POEMAS ESCOLHIDOS

DO LIVRO


"Eu, Meu Outro" - Editora Poesia Diária - Rio de Janeiro/RJ - Programação Visual: Isabel Machado - 1a. Edição em Maio/1999.

Copyright© by Fred Matos

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FADO ANTIGO
[para Marina]

Ouço, se não me traem os sentidos,
soando das cordilheiras líquidas do mar,
cordas de aço cantando um fado antigo.

Ouço mulheres chorando a saudade dos filhos,
dos amantes, dos maridos;
marinheiros que nunca vão voltar.

Na esperança de que voltem,
trocam as flores secas das grinaldas
as noivas que nunca vão casar.

São vozes gregas, fenícias, portuguesas...,
que em comum toam, com a mesma melancolia,
a dor de quem vive só; só por esperar.


TEÇO VERSOS
[para Jó e suas Anas]

Apesar do corpo lasso,
do tesão apascentado;
teço versos, traço planos,
devaneio, me devasso.

Amanhece, não percebo,
perco a hora do trabalho.
Perco o emprego, mulher,
família, equilíbrio, dinheiro.
Ainda assim, não me emendo,
teço versos, traço planos,
devaneio, me devasso.

Amanhece, não percebo,
perco a hora da entrevista.
Perco a chance, a esperança,
perco o sono, perco amigos
(que não gostam de poesia)
e por isso teço versos,
traço planos, devaneio, me devasso.


PECADO
[para Lucinha]

Pé no pó da terra erma,
o poeta errante rompe,
sem sede, sede ou fome,
(pois a dor que o consome
é pouso, pão e sustenta),
vales, campinas e montes;
até que a noite escureça.

Busca no norte e no oeste,
busca no sul, busca no leste,
e, ampliando os horizontes,
busca nas funduras da terra,
no espaço, nas ilusões que sidera,
o nirvana, onde espera estar
o fim das aflições da espécie.

À beira dum regato manso,
deita o corpo, agora lasso,
e lança o olhar ao espaço
para ver se nas estrelas,
nas lembranças da infância,
no infinito que alcança,
distingue o destino que almeja.

Assim entendo a peleja
a que estamos condenados:
da racionalidade é o fado
que ilumina e enlouquece,
pois, pensar é o único pecado
exclusivamente humano.
Cerro os olhos. Cai o pano.


INTEGRIDADE
[para Ruthinha, amiga virtual]

Vivo está quem ama a vida
e luta até a última chama.
Se é dura a dor, reclama;
mas suporta a sua mordida.

Nossa sina até o traspasso
é trilhar caminho árduo,
onde não cabe recuo,
nem se perdoa o fracasso.

Entretanto, é sempre fugaz
tudo a que nos apegamos
e sofremos se nos enganamos
sentindo-nos como imortais.

Do que somos, só importa
chegar íntegros à última porta.


SE EU FOSSE UM ANJO

Tivesse asas, fosse um anjo,
poderia cingir-te aos braços
sem a volúpia que me inflama
e não roubaria os beijos
da boca que não me ama.

Poderia, talvez pudesse,
serenar-te o ânimo
murmurando velhas fábulas
de amizades inumanas;
tivesse asas, fosse um anjo.

Poderia, talvez pudesse,
levar-te às estrelas,
onde se pode entender
a insignificância de tudo;
tivesse asas, fosse um anjo.

Mas não sou um anjo.
Pulsam, em mim, as paixões
que movem a espécie humana,
e o meu desejo é maior
que a razão que a hora clama.


HORIZONTES
[para Walter e Lenaide]

1.

Nem todos os horizontes são horizontais.
O meu é O muro, vil, vertical, bruto,
barrando os de lá, do lado de fora;
paisagens que os poetas namoram,
e que ardem, quando findam as tardes.

Há, sei, os que são metas, metáforas,
povoados de ambições e lubricidade,
mas são ilusões, e são,
se lhes queremos alcançar, cansaço.

O meu horizonte é substantivo próprio.
É O muro. Um muro alto, caiado, sóbrio.
Mais que barreira física, moral.

Os portões ficam fechados,
mas os guardas facilitam fugas
a troco de alguns trocados.

O que posso querer do outro lado?
Liberdade? Qual liberdade?
Liberdade para ouvir que não há vagas?
ou que estou velho para o trabalho?
Liberdade para ouvir :
- Vá trabalhar vagabundo.
Quando tudo que peço são migalhas?
Liberdade para chorar
pelas crianças prostituídas?
Liberdade para roubar, matar,
ser preso, torturado, extorquido?

Não, não há liberdade lá ou cá.
Horizontes e liberdade são miragens,
estão onde não se pode alcançar,
são sonhos guardados na lembrança,
são esperanças que não tenho mais.

2.

Sobre o mar,
desponta no horizonte,
a primeira lua do outono;
última azul do milênio,
segunda deste ano.

Tapete no oceano,
ímã do meu olhar,
o manto de prata se estende
do ocidente ao oriente,
do tangível ao abstrato.

Faço um leito com argaços,
para esperar o nascente
cingindo-te nos braços.

Que o horizonte seja a moldura,
onde são suas pernas compasso.

3.

Ao horizonte parto agora,
na minha última jornada;
as mãos vão vazias,
e na alma, destroçada,
vãs são as lembranças
duma vida esperdiçada.

Da sinfonia divina,
um só acorde acorda,
fechando a tarde morna,
minha vil melancolia,
que a lua, essa madrasta,
escande na noite fria.

Soberana da noite,
velha rameira;
meu óbolo,
já paguei ao barqueiro.
Tardo em ir,
mas vou inteiro.

4.

Meus olhos buscam um horizonte etéreo,
no aparente caos da arquitetura celeste,
e fitam, além dele, além do leste e do oeste,
onde Deus engendra os seus mistérios.

Vejo-o, ele brinca, não é um homem velho,
como O vi retratado nos versos de Dante.
Tem ao lado, magoado, a presença constante
de um poeta pândego, que se pretende sério.

Reconheço-o. Sou eu mesmo, neste espelho,
que as mazelas humanas reflete.
Revolta-me ver que sou um marionete,
que Ele manipula sem amor ou zelo.

Meus olhos voltam rápidos ao horizonte,
que Desta Verdade me quero distante.


NADA É, SE NÃO EXISTE

Não fique triste menina,
chorar assim, é pecado.
Tudo é efêmero e fado.
Cumpre-nos gozar a sina
da vida que nos foi dada.
O sofrimento é baldado.

Nada é se não existe,
ou é, em memória, guardado.
Não há o tempo por vir,
todo o tempo é passado
e o passado só resiste
se por alguém recordado.

Não fique triste menina,
chorar assim é pecado.
Se o futuro não existe
e é apagado o passado,
viva somente o momento
que é agora ao meu lado.


MÁSCARA

Ainda que útil,
mesmo que bela,
tirei a máscara
que pus, por ela,
e que por hábito
virou feição.

Restou, porém,
um rosto feio,
de ricto triste
e, de permeio,
olhos vermelhos,
secos de mar.

Tamanha afronta
não se perdoa.
- Por mais que doa
(ela me exige)
"a cara alegre
volte a usar".


CONFISSÃO

Entre o que sinto e o que traço,
o que penso ser e o que pareço,
sou o aflito que disfarço.

Minha vida foi perdida. Padeço
da covardia atávica e mórbida
dos que amoldam-se ao contexto.

Minha alma foi fraudada. Ardo
de anseios postergados. Tardo
em dar cabo aos meus medos.


HERANÇA
[para Guido Guerra]

Sou o parvo que palavras lavra
como sementes em solo estéril.
A vida que levo é um escárnio,
não há quem me leve a sério.
Mitigo na alma a tristeza atávica
que levou meu pai ao cemitério.

Para iludir a fatalidade, inscrita
nos cromossomos que herdei,
faço dos sentimentos mistério
e, tendo o âmago esfarrapado
dos sonhos que sofreei,
da dissimulação faço a lei.

Mas, quando cai a madrugada
às fantasias me entrego
para cumprir minha sina
e, anônimo, em versos pálidos,
revelo os anseios e taras
de uma alma caftina.


ALTERNATIVAS
[para Mariana]

Perde a vida quem a ata a laço,
crédulo duma verdade definitiva,
quando tantas são as alternativas,
quanto astros há, no infinito espaço.

E, no perdê-la, a faz cativa
do traçá-la, traço a traço,
forjando, a régua e compasso,
as cadeias em que a escraviza.

Quem à ambição de glória ou ouro
empenha a existência, renuncia
ao seu único e verdadeiro tesouro.

Mas quem, ao sabor do acaso,
vive intensamente cada dia,
fada-se à insídia do fracasso.


MELOPEIAR
[para Guiga e Lúcia]

Na mecânica quântica do léxico,
catar palavras que desconexas
semeando melopéias sem peias.
Para pôr ritmo, verbos à mancheia.
Para os formar, use sufixos verbais
e faça um novo e rime com ovo ou estorvo
e, para contrastar, observe que serve
atentar à sonoridade acústica da lata.

Tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá.

Está na moda o poema piada

e palavras q
u
e escorrem
como se fossem cataratas.

A desconformação é um zagueiro
que só sabe dar pontapé.
(Ah! saudade de Zico e de Pelé.)
Que novo gênio nos resgate
do embuste que emburra, e urra
loas à fugacidade estética.

Poeta, amigo, entorne o caldo;
faça uma sopa supimpa,
temperada com um pouco de escarro.
Esconda um cadáver no armário.
Navegue orbitas assimétricas.
Há manchas de sangue na faca,
um verdugo no cadafalso,
e na ponta do laço; um poeta.

Na platéia exultam seus pares.

Não perca a hora da festa
onde a lascívia se instala.
Sorva da vulva, sem nojo,
a última gota de orvalho.
Se você não é ele, é ela;
tome na boca um caralho
e beba do mel que lhe oferto.

E engula que é líquido raro.

Para comover, use sem pejo:
flor, infância, dor, solidão;
a prece de uma anciã,
qualquer coisa cotidiana,
uma puta, uma cabana,
nossa irrelevância humana,
a sua febre terçã.

Vermelho é a cor do desejo,
abuse de abraços e beijos,
um violino, um piano, uma flauta.
Se abunda a bunda da mulata,
abunda no verso o tesão.
Só razão é que lhe falta.

Pinte um lago manso,
um sonho denso,
sombras de árvores e pássaros
bruma, pena, espuma, espaço;
dê asas à imaginação.
Deixe que escorra sangue na tela,
apele aos deuses do Olimpo,
aos Orixás, a Xiva, a Tupã.
Se puder, como fez Vinícius,
vá morar em Itapuã.

O mar, quando amanhece, tece
na praia o hilário e raro enlace
do côncavo com o convexo;
mas, ainda que seja ou soe falso,
não tem a menor importância :
o horizonte é uma miragem
que o poeta ocultando revela.

Se o barco é a motor, desfralde velas
que o vento enfuna e o sol enfeita
com as tintas do espírito santo.
Há uma sereia, ouço seu canto
e encantado faço-me escravo
e escrevo versos na areia
como quem borda a mortalha
com que irá ao cemitério.

É de bom tom fazer mistério.


CONTRIÇÃO

Insidiosamente virá.
A morte virá infalível.
Bem-aventurados os
que não sofrem com isso.

Eu a espero contrito,
tenho sido seu aliado,
néscio nos cuidados
que devia ter comigo.

Cedo ou tarde virá,
usando qualquer artifício
para seu abraço fatal.

Absolutamente morto,
infinitamente findo,
serei objeto, abjeto, ábdito.


AUSÊNCIAS

De ausências fio esta teia,
onde enredado me acho;
a meada trouxe do berço,
primeiro porto dos medos
onde antevi meu fracasso:
a mãe negou-me os seios,
o pai negou-me os braços,
neguei-me aos meus anseios
e lançei-me, embaraçado,
nas sendas que permeiam
as ilusões, que me atam
numa racionalidade vácua,
que me nega fé aos fados,
aos deuses, ao abstrato.

Os deuses me negam esteio;
eu lhes nego meus atos.


TEMPORÃO
[para Clarice]

Cá já há
cajus azuis
como
os araças
de Caetano,
espadas
mangas,
sapotis,
pitangas,
uma rede na sombra,
a mansidão atlântica
e um poeta insone
cantando canções de ninar.


LUZIA
[para Luzia, claro]

Corpo de mulher,
jeito de criança...
teus ímãs olhos,
(magnética metáfora),
revelam o sorriso
que a boca trava.

Nos gestos contidos
de felina mansa,
distingo o esboço
do vulcão ativo,
que, alheia a mim,
tua alma estanca.

Ao oceano prenhe
de ânsias humanas,
reduzindo os sonhos
ao que a mão alcança,
o superego ordena :
- Adapte-se à dança.

Cumprindo assim,
do original pecado,
a fatal sentença,
a vida avilta-te
na inglória luta
da sobrevivência.

O quadro pálido,
que aqui retrato,
é paisagem clara
do meu eu, reflexo
que em ti Luzia;
e é tua fotografia.


MICROGRAMAS 1
[para Danielle e Eneida]

Cinco, sete, cinco :
é a métrica exata
do poema mínimo.

 

Quando de palavras
o poeta se embriaga,
o verso estraga.

 

Sofre a palavra
se lhe mudam o sentido
em pobre metáfora.

 

Hermética música
há no silêncio da lágrima
que salga o mar

 

Flor de sangue, fogo
coral, dos campos de Java,
que Shiva fecunda.

 

Trapos coloridos
no varal dependurados
despem meus sentidos.

 

Flor da paixão, dádiva
divina, maracujá,
nascido na cruz


DESCONCATENADO
[para Marly e Ronan]

Cato palavras no Aurélio
e faço versos como muros...
Nunca ouvi cantar as musas,
nem tenho sentimentos puros.

Não tenho a visão dos místicos,
nem sei concatenar o abstrato...
Não importa o que penso ou sinto:
tudo o que escrevo é retrato.

Não quero lhes impingir pilhérias,
dizendo de coisas que não vivi,
nem quero expor minhas misérias.

Não há nada essencial de que eu faça,
(o sonho é pessoal, a vida fatal)
a trama deste drama banal.


AO DICIONÁRIO

Não faço versos com sentimentos:
são as palavras a matéria-prima.
Pouco se me dá métrica e rima:
fundamental é suscitar fonopsia.

A fonética, arcano da fonologia,
multifaceta as regras da prosódia.
Veja como é fácil fazer poesia
quando se tem um bom dicionário.

Em lugar de perplexo, escrevo vário;
o leitor entenda como quiser.
Quiça, fecundo, faça fé.

Pedante, paragógico, paramnésico,
o elóquio elíptico emascara o elo.
Eloquente uma silepse tenho ao pé.


MICROGRAMAS 2

Teu azul profundo,
nos olhos de cristal tímido,
cintila o mundo.

 

Na órbita mágica
da translação, o sol faz
e desfaz verão.

 

Ascendo as sendas
das verdes colinas mágicas
do ádito púrpuro.


SER RACIONAL
TEM SIDO O MEU DESASTRE

Quero, com imagens,
construir um mundo
onde exista perceptível
um sentimento puro;
sem que isso se entenda
me lhes afigurarei imundo.

As imagens dão ao intelecto
um subsídio suspeito:
a condição humana é a substância.
Não há o azul no firmamento,
ou o há por circunstância.

Todas as imagens são possíveis.
Os sentimentos que se vive ou cria,
são indiscerníveis e equivalentes:
Pessoa disse que o poeta finge
a dor que deveras sente.

A consciência são objetos
com que represento o mundo.
Imaginação e entendimento
não são absolutamente distintos.
"Penso, logo existo",
aprendi com Descartes.
Ser racional tem sido o meu desastre


MICROGRAMAS 3

Ela é uma flor.
Eu, beija-flor, beijo-a
e vôo alegre.

 

Vem, borboleta,
colorir minha infância
de sonhos leves.

 

O cio das moças
exala perfume raro
como flor em cacto

 

No acroamático
aerófono há mágica
de canoro pássaro


ANSEIOS
[para Mina]

Ansiava a concisão dos poetas;
dizer num só verso o indizível.
Terçar ritmo-métrica-rima;
João-Cabral-de-Melo-Neto-ser.

Ansiava a pureza dos santos;
fazer da vida um exemplo,
combater moinhos-de-vento;
Ser-Betinho-irmão-de-Henfil.

Ansiava ter o cristal na voz,
como Djavan-Caetano-Gal;
não tenho ritmo e fumo demais.

Ansiava ser grande como Ghandi.
Ansiava tanto, que de tanto ansiar
não sou, sequer, o que em mim há.


EXERCÍCIO ESDRÚXULO

Querendo cantar poema sólido,
mínima retórica e nítida temática,
procurei perenes palavras mágicas,
sílabas ancípites e estética própria.

Desejando deificada poética lúcida,
com rimas ricas e métrica clássica,
sobracei, sôfrego, signos soando líquidos,
pérolas plásticas de sonoridade acústica.

Melancólico, porém, maturei-o hermético,
elidindo a silepse em silogismo erístico,
erigindo fátuo, falso ser enigmático.

Falta-me, é fato, tutela teórica e prática
para lograr em verso veículo lógico
que o abstrato transluza em telúrico.


EU, NARCISO
[para Lídice]

O espelho, águas calmas, guarda,
doce, a imagem refletida,
e o segredo do amor que me consagro.

Voluptuosamente abraço-me líquido
concrecionando-me onde meus braços estendo.

Somente eu posso amar-me absolutamente
e dedicar-me completa exclusividade.

Quem, senão eu,
pode permear meus mais íntimos anseios
sem quedar-se em melancólica perplexidade?

Minha voz é música de divina sonoridade,
para ouví-la os pássaros silenciam
e, na cascata, a água adquire imobilidade.

Sou feliz no bastar-me infinitamente,
amando o que guardo em cada ruga do rosto:
sou velho, jovem e eterno,
enquanto houver humanidade.


MICROGRAMAS 4

Navegantes lusos,
desafiando oráculos,
geraram mulatos.

 

À cravo&canela,
mares nunca navegados,
fez-se um império.

 

Bahia, meu cântico
te dou tão dessemelhante
do que aqui há.

 

Arvore Brasil,
se plantando tudo dá.
Roubam-nos ainda.


DESVELAMENTO

Ama, em mim, apenas
o que de ti reflexo;
sou somente espelho
do que vivo em versos.

Como espelho sou,
os sinais estão trocados :
te amo onde me vejo,
te vejo se me regalo.

Perdi meu coração
num desvelamento da alma,
na clareira então aberta...,
só a lascívia se instala.


DESTERRADO
[para Eduardo e Drika]

O Mar, pai distante, ouço ainda.
O Cheiro da espuma salgada,
não obstante as leis naturais,
tenho impregnado nas narinas.

Em paulista terra, desterrado,
cumpre-se hoje a minha sina,
vivendo, como em nau imaginária,
num quarto de hotel em Campinas.

Mas não me queixo da sorte,
essa imprevisível amiga,
nem da imponderabilidade da vida.

Viver é como navegar sem rumo...
e ser feliz é enfrentar o mar
e na tempestade não perder o prumo.


À MATEMÁTICA
[para Francisco Airton]

Matemática, mãe solteira
da Ciência e da Filosofia,
sou o inculto quem adora
sua lei de perfeita simetria.

Mas, por qual insondável mistério,
como a não bastar o testemunho
que de ti dou a todos, todo dia,
me persegues com regras frias?

Vejo-te em cada flor, em toda forma.
Advinho-te até onde impera o caos
e no imprevisível salto dum animal.

Não é justo, portanto, que me exijas
que estude teoremas, trigonometria.
Contenta-te que te louve em poesia.


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