POEMAS INÉDITOS

Estes são alguns dos poemas de um possível próximo livro, cujo título provisório é "Anomalias".

Copyright© by Fred Matos

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Rendição

Vi, nos olhos do gato, a sua ira.
Crispadas, suas mãos promoviam o paradoxo do afago.
Retesados, os músculos do felino pronto para a fuga
denunciavam seu ânimo.
Como o bicho, submeti-me às suas garras,
submisso que sou, por livre vontade,
para meu gozo perigoso, aos seus desejos.

Vejo o seu sorriso vitorioso.
Compraz-me saber que, derrotado,
terei em troca o prazer:
prêmio de consolação,
mais valioso que o do orgulho da vitória.

Prefiro o seu carinho à glória e o seu amuo.
Rendo-me e rio,
um riso íntimo e silencioso que a expressão não denuncie.

 

Para o meu amor

Há a nos unir, presumo,
fantasiosas lembranças
e a diversa arquitetura
entre grutas e lanças.

Há uma só melodia
toando no insólito ritmo
da ardente libido
do nosso fremir marítimo

E há, não posso negar,
alguma qualquer cabala,
porque quando lhe vejo
eu sempre perco a fala.

Minha nova cara


Guardei a ampulheta numa caixa
onde é oculta a hora inevitável
e fiz ao mar as cartas do baralho
para a cigana não poder me ler a sorte.

Não que me importe com a vida ou com a morte,
mas porque gosto da surpresa diária
de acordar, envelhecer, fazer a barba
e no espelho descobrir minha nova cara.

 

Efígie

decifrar sinais

da sua boca

um beijo

da madrugada

o quase silêncio

sufocado

ler um poema

oculto na bruma

apenas um

um lume apenas

da madrugada

e nada mais

 

Antônio, o beato de Canudos
(Para Maria da Conceição Carneiro Oliveira)

A chuva,
primeiro gota a gota,
depois tempestuosa,
transbordando o Vaza Barris,
sua água escarlate,
sanguinolenta,
escamando torrões,
coágulos da terra,
enlameando os caminhos,
lavando o pó das pedras,
inundando o Belo Monte,
inundando o império,
submergindo o mundo,
molhava os sonhos
do Conselheiro.

Da infância,
semente da loucura e da razão,
pouco se sabe,
quase tudo é suposição.
O sertão sabe da seca,
da fome, da sede.
O sertão sabe de Deus,
da esperança, da fé.
O sertão sabe da dor,
carpida sem lágrimas,
sem esperdício d'água.
O sertão sabe da estiagem,
dos horários da missa,
dos dias do padre,
da submissão.

O menino, órfão de mãe,
do pai que bebia,
da madrasta maltratos,
criado descalço,
sonhava o mar,
e sonhava com Cristo,
que morreu na cruz
para nos salvar;
sonhava com leite e mel
escorrendo dos veios da terra.
Ainda sonha,
e espera por Dom Sebastião
que sairá das ondas,
à frente do seu exército,
para a nossa redenção.

No Ceará, aqui, acolá,
foi professor e caixeiro,
foi rábula, foi vaqueiro,
teve mulher e dois filhos,
que pelo sonho largou;
Pois um dia, quarenta dias,
iguais uns aos outros
de sua sina peregrina,
Antônio recebeu
a revelação divina:
" Vai meu filho,
ergue minha casa,
conduz meu rebanho
à terra prometida,
que é teu sonho".

Antônio obedeceu,
plantou catedrais de pedra e adobe
para que dobrem os sinos da fé,
despertando a eternidade.
Antônio prega onde não há padre,
ensina a Lei, leva o batismo
e o mito do Cristo.
Antônio é conselheiro,
é amigo, meigo companheiro
na última unção.
Antônio é pai, é filho, é irmão.
Do Ceará à Bahia,
onde passou foi ouvido
fez-se do povo querido
e do Capeta inimigo.

Uns diziam que era jagunço
fugido do Ceará,
onde, por crime de morte,
da mãe e da mulher,
não podia mais voltar
e que, vivendo de esmolas,
vagava de casa em casa,
de arraial em arraial,
de Chorochó à Vila do Conde,
de Geremoabo à Itapicuru,
nos grotões do sertão baiano,
pregando a rudes ouvintes,
purgando pública contrição
do pecado do sangue;
para o qual não há perdão.

Mas, um dia, sem reação,
por ser a monarquia
poder de Deus emanado,
em Itapicuru foi preso
pra Salvador foi levado,
inquirido, torturado,
de lá pra Fortaleza,
depois Quixeramobim,
chegando, então, por fim,
na sua terra natal,
onde foi logo liberto,
que contra ele a lei
nada tinha a cobrar;
mas a lenda ainda corre
nas mil bocas dos Barrabás.

Foi um dia de festa,
ladainhas e foguetório
quando Antônio voltou
e convocou sua grei:
era chegada a hora
por todos ansiada
de reunir o rebanho
na terra anunciada.
Em cada canto nordestino
a boa nova chegou.
Quem tinha propriedade,
botou preço sem apreço
vendeu por poucos trocados,
na pressa de ser o primeiro
nas terras do Nosso Senhor.

Nas terras miseráveis
do Arraial de Canudos,
onde nada se plantava,
nem criação se fazia,
fincou enfim sua cruz,
plantou uma cidade
às ordens do Senhor.
Para cá, diariamente,
demandam os desesperados,
pois sua palavra santa,
é a Lei, é a Verdade;
e onde era deserto,
trinta mil vidas vinculam
ao dele seus destinos,
em santa felicidade.

Trovejam das tropas
tropel de burros abarrotados
de trapos, tralhas velhas, nas trilhas
onde chocalham cascavéis;
é uma estranha procissão:
homens, mulheres,
crianças, anciões,
ansiando vida nova
na nova Canaã.
Os coronéis do sertão,
mal refeitos da perda
dos escravos libertos,
vêem sumir apavorados
como corisco riscando o céu
os braços que os nutrem.

Para eles é um mistério
como tantas bocas podem
encontrar o de comer
em sítio tão inóspito;
somente com Deus a prover
é possível o impossível.
E a notícia voou,
nas asas do ódio e do medo,
da inveja e da infâmia;
chegou a Salvador,
ao governador e ao bispo :
"Põe esse homem no hospício,
lá é que é lugar de louco",
disse fazendo pouco,
o de batina ao de fraque.

Agora é a República,
há no trono do Imperador,
um governo de anticristos
Maçons; desafiando a Lei
que o beato Conselheiro ensina.
Foi quando a guerra começou.
Primeiro chegou a polícia,
facilmente escorraçada,
que em cada moita do mato,
em cada fresta de pedra,
em cada buraco do chão,
há um cabra nordestino,
armado de foice ou facão;
mais que isso, armado de fé
e do amor no Santo irmão.

Dos macacos decapitados
ficamos com as armas de fogo
e com toda munição.
Alguns dos que chegam,
passam pro nosso lado;
preferem morrer com Cristo
que viver com o diabo.
Mas o tinhoso é teimoso
e manda pra esparrela
novas levas de praças;
são tantos os que matamos
que em cada arbusto da estrada
há uma cabeça espetada
e o sangue na terra vermelha
é aqui mais farto que água.

Agora é o exército nacional,
soldado, cabo, sargento,
tenente, coronel, general,
até o Ministro da Guerra
vindo do Rio de Janeiro.
Vem soldado do Norte,
Vem soldado do Sul,
Vêm com obus e canhões,
metralhadoras, granadas,
mas Canudos não se rende,
e em dois anos de batalhas,
aqui se cozeu a mortalha
do exército brasileiro.
Quem é da terra não verga,
faz de fagulha braseiro.

Aqui da minha trincheira,
a boca cheia de terra,
os olhos molhados de sangue,
vejo uma túnica azul,
um chapéus de abas largas,
cabelos até os ombros,
barba inculta desgrenhada,
olhar de sóis nascentes,
numa mão o livro santo,
na outra, qual cetro, um porrete,
caminhando sobre nuvens,
pastoreando as almas
dos cadáveres insepultos,
Santo Antônio Conselheiro,
em cujos pés me agarro.


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Descaminhos


Não devo demorar-me nas memórias
que guardam as razões e as fantasias
de onde meus versos emergem
como meros fragmentos
até então de mim ocultos.

Urge uma fotografia deste instante
quando todas as lembranças são vãs
e a esperança foi um inseto que passou.

Alvo

 

um,

outro,

talvez três,

voam os pássaros

em formação lógica,

seta que aponta a glória

de viver onde é verão

e é pronto, o trigo, ao bico;

no alvo da rota migratória

 

Carnaval

 

- Vambora?

Não ouvi se ela falou,
nem me dei conta de quando foi;
absorto nos meus pensamentos.

Da mesa ao lado a nota histórica :
"Na Grécia, há cinco mil anos,
para ficar famoso,
colocar seu nome no livro dos tempos,
Eróstrato incendiou o Templo de Diana,
uma das sete maravilhas da terra".

É de memória que escrevo agora,
podem ter sido outras as palavras
do, decerto, professor de história,
moço ainda de espinhas na cara.

Em guardanapos de papel,
encontrei, depois, no bolso da calça
fragmentos com a minha caligrafia :

Utópico trópico meu equador,
equinocial equação de gozo e drama
de riso e dor, de sonho e razão;
rapsódia melancólica, eólica, louca
rouca, plural.

Estanca na boca o tímido estame
da tinta flor, do vento marinho
que brisa a morna pletora, e chora,
e ri rebrotando a verdura madura
límpida e singular.

Sangra, singrando a pênsil linha,
limítrofe entre o pêndulo e o espaço,
cindido por imperceptíveis pancadas,
rompendo a rota, a golpes de sépticos pés
nus e nós. Em noz moscada.

Enquanto tanto gasto pó palavras
e espanto do meu canto, a luz, o manto,
o conduto, a compreensão; salta o sapo,
salga o sal, e oculto o obvio, por vezo vil,
véu, víbora, tacão.

Loucuras. Sim, dirás, direi, dirão,
e gira a roda da fortuna. Escura
a bruma ronda a noite, o dia, a língua,
a mão. Eu não. Ah! sim. Ah! são
os santos de ocasião.

Amanhece, anoitece, não sei bem:
o copo é oco, agora peço a nota;
noto que a morena foi embora;
pago e trôpego pingo, com um arroto,
o ponto final.

Não alcanço o sentido disso.

Foi uma bebedeira e tanto:
há coisas de que me lembro;
de outras não.
A ela penso que disse
do encanto de estar aqui agora,
de ser este mutante múltiplo
que devora o tempo, as horas.

Protagonizei, [vês?], meu Deus íntimo.
Íntimo mas falso; outra máscara
das que me permitem dissimular
uma personalidade estranha,
senão irremediavelmente doentia.

Agora é a cabeça que dói,
é um amargo na boca
é o corpo cansado.

Um banho frio,
um café quente e forte
e estarei pronto pra outra.

A festa não pode acabar.

Ato do Verbo

(on-line para José Félix)

Tens a faca
para o ato do verbo
que sangra.

O coito oculto
da fala
mo revela.

 

Poema Resposta

(On-line para Clélia Romano)

Clélia,

Recebi sua carta; achei-te amarga.
Os anos, sei, sim, passam...
que, com eles, passem as mágoas
e, com a sabedoria que nos dão,
não devem mais passar em vão.

Eu, por mim, já não espero nada.
Desliguei o telefone às conversas fiadas.
Os filhos crescem e são
tão parecidos a como éramos:
donos do destino e da razão.

É bom que nem tudo funcione bem.
Eu não me adaptaria bem ao tédio
de uma rotina sem surpresas e zangas.
Aqui a chuva passou e as meninas do prédio
já podem usar suas tangas.

Pois é, você percebe...
depois de velho o ridículo que sou:
voyeur, pelas frestas e janelas,
dos corpos seminus que vão à praia,
me chamam tio e não me dão trela.

Anomalia

Na anomalia
de volver-me todo dia,
como quem quer encontrar
lucidez onde é loucura;
desconstruo o que me fiz
quando perdi as fantasias...

um diz virá quando, enfim,
no mergulho mais profundo
poderei comungar comigo
a paz de não ser nada,
de não ter nada,
do nada.


Segunda chance para sair :

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2001

Estranho eu, justo eu,
estar aqui neste tempo,
neste dois mil cristão,
estiolado neste interstício;
exangue
entre a loucura e o estame,
entre a farsa e a infâmia,
neste espaço, neste susto,
final de século, de milênio,
começo de novo período
de trevas que advinho
no apocalipse das consciências.

Justo eu
que estive,
nas cavernas úmidas
hominídeo rude

Justo eu,
que no vale do Nilo sucumbi
ao peso das pedras das pirâmides
para a glória de Amon
e eterno repouso
dos seus filhos ungidos Faraós.

Justo eu,
que testemunhei
quando o anjo do Senhor trucidou
cento e oitenta e cinco mil assírios
poupando da conquista o Reino de Judá.

Justo eu,
que estive com Moisés
nas hordas do êxodo
exausto e morto
carregando as tábuas
da Lei de Iavé.

Justo eu,
que de Tróia
resgatei a formosa Helena
erigindo a lenda do cavalo oco.


Justo eu,
que vi na Grécia
florescer as filosofias.

Justo eu,
que senti na carne
os cravos
que me pregaram na cruz
Jesus.

Justo eu,
que em Roma
assisti nascer, crescer
e ruir o grande império.

Justo eu,
que presenciei o espraiamento
do cristianismo
e o advento do papado
com a primazia do bispo de Roma
sobre todos os outros bispados.


Justo eu,
que de Meca acompanhei Maomé
na Hégira para Yathrib,
Medina, para a fundação do Islã.

Justo eu,
que na Europa feudal
lavrei com mãos nuas
as terras do meu nobre
quando a fome a peste
e as guerras dizimavam-nos
cobrando em cadáveres o preço
da ignorância, da superstição,
da sufocante credulidade.

Justo eu,
que conduzi Carlos Magno
à Igreja de S. Pedro
para receber do Papa Leão III
a coroa de Roma.

Justo eu,
que estive cinzas
nas fogueiras da inquisição.

Justo eu,
que naveguei os sete mares
e encontrei continentes.

Justo eu,
que com um quipo
contei em Cuzco as vidas
ceifadas pela espanhola
lâmina de Pizarro.

Justo eu,
que chorei no Arraial de Canudos
tinto do sangue absurdo
das crianças sacrificadas
à sanha estúpida.

Justo eu
que segui para Machu Picchu
pelas pênseis pontes
sobre os desfiladeiros dos Andes
e lancei-me ao reino de Hades
nas asas da desesperança.

Justo eu
tenho que agora, ainda,
testemunhar o fim das idades?

Não.
Ainda não me apetecem palavras
que firam meu estranhamento.

Não.
Ainda não quero poemas,
quero uma lágrima,
apenas uma
onde espelhe minha pena.

 

Covardia

 

Amanheço e a manhã passa fagueira,
mas canso ao esperar passar a tarde.
Que venha logo a noite, quando arde,
em versos graves, minha vida inteira.

 

Só à noite escrevo, pois sou covarde
e, à luz do sol, minha sina feiticeira
é recolher, para lenha desta fogueira,
sonhos, dores e anseios; sem alarde.

Somente à noite me é dado confessar
os pecados de uma vida sem razão
e os desejos a fogo e ferro sofreados.

 

Assim tem sido, pois não posso magoar
os que me amam, mas não vêem a solidão
que lhes oculto com sorrisos ensaiados.

O Louco e o Poeta

(Para Maurício Rosa de Almeida)

No átimo de uma vida
traçada ao fio do acaso
na árdua estrada ilógica,
seguem o louco e o poeta,
alargando as margens da rota.

Vão, no limite que criam,
tornando concreto o que é fátuo;
semeando sonhos e alegrias,
mesmo com a alma em pedaços;
porque sabem que tudo é falso.

Sabem que a vida é alegoria,
conhecem o sabor do fracasso
e que toda glória é vazia;
mas seguem ampliando espaços
para uma nova teogonia.

Meus Dias Sem Juízo

 

Há dias em que tudo conspira contra mim:
chove apenas porque ansiava o sol e o mar,
o trânsito engarrafa porque tenho pressa,
qualquer olhar é uma ameaça,
qualquer sorriso uma ironia,
qualquer palavra uma afronta,
nenhum café é forte e quente,
nenhum carinho suficiente,
nenhuma cerveja estupidamente gelada,
nenhuma mulher é bela;
não rio de nenhuma piada.

Há outros em que o clima não importa,
nenhuma adversidade é intransponível
e sou até capaz de rir de mim
se lembro dos meus dias sem juízo.

Não Calo

(Para Douglas Mondo)

 

Enquanto houver no mundo

uma só criança com fome,

uma só mulher estuprada,

uma família desabrigada,

consciências compradas,

a educação negada,

florestas sendo queimadas,

os que lucram com a usura,

tortura, guerra, censura;

não calo, nem abdico da luta.

Revelação

 

- Revelar-me-ei nos teus sentidos,

não na racionalidade cega à fé

Pregou-me o Senhor do mundo.

Não o ouvi, estava surdo.

- Sou eu o sol que te aquece,

a água, a semente, o solo, o pão.

Insistia na pregação.

Não o percebi, em minha razão.

E se hoje invento esta estória,

que me contam os passarinhos,

é porque sou louco e sozinho.


Terceira chance para escapulir :

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Fim de Festa

 

Quem, amigo, amiga, sangrou a alvorada

e bordou pássaros, sobre este azul irreal,

onde era noite quando fechei os olhos ?

 

Migalhas de pão, que as formigas carregam,

(que tirem bom proveito)

e dois dedos de vinho na garrafa

são os vestígios que ficaram da festa.

 

Acordo com a boca azeda e a cabeça pesada.

 

Não consigo lembrar-me quão ridículo fui:

dos assédios repelidos,

das canções que desafinei,

das rimas fáceis perpetradas para impressionar.

 

É melhor mesmo essa amnésia alcóolica

que a marca da vergonha estampada na cara.

Ando embriagado de metáforas e de mar

na falta de realidades onde me possa conformar.

 

Meus Eus

 

Eu,
meu eu,
meu ego.

Eu,
meu id,
meu outro.


No encontro
do que somos,
nos nós
que nos
atamos
passeamos páginas
de riso e pranto,
purgamos penas,
rogamos pragas,
pregamo-nos peças,
pecamos.

 

Mãe do Timor

(On-line para Helena Monteiro)

 

Mãe, de terra distante,
ouço daqui o seu pranto
nascido do meu espanto
com a barbárie aberrante.

Ouço sua prece e ouço
do povo daí a revolta,
um uníssono que solta
solidão de calabouço.

Mãe, a vida é pequena
e a minha morte é certa,
mas ser livre vale a pena.

Vou deixar a porta aberta
para o mundo ver a cena
e, enfim, manter-se alerta.

 

Dividido

 

Dividido entre o homem e o poeta,

um que é bicho, outro profeta,

um que sonha, outro razão,

um que pena, outro tesão,

um íntegro, outro canalha,

sigo a sina no fio da navalha

e entre eles ergo a muralha

que Cronos me deu por punição.

 

Ao poeta toca as noites,

os sábados, domingos e feriados;

ao homem toca os dias ocupados

na labuta pelo pão.

Ao humano é quem cabe o pecado,

ao poeta só cabe ilusão.

 

Do Alto do Meu Tamborete

Do alto do meu tamborete
vejo, e convicto, declaro:
o mundo todo que existe,
é somente até o muro.
Além dele é o futuro
e sobre o futuro não falo.

Tudo é ilusão e mistério,
até que seja presente.
Ontem foi, amanhã talvez.
Vivo os dias um a um.
Além não há nenhum
a cujo saber se consente.

 

Juízo Final

 

Invadirei, alado o claustro onde,

alheia a mim, queda adormecida tua ânsia febril:

inconfessáveis desejos subjugados por mágoas,

cicatrizes que sangram, sangram ainda,

sim, sangram.

 

Sangram não obstante o esquecimento,

o silêncio insuportável teimando em reincidir,

em invadir cada momento,

cada fresta, cada ermo da alma,

cada estranha fisionomia;

como amarga lâmina

que guarda o travo da dor transida do frio do aço.

 

Como a luz do primordial cristal

invadirei o claustro onde aninhas nos braços

a verde pedra sonolenta de pelos eriçados

e despirei teu hábito, teus trajes de alpinista,

pétala a pétala, até a última lã.

 

Invadirei o claustro como um byte louco,

ou na pelagem de lobos

ou como aragem matinal

e raptarei tua sede,

tua fome,

tua força,

teu gozo,

teu uivo vitorioso,

teu juízo final.

 

Até que o verbo nos mate

Nenhuma palavra guarda,
nem uma,
no seu ideográfico traço,
nem duas,
o absoluto retrato,
nem três,
transido do sonho
do nosso amor;

nem todo o dicionário.

Onde há de revelar-se,
senão em um olhar,
em um encontro de peles,
em um mútuo silêncio,
em compartilhar segredos,
dúvidas e anseios?

Onde?

E, no entanto,
por misterioso desígnio,
por palavras intuimo-nos,
desvendamo-nos,
desnudamo-nos
e nos amaremos...

até que o verbo nos mate.

Nada Mais Que um Sonho

 

Era um sonho, nada mais que um sonho,
seus olhos, sorrisos, beijos, abraços,
seus versos, (nada mais que um sonho
seus versos) eu pensava que eram meus
e iludido no sonho foi que sobrevivi
às tempestades, (nada mais que um sonho
as tempestades) às garras dos abutres,
ao meu duplo no espelho, ao frio
à privação do sono, do sexo, da sintaxe
materna, para adaptar-me à sua sintaxe
estrangeira (nada mais que um sonho,
seus olhos, sorrisos) que nunca vi,
seus beijos, abraços (nada mais,
que nada recebi), seus versos (que eram
meus sonhos) quando os li.

Para Ter o Teu Sorriso

(Para Soledade Santos)

 

Para ter o teu sorriso na lembrança
e ouvir a sinfonia da tua gargalhada,
daria os sonhos bons da madrugada
e, de mim, o que restou da infância.

Daria todos os dias que advinho,
para te ter nos braços aninhada,
fazer, nos meus pêlos, tua morada
e beber, em tua boca, mel e vinho.

Se tanta doação te pode sufocar,
terei vãs as mãos, e meus anseios
serão segredos; um sincope solar.

Eu os terei submetidos sem receio,
até que venhas, quando o sazão de amar
desperte, enfim, o que calas nos seios.

Promessa

 

Terão, um dia,
teus braços,
meu corpo;
tua boca,
a minha;
tuas noites,
meus sonhos;
teus versos,
meus silêncios.

Será quando seremos
serenos passageiros
da alada nau
da solidão.

 

Bom Ofício

 

Fosse eu, Narciso ou marinheiro,
perdido no mar ou num espelho,
cujo grito ecoasse no seu seio,
romperia, pé a pé, cada horizonte
para prostrar-me, ao pé do monte,
onde são seus braços cordilheira.

Afogar-me-ia em ondas gigantes,
nas vagas vis onde de ti distante
perdi o rumo, a nau, a vida inteira,
para entregar-me ao bom ofício
de aplacar, do teu corpo, o vício
do coito louco sem eira ou beira.

Paixão

Violado o desejo
que tinhas oculto
no olhar azeviche,
[encanto guardado
no escuro dos vidros
das lentes ray-ban]
sou teu namorado
amigo fadado
a banda de maça.

Os gestos contidos
do corpo malhado,
agora libertos:
[abertos teus braços,
teu sexo molhado
na boca um sorriso]
explode em delírio
a paixão maturada
nos dias contritos.

 

Danação

 

Irmã dos segredos,
rainha da noite,
fruta dos vinhedos,
chuva de açoite.

Sou seu prisioneiro,
mãe dos amantes,
nas sombras do outeiro
das águas troantes.

Eu quero seus seios,
seus braços, seus lábios,
seu corpo num enleio
que só sabem os sábios.

És filha das matas,
das ondas do mar,
das luzes que faltam
se falta o luar.

Eu quero seu fogo,
a canção do seu gozo,
as cartas do jogo
onde vou me danar.

 

Instante de Amar

 

Dos olhos
lagos
calmos
colho
com a língua
a lágrima
orvalho
e calo
nos seios
sereia
sonhos
sorrisos
e cisco
arisco
o risco
da rota
dos restos
de gestos
que engendram
o mistério
do frêmito
das ancas
análogas
às ondas
no instante
de amar.

 

Gruta

 

Nem o cinzel de Michelangelo,
nem os delírios dos profetas,
nem os versos dos poetas,
são capazes do prodígio,
que é descrever igual beleza.

No corpo nu, curvas perfeitas.
Na pele lisa, penugem dourada.
Nos olhos, a luz da alvorada.
Nos lábios, o sorriso gostoso.
Os seios, são frutos airosos.

Da seda mais pura, o cabelo
é longo, quase até a bunda,
duas colinas de carne dura,
encimando torneadas pernas.
No reverso a gruta encoberta.

Lenta, minha língua percorre
cada centímetro, cada fresta,
da planta do pé à tez morena;
mas na gruta, no quase exulto,
cruza as pernas, fecha a porta.

Poema para a Gueixa

 

Como quem veio pra ficar,

instalou-se em minha cama,

enredando a minha vida

em uma trama de dramas.

 

Chegou como serpente,

abeirou-se bote armado,

no corpo trouxe a peçonha

que me tem envenenado.

 

Flui à casa, sempre cheia,

uma turba de bacantes.

Ensimesmo-me no quarto

numa tristeza rascante.

 

Revela gestos infantes

se me vê enciumado

e baila a erótica dança,

com que me tem amainado.

 

Se lhe mostro, encabulado,

os versos que tento tecer,

diz que escrevo difícil,

que não dá pra entender.

 

Não a quero magoar

dizendo o que me pesa,

mas não posso suportar

as cenas dessa peça.

 

Assim, estou decidido

a pedir que ela se vá,

conquanto meu desejo

seja doma-la ao lar.

 

Mas como domar a gueixa,

essa força da natureza,

se não sou sequer capaz

de domar minha incerteza ?

 

Teias do Acaso

 

Simulando a dissimulação dos tímidos,

manipulando a metafísica dos abstratos,

deito-te às mãos, de incógnito tato,

as teias do acaso, as tramas dum novo ato.

Tantos Anos Tontos

(Poema de Aniversário)

 

Nestes anos tontos,
tantas vidas vívidas vivi;
tantos fui, tanto fruí
que guapo guardo,
mesmo do amargo,
doces lembranças
e as puas das lanças
onde me feri.

 

A Reconstrução do Sonho

 

Hoje é a última noite
de sonhos adiados
de poeta que não se fez.
A isso festejaremos
com bom vinho francês.

Foi uma criança saudável,
um adolescente sonhador,
apaixonou-se jovem, casou
sujeitando-se às circunstâncias
do destino que não sonhou.

Nas sendas incertas da vida
conduziu-se responsavelmente:
educou os filhos,
lhes deu carinho e conforto,
foi íntegro e transigente.

Sofrerá o abandono
da família que sustenta
à custa do que sustem.
Façamos agora um brinde :
somos os amigos que tem.

Amálgama Amazônico

(Para Aníbal Beça)

 

Fundada no verde e em versos,

na lubricidade das matas,

no caudal de rios e igarapés,

vem, do universo amazônico,

uma poética, que sem negar-lhe,

transcende o regional e revela

sonoridades que amalgamam,

como se fruta e semente,

oriente e ocidente, alma e fera.

 

Sábado Vácuo

 

A tua ausência

está presente

na minha saudade.

Mesóclise

 

A mesóclise

far-nos-á

a boca torta?

 

Colcha de Retalhos

 

Venho colecionando frases vãs

para uma colcha de retalhos:

são versos que sobraram

de poemas que não escrevi.

 

Uns dos outros diferem

na métrica, na rima, no escopo.

 

Alguns me deixam louco,

me acordam no meio da noite,

reclamam que os esqueci.

 

Quase todos estão velhos,

amarelando os cadernos

que substituí pelo Word® .

 

Os que são mais recentes,

permanecem ainda latentes

na lixeira do Windows® .

 

Enquanto faço poemas

ouço Bill Gates rindo.

 


 

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