarão, disposta a convidá-lo para uma sessão de cinema: o crítico preferido, em coluna do jornal também preferido, referira-se ao filme como uma comédia "bem bolada, excelentes atores, mas carente de um tratamento técnico correspondente ao alvo colimado. Juízo Final diverte e no frigir dos ovos, em uma época de tantas tragédias, rir é o que importa. Rir para não chorar".
Rodrigo chega e nota que a esposa está bem vestida. É carinhoso ao beijá-la. Avisa que vai lavar o rosto e pergunta:
- Você está vestida... Será que é para sair?
- Gostaria que fôssemos ao cinema, se você não estiver muito cansado.
- Estou ótimo, querida, vamos ao cinema. Há tempo para o jantar?
- Claro que sim. Vá tomar um banho, se quiser. Ponha uma camisa esporte, mas antes avise a Gustavo que ele fica dispensado. Dei folga a todos os outros criados e ao mordomo. Pretendo, esta noite, que ninguém nos atrapalhe. Você guiará o carro esporte.
- Você manda. Prepare-me um drinque enquanto me apronto.
Ela precisa de um drinque também. Trabalha no bar contíguo ao gabinete. Imaginar o Sr. Taveira morto a inquieta. Prefere um martini seco ao uísque sour. Rodrigo igualmente gosta de martini com azeitona preta, dessas bem salgadas. Ele
- Dulce se disse - está gordo e o açúcar do Sour não lhe fará bem. Como ele reagirá à idéia do homicídio? O Sr. Taveira não vai morrer sem função, como resultado de uma intenção gratuita. Deve morrer para que Eduardo volte logo da Europa, venha urgente, esteja próximo, fale, sorria, discurse contra a mediocridade dos simplórios, como Marcos, o sócio de Rodrigo que não quer participar da construção do edifício de 33 andares, um apartamento por andar, um bosque em volta e com projeto paisagístico de Burle Marx, um artista cognominado "o jardineiro das Américas" pela muito agradável, apesar de superficial, revista "Seleções do Readers Digest". Eduardo também precisa vir logo para destruir Deuses infiéis na construção da autêntica e nova "ordem natural das coisas". Deve encontrar Nair viúva, possuí-la virilmente, usando de todos os recursos disponíveis a um homem e a uma mulher no processo da liberação de todos os instintos, fazendo com que ela goze como uma cachorra faminta de lanho e de esperma, faminta de apertos, de gritos, de suores, e que os dois possam multiplicar ais e gritos capazes de endoidecer os imbecis fazedores das maiorias, e... - agora vamos usar as exatas palavras que inundam o febril pensamento de Dulce - "e que tudo isto eu possa assistir sem o pecado da inveja comum e sim com a segurança de que, para servir a Eduardo, bem aprendendo o que ele gosta, eu teria sido muito melhor do que Nair no passado, e a segurança de que ele, para servir-me, conterá seus ímpetos de posse carnal - já que estou com as malditas pernas assim - , e com palavras me fará baixar de galáxias do inapalpável mercúrio para os sonhos em relvados de apascentado azul e assim eu morra de amor, livre de vaidade quanto a atrativos físicos. Dê-me calma, ingrato Senhor Deus, dê-me toda a calma, enriqueça meu tirocino, robusteça meu poder de argumentação, embeleze minhas palavras sem retirar-lhes as incessantes seivas da força, faça-me mais poderosa do que sempre fui, porque se Rodrigo disser não, se persistir em atitude covarde, se denunciar meu plano, eu estarei impedida de matar o Sr. Taveira, e ele, Rodrigo, terá motivos para se afastar, impondo-me desquite, dizendo-me insana, jogando-me sob o escárnio, amancebando-se com aquela Cláudia. Senhor e sábio Deus, o Sr. Taveira é um verme! Ele não significa nada, é um explorador de homens desesperados, é um assassino, é um financiador de espetáculos desalmados. Ele não significa nada para o próprio filho, um coitado que se mata intoxicando-se com cigarros de maconha. Taveirinha é um incapaz para as mulheres e isto eu não invento, isto Nair me contou, coitada dela, Nair, uma amiga privada do prazer e de afeições, escravizada a pormenores domésticos, ela que era tão brilhante no colégio, tão alegre nas nossas brincadeiras, tão sensível no traduzir poesias em italiano. Dê-me calma, Senhor, dê-me o conhecimento de todos os artigos de todas as leis escritas e também a posse das outras, essas outras que estão sendo temperadas. Dê-me calma, Senhor...".- Você esqueceu meu drinque, querida
- Rodrigo diz, entrando na sala. Não, não se levante. Eu mesmo preparo.- Reparando bem
- ela comenta - você engordou desde que afivelou na cabeça a idéia do edifício.- Não tem sido fácil, mas as coisas estão andando, a construção vai em ritmo lento porque não tenho todo o capital necessário e não é fácil vender na planta um apartamento como os que estou fazendo. Dos bancos nada se consegue de financiamento.
- Você está com a barriga grande.
- Acho que vou voltar a freqüentar a sauna.
É se levantando (vai buscar o jantar) que sugere:
- Melhor do que sauna é pedalar na bicicleta fixa.
- As duas coisas. Aliás, você sempre escolhe ou uma coisa ou outra. Às vezes todas as coisas juntas fazem um bem ainda maior.
- Talvez você tenha razão. Porque talvez? . Você tem toda razão. Use a sauna e a bicicleta.
O suflê de camarão está realmente delicioso, mas Dulce se contenta com um prato de sopa de ervilhas.
De volta do cinema, observa que um dos atores, se fosse mais alto e mais magro, guardaria muita semelhança fisionômica com o Sr. Taveira. O marido não se recorda de qualquer aproximação desse tipo e repassa, com palavras felizes, uma das cenas do filme: o episódio em que aparece o dândi ou almofadinha. Nele o ator Vittório Gassmann, vestindo calça-colete-paletó, sapatos reluzentes, chapéu de feltro, flor na lapela, gravata de grande laço, irrita-se desesperadamente com a travessura de um garoto que, sozinho em casa, alheio à desgraça de um mundo condenado a desaparecer, indiferente à sua morte próxima (faltam minutos para a destruição final), atira um vermelho tomate na indumentária do dândi, manchando-lhe o terno novo em folha. A aparência, e só a aparência, é tudo o que importa ao janota empertigado. Ele investe contra o garoto, quer puni-lo, espera a volta dos pais, um retorno impossível porque o mundo já vai se acabar. O almofadinha não vê nada, nem ninguém, senão sua grotesca imagem. E se espera os pais do garoto é porque necessita de ser visto ao formalizar a queixa.
Dulce apossa-se da narrativa, põe-se ao lado do marido, imita Vittório Gassmann com fascinante propriedade quanto a gestos e inflexões de voz: ela sabe o suficiente de italiano. Rodrigo chora de rir. Dulce, então, quase já se convence que ele está disponível para uma conversa a sério: a alegria deve preparar o terreno, deve adubá-lo convenientemente. Mas entende que é aconselhável soltar as amarras dos preconceitos
- e, lato senso, Rodrigo é contra a pena de morte - com bastante prudência, uma a uma. Pergunta:- Que tal se tomássemos um bom cafezinho feito agora? E ainda que tal se, depois, bebêssemos umas taças de vinho e se varássemos a madrugada, como fazíamos antigamente?
- Ótimo
- ele diz. Vamos fazer tudo como antigamente.- Tudo?
- ela pergunta, com algum alvoroço, e acrescenta: Tudo não e você sabe porque. Você sabe que sexualmente eu não valho nada da cintura pra baixo.Olha-o nos olhos, transida por uma sensação nova, e diz:
- Da cintura pra baixo?. Não nos enganemos, querido, por favor. Vá, vá pegar o vinho que eu não demoro.
- Você é uma mulher excepcional, Dulce.
"Uma outra amarra foi solta" , ela pensa. Diz :
- É bom que você reconheça assim, é muito bom. Eu sempre apostei na sua inteligência, no seu arrojo, na sua capacidade de romper convenções, no modo racional como você encara as coisas, sem medo das transgressões diante de uma moral estatuída há séculos e por isso já bolorenta. Você é sempre permeável a idéias novas.
- Qual o vinho que você prefere?
- Qualquer um, desde que seja alemão, do Reno. Antes do vinho, é bom tomarmos um conhaque. Eu comprei cigarros americanos e eles também estão na geladeira. Estou com vontade de fumar um pouco, se você não se zanga.
Ela entra no quarto, após percorrer o extenso corredor, e Rodrigo Spinola, em seguida a diligências na cozinha (tem o hábito de mastigar picles quando bebe), vai para o bar. Por que conhaque? Em geral ela não gosta de conhaque. Talvez tenha querido referir-se a uísque e ele prova, na palma da mão, da garrafa de um "Vat-69", uma das marcas de uso em casa, e acha bom. A seu modo está feliz: não imagina o que Dulce lhe pretende propor. Desde algum tempo espera que Dulce, realista como é, o libere formalmente de obrigações sexuais penosas, embora reconheça que há meses ela não o venha incriminando em virtude das ausências no leito. Rodrigo intui, agora, que ela está disposta a discutir o assunto. Há bons indícios
- por exemplo: ela não lhe tomou as mãos para beijá-las, durante todo o filme - e eles se afirmam. Momentos antes, ela se decidira a enfrentar de modo corajoso as repercussões públicas daquela doença terrível. No cinema, com efeito, fizera de contas não ter reparado nos olhares misericordiosos e afastara-se de pessoas que, inadvertidamente, poderiam dar-se a comentários impertinentes. Rodrigo espera que ela diga coisa tal como "você está livre para ter uma amante, mas eu não quero saber de quem se trata. E espero que você não tenha filhos com ela. Se os tiver, porém, reconheça-os: as crianças não têm culpa". Rodrigo supõe que Dulce é dedicada enfermeira de corpos e almas, a julgar pelo que fez e tem feito por Nair e Eduardo. Ele já está no gabinete e foi aqui que, surpreendendo Nair, anos atras, ela propusera:- Muito bem, querida, se seu orgulho, ou, como você insiste em dizer, se seu amor pelos irmãos, faz com que você se entregue ao Sr. Taveira, negue-lhe a sua virgindade. Oferte sua virgindade a Eduardo.
- Dulce, isto é pecado!
- Pecado? Que diabo é pecado? Por que alguns no passado disseram que isto é pecado devemos ficar toda a vida a proceder de modo imbecil? Pecado é não saber amar com doação, com sacrifício, com renúncia. Pecado é um reles pedaço de pele impedir que Eduardo guarde para sempre sua recordação. E, como você sabe, ele vai partir para sempre. Aceito seu casamento com o agiota, mas não aceito que a ele você dê sua virgindade.
- Eu teria de contar ao Sr. Taveira.
- Pois conte. Eu, por mim, remendaria meu pedacinho de pele e acabou-se.
Rodrigo recorda a cena
- Dulce esteve magnifica - e lamenta não ter preparado a alcova de tal modo que pudesse presenciar os poucos encontros amorosos de Nair com Eduardo: gostaria de ver Nair inteiramente nua. Gostaria de ter avaliado a capacidade sexual dela e também a de Eduardo. Segundo amigos comuns ele não era um bom parceiro de cama.Enfim... Dispõe o "criado-mudo" perto de sua poltrona. Se, de fato, como espera, Dulce ensejar ocasião favorável ele falará especificamente sobre Cláudia, a mulher do escritório, nada que importe em compromissos com predominâncias afetivas. Cláudia não é mais do que uma fêmea dotada de um belo par de pernas. É ignorante, tola, vaidosa, de seis flácidos. "Os seios dela são tetas de uma vaca envelhecida, Dulce. De resto, ela é a própria vulgaridade. Só me fala em programas de televisão. As únicas emoções que conhece são as que assiste nas novelas, Dulce!"
- dirá assim. Ouve Dulce cantarolando trecho de "Stand up and fight", interpretada por excelente coro em filme recente baseado em "Carmen", a opera de Bizet, e robustece a convicção de que são bons os augúrios para um entendimento de adultos. "Estou lhe dizendo estas coisas, Dulce, para que você não seja surpreendida com informações de terceiros", também dirá. Ela já sabe de Cláudia? É possível. O certo, então, consiste em esperar a oportunidade. O tema deve impor-se naturalmente e assim há de suceder porque Dulce é uma mulher que não recua diante de grandes provações. Enfrenta-as de cara.Rodrigo acende um dos cigarros americanos. Gostará que Dulce não lhe surja nua, como surgia antigamente. Agora deformada, é melhor que apareça com um dos robes que lhe cobrem as pernas e os pés estupidamente agredidos, uma estupidez tanto maior porque, na parte superior do corpo, "da cintura para cima", ela continua o que era. Ao contrário de Nair, que os tem volumosos, desengonçados, antiestéticos em tudo, os seios de Dulce são perfeitos e em nada mudaram, e sim ao invés, desde que sob o cajueiro os vira, os apalpara, os beijara voluptuosamente. Deles não se recordara, no carro, a caminho de casa para o jantar e, depois, de casa para o cinema? E volta antiga ideação: se tivesse se casado com Nair terminaria por obrigá-la a uma operação plástica nos seios e mostraria ao cirurgião especializado os seios de Dulce, indicando-os como modelo a ser fielmente copiado. Nair aceitaria de bom grado a sugestão. Ela sempre deu muita importância ao seu corpo. Gosta de exibir as pernas ainda hoje que está casada. Com a força da imaginação, que é capaz de milagres, ele coloca Nair na poltrona que Dulce virá ocupar, logo surja no gabinete. Nair está nua e com as pernas abertas mostrando o sexo, dura como uma estátua envolta em gelo. Ao derredor o capim está crestado, quase morto. De repente Nair chora e desaparece como gelo seco evolando e são pequenas as nuvens de fumaça. Pequenas e rápidas. Rodrigo Spinola está inquieto. Por que todas as vezes Nair chora? Por que é sempre fugaz sua presença? E não há resposta e a fantasia se dissolve.
Agora a poltrona está vazia e nela Dulce virá sentar-se, antes que se deitem no carpete, como antigamente, entre os dois o balde com gelo e, nele, o vinho alemão, do Reno. Uma vez, lembra-se, em longo pesadelo, viu-se a serrar a escamosas e duras pernas de Dulce, substituindo-as por duas de plástico supermoderno, pernas bem torneadas, idênticas às de Nair, inclusive com aqueles inimitáveis pelos ensolarados, e Dulce, agora dona de toda a alegria do mundo, e assim perfeita mulher, saíra bailando num descampado de relvados muito verdes, como são os das mansões britânicas, e no meio da paisagem o magnificente edifício de 33 andares, um apartamento por andar. Dulce usava uma leve túnica grená e Cláudia, com um vestido roto, chorava de inveja. Rodrigo apalpa o sexo, está excitado. Uma nova dose de bebida e agora o perfume do uísque combina-se com o do café. Rodrigo atravessa a área do gabinete, a sala de estar, a sala de jantar, o corredor e chega à porta da cozinha: Dulce, felizmente, está com calça de pijama, a boca adequadamente rodada. Assim, os pés e as pernas não aparecem. O busto, porém, por nada é encoberto. Ele diz:
- Se o gosto corresponder ao odor, este será o melhor café que já tomei em minha vida.
Nos seios, ele nota, há marcas do sutiã retirado. Precavida, ela sempre teve o cuidado de usar sutiã para que os seios nunca descaíssem, a se tornarem desgraciosos. E ouve a voz melodiosa:
- Será, sim. Será o melhor café que você já tomou em toda a sua vida.
Dulce o encara e ele descobre que o tempo talhou no rosto dela traços de uma beleza severa, insinuante, uma beleza madura, de estranha força, sobretudo nos lábios que se movem:
- O que é que você ainda faz com esta roupa, homem de Deus? Ou você esqueceu que, antigamente, em noites assim, ficávamos sempre nus? . Veja-me: estou nua com a minha metade sadia. E você não precisa esconder nada.
Rodrigo retorna ao gabinete. Ela o segue com a bandeja e as xícaras de café. Diz:
- Sim, querido, você não precisa esconder nada. Se você tivesse o rosto e os cabelos de Eduardo, sem nenhuma mudança nos olhos, você seria mais do que Eduardo. Você seria um Apolo.
A menção a Eduardo o castiga um pouco. O elogio, contudo, vale mais: é bálsamo que logo cicatriza a pequena ferida. E sorri.
- Venha
- ela pede. Venha. Deixe-me despi-lo, como antigamente. Não se torture com o medo de mostrar seu membro enrijecido. Eu o satisfarei com as mãos. E também com tudo o mais, se você quiser. A partir do fim do filme, Rodrigo, e não sei porque, talvez por causa do título, eu pensei em fazer o impossível! para não perdê-lo, tenha você as Cláudias que você quiser. Mas você deve concordar com um pedido que vou fazer.- Então, como eu supunha, você já sabe de Cláudia. Eu pretendia lhe dizer, mas temia muito magoá-la. Cláudia é uma imbecil.
- É, eu já sabia. Mas por que falarmos em ambulante depósito de esperma?
- Não entendo, então, aonde você quer chegar, mas acho que deveríamos nos poupar de exibições físicas. Podemos nos dispensar de questões que prejudiquem o mais importante que é a nossa amizade. Você sempre disse, Dulce, que sexo é fundamental mas não é tudo na vida. E assim, por que, esta noite, tudo isto?
- Eu preciso de Eduardo ou muito próximo ou muito distante. E é distante que ele está agora, desgraçadamente.
- Continuo não entendendo.
- Eu quero ver pronto o seu edifício de 33 andares e para isso venderei minhas jóias, meus quadros, meus santos, cada flor do jardim, meu carro esporte, venderei tudo! . Até, se necessário, minha coleção de bonecas.
- Meu bem, não se exalte...
- Eu farei com que você tenha Nair e aqui em casa!
- Diabo, Dulce, ponha os pontos nos is!
- Eu desprezo os seus restos de desejos, querido, e quero você na mais pura e forte amizade, eu esteja onde estiver
- até numa cadeia. Quero você capaz de imensos sacrifícios por mim e em seu favor. Cada alegria sua serão milhões de alegrias para mim. Mas você pensar nos restos de desejos me tolhem qualquer iniciativa.Os seios, aqueles seios, se movem majestosamente a cada palavra:
- E posso, eu sei que posso transformar esses seus restos de desejo num hino de amor, um novo amor, numa epopéia.
- Como, Dulce, como?
- ele sente que vai ceder.- Fique nu e prove-me que já não existem somente restos de desejo. Ou então permita que eu possa apaziguá-los da forma como já disse. Não fazíamos assim quando, antes do casamento, eu não permitia que você me tocasse em baixo?
É um desafio, o esperado desafio, e Rodrigo replica ao mostrar o pênis rijo:
- Nesse caso, Dulce, não continue velada. Se você mostrar a hediondez das suas pernas eu acho que não continuarei assim, tão excitado.
Ela se desvencilha da calça. Rodrigo vê as pernas horríveis, mas os seios, o rosto, as mãos delas falam mais alto. Os olhos faiscam, a respiração é a da loba que quer saciar para ser saciada e Dulce masturba Rodrigo e mela-se no rosto com o sêmen abundantemente ejaculado e em seguida, afastando o marido, não o querendo perto, a ordenar que ele feche os olhos, masturba-se também, agitando-se como uma possessa.
Rodrigo gosta de ver.
E, pouco a pouco, a calma vem, maciamente, adormecendo os instintos antes em fúria. Sem que se falem, sob esse aspecto, entendem que acabam de descobrir "uma novidade". Com dose de uísque puro, Rodrigo Spinola aborta um início de indisposição estomacal. Deita-se ao lado da mulher e diz:
- Não é necessário você vender as suas jóias, mas elas podem servir de garantia para um bom empréstimo que desejo propor ao Sr. Taveira. Ele ficaria, também, com o apartamento de cobertura, quase 2 mil metros quadrados.
- Não, não, a cobertura será nossa. O agiota sujo se contentará com um ou dois nos primeiros andares. Ele só pensa baixinho. É um vulgar.
Já agora ela esquece (ou adia, não se sabe), motivada pela "novidade" que acaba de descobrir, todo o planejado acerca do Sr. Taveira. Está tão reencontrada que não quer Eduardo próximo. Que se mantenha distante, sem prejuízo de continuar a admirá-lo e mesmo adorá-lo por seus dotes de espírito muito superior. Decide escrever-lhe uma longa carta e irá argüir que, pensando bem, existe sim uma "ordem natural das coisas", mas, diversamente do que o amigo sustenta, Deus não a fez usando somente os perfumes e toda a beleza do céu e da terra, e sim também, em Sua obra imperecível, o Bom Senhor Todo Poderoso incluiu, sabiamente, sangue ,fezes e urinas. Sublinhará que "os das ruas, estas ruas de negros com olhares concupiscentes, de gentes apenas feitas de barros", jamais compreenderão coisas tão grandiosas, "mistérios de origens transcendentais", e assim porque "meu querido e cálido Eduardo, são gentes que só pensam em comida, em futebol, em encher o mundo de filhos esfarrapados e ignorantes; só pensam, amor, em carnaval, em micaretas, em algazarras, em badernas, em cachaças. Querido Edu: eu vou escrever a você mais demoradamente para explicar, sem economia de palavras, os novos sentimentos que há pouco me assaltaram toda, impressentidamente me bulevarsando, seivando-me com novo vigor para viver experiências magnificas
- e digo-lhe, com franqueza, que, antes, quando nos conhecemos durante tantos anos eu vivi como uma tola, guiando-me pela moral dos outros, sem saber-me capaz de construir a minha própria. Rodrigo é magnifico! Ele construirá o mais alto e luxuoso edifício do Nordeste do Brasil. Adeus, Eduardo. Por favor: desenvolva suas teses sobre a necessidade de criarmos pequenos e atuantes círculos capazes de, gradualmente, estimular o aparecimento de outros. Adeus, Eduardo. Adeus e saiba que sinto que essa distância que nos separa não quebranta e sim aumenta a nossa cálida amizade, a amizade que sempre lhe dediquei, generosa e solidária. A nossa irmã Nair não tem jeito: agora está numa comissão de "senhoras" que se estiolam em tardes de tricô pensando em blusinhas para crianças desvalidas da sorte. Com muito carinho, com afeto de irmã, eu beijo seus olhos, Eduardo, querido amigo e inexcedível colega. Adeus".Pensando mais ativamente no montão de jóias da mulher, Rodrigo lhe esfrega o sexo no rosto. Ela sacode o busto como uma imitadora de bailarina indiana. Não é na cama "do casal" que repetem as posições do jogo. É no carpete que se espojam, sujando-se também de uísque. Não importa que o emporcalhem. Na manhã seguinte, sabem, um serviçal virá limpar tudo e não fará perguntas. Como antigamente.
Desta vez, porém, encontrará intocada a garrafa de vinho. Intocado também ficará o Sr. Taveira, a quem só resta uma alegria, descobrir os novos tons de azuis do diamante e os de verde dos olhos de Nair.
Ariovaldo Matos
Primeira redação
Salvador, Maio de 1977
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