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Um ficcionista baiano
Ainda há poucos dias, no Recife, Altamiro Cunha, homem que ama os livros, a boa mesa e a boa conversa, reclamava minha atenção para curioso fato literário. Dizia ele que, ao contrário do imaginado por muita gente, não possui Pernambuco uma tradição novelista realmente digna desse nome. Suas grandes tradições literárias são a poesia e o ensaio, ali cultivados, com talento e força, por filhos da terra e por forasteiros vindos para suas faculdades, sobretudo a de Direito nos tempos do baiano Castro Alves e do sergipano Tobias Barreto. Masa, onde a tradição do romance, do conto, da novela? Quando se fala em romance pernambucano pensa-se em José Lins do Rego, paraibano. Também paraibano é José Américo de Almeida, abridor de caminhos com "A Bagaceira". A tradição novelista, no nordeste e no norte, dizia-me ele, encontra-se no Maranhão, no Ceará e na Bahia, não em Pernambuco. E continuava perguntando onde buscar na novelística nomes a comparar com os dos poetas Bandeira, Joaquim Cardoso, João Cabral de Melo Neto, Odorico Tavares, Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Carlos Moreira, ou com os dos ensaistas Gilberto Freyre, Olívio Montenegro, Josué de Castro, Álvaro Lins, Paulo Cavalcanti? Timidamente, citei Mário Sette, cujos livros pernambucanos encantaram minha adolescência, e os excelentes José Condé e Osman Lins, de sucesso atual. "Exceções que confirmam a regra", concluiu ele, categórico.
Não pretendo deter-me nesse assunto, espero que mestre Gilberto dele se ocupe um dia e o esclareça completamente. Fico pensando se realmente a tradição da novelística baiana é assim tão poderosa, capaz de comparar-se com a do Ceará, com seus José de Alencar, Adolfo Caminha, Domingo Olympio, Manuel de Oliveira Paiva, com a do Maranhão com seus dois grandes Azevedo, Aluísio e Artur, com Coelho Neto. Recordo os nomes de Xavier Marques, de Lindolfo Rocha, de Cardoso de Oliveira e de Afrânio Peixoto. Maior, sem dúvida, é a tradição poética, vinda de Gregório de Matos, dando-lhe ainda hoje poetas como Sosigenes Costa, Godofredo Filho, Carvalho Filho, os sonetos de Jair Gramacho. O certo, no entanto, é viver a novelística baiana atualmente um tempo excepcional, que a situa no primeiro plano no panorama literário brasileiro. Se nas décadas anteriores ela nos dera esperanças de um ruidoso despertar com livros como "Corja", de João Cordeiro, e "O Alambique" de Clóvis Amorim, hoje tais esperanças são a realidade mais indiscutível. Com um detalhe que agita minha vaidade grapiúna: a parte mais densa e romanesca dessa novelística procede da zona do cacau, desse sofrido, dramático, heróico e pitoresco sul do Estado. Quatro ficcionistas importantes, cuja obra conta em nossa atualidade literária, vêm dali: Adonias Filho, James Amado, Jorge Medauar, Hélio Pólvora. Mas fora dos temas e da paisagem do cacau, estão Dias da Costa e Vasconcelos Maia, nossos mestres do conto baiano; estão Herberto Sales, da zona dos garimpos, D. Martins de Oliveira e Rui Santos, do Rio São Francisco. Nestor Duarte, com seus romances de densa temática, Santos Morais, cujo romance, a sair, tem provocado entusiasmo nos que leram os originais, o contista José Pedreira, de tão aguda sensibilidade, outros mais jovens também. Entre eles, o autor dos contos de "A dura lei dos homens", Ariovaldo Matos, já autor de um romance e jornalista dos melhores.
O romance com que Ariovaldo Matos estreou em livro, publicado em 1956(creio), "Corta-Braço", sofria dos naturais defeitos dos romances de estréia, agravados por certos maneirismos que marcavam, na ocasião, toda a literatura de conteúdo mais progressista, politicamente falando. Tais maneirismos conduziam a uma limitação da temática e, sobretudo, a uma limitação no tratamento dos temas. Esses defeitos foram universais, atingindo toda literatura de esquerda. Deles sofremos todos, naquele então. Tais deficiências e mais as habituais nos livros de estréia, não conseguiram, no entanto, afogar a presença do ficcionista nato, do homem nascido para contar histórias, para recriar a realidade em termos artísticos, para colocar vivos, diante do leitor, personagens e ambientes. Desde então passou a ficção brasileira a contar com mais um nome, promessa que hoje se afirma definitiva com os contos desta "A dura lei dos homens".
Esse Ariovaldo Matos traz no sangue o demônio da literatura. Seu pai, que eu conheço e estimo, foi uma figura ligada à vida artística da Bahia, colecionador de bibelôs, homem da noite quando a noite ainda não era crônica elegante de jornal, com evidentes tendências literárias sufocadas, tendo cometido certamente seus sonetos. Um irmão de Ariovaldo, Almir [
Autor de "Em agosto Getúlio ficou só" e "Furacão sobre Cuba"], era uma vocação de crítico de literatura, arrastado para a política e buscando nela realizar-se. Em Ariovaldo, a vocação literária foi mais poderosa que todos os outros chamados. Terminou por impor-se, vencendo mesmo o jornalista ágil, o repórter de incomum vivacidade. Seus contos, agora reunidos em livro revelam uma outra maturidade literária que o romancista estreante ainda não possuía, um domínio da técnica da construção do conto, uma sobriedade nas palavras que torna a emoção mais intensa. O conto que da título ao livro é realmente muito bom. Nenhum exagero num tema tão perigoso, onde facilmente pode o escritor perder-se em busca de fáceis efeitos. Outro conto que me parece muito bem realizado é o que nos conta a história de um jovem jogador de futebol. Mas assim equilibrados e ricos de drama e poesia, são todas as histórias de Ariovaldo Matos, agrupadas nesse volume. Trata-se de um escritor autêntico, cheio de generosa ternura pelos homens, sabendo compreendê-los, viver seus dramas, transformá-los em obras de arte. Com esse livro, ganha o conto brasileiro, gênero que vem crescendo em número e qualidade, um cultor de primeira ordem.Vem realmente o conto adquirindo uma grande importância. Hoje é talvez o gênero preferido pelos jovens. No entanto, é necessário constatar a existência de uma tendência a levar ao exagero o tratamento formal, abandonando quase por completo (em certos casos completamente) o tema e aquilo que é, no fundo e sempre a essência mesmo da narração: a história e a emoção que dela decorre. Certos jovens contistas são frios como o Pólo Norte e seus temas não passam , por vezes, de anedotas truncadas. Uma das qualidades mais importantes desse livro de Ariovaldo Matos é que ele rompe com tal tendência. Não tem o jovem escritor baiano medo dos temas, de encará-los de frente, de ir buscar na vida vivida e verdadeira os assuntos a tratar, a transformar em literatura. E isso não acontece por acaso. É que esse escritor não está se formando e crescendo num triste gabinete entupido de livros estrangeiros. Ele está crescendo como escritor é no meio da rua entre o povo, sorvendo vida por todos os poros. Como o poeta de quem fala Lorca, ele não é feito de tinta e papel. É de carne e sangue, felizmente. No que, aliás, mostra-se fiel à marca mais poderosa de toda a literatura baiana - poesia, ficção, ensaio - sua ligação profunda com a vida e os problemas do homem.
Rio, agosto de 1959
Prefácio para "A Dura Lei dos Homens", Ed. São José, 1965.
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Sobre "A Escolha"
Gláuber
Rocha"A Engrenagem" é sem dúvida uma peça polêmica. Fora de dúvida, está distante do alcance o grande público. Os iniciados, entretanto, muito têm a meditar sobre a "mensagem" da obra de Ariovaldo Matos que apesar de ser um escritor baiano aborda na peça um tema universalíssimo. Não se enquadra na linha da dramaturgia nacional. É originalíssima sob este aspecto. Nada tem de Nelson Rodrigues, Magalhães Júnior, e até mesmo, Plínio Marcos, o mais moderno de nossos dramaturgos. Fica a nosso ver, entre Brecht e Ionesco, sobretudo no que tem de Universal.
O personagem Tancredo, o desembestado, que a princípio seduz, em seguida se revela um sórdido e a platéia, democraticamente, fica livre para criticar seu comportamento e sua ideologia. Sem exageros, se pode dizer que Tancredo é uma espécie de "Boca de Ouro" do mestre Nelson Rodrigues. Mas, aqui Ariovaldo Matos faz o que Nelson omite: insere o personagem numa realidade social. Tancredo é um produto da classe média subdesenvolvida, um revoltado que se libera pelo anarquismo vulgar, mas que, no fundo, já se compromete com uma nova estrutura: o mundo dos negócios que conquista com sua aventura.
Para um teatro que teve o grande período de Martin Gonçalves, "A Escolha" é um legítimo fruto de uma semente plantada em território árido e sujeito a fofocas e trovoadas... Bastaria uma produção do nível deste texto para justificar um processo teatral na Bahia.
Gláuber Rocha, cineasta, falecido. Texto publicado no volume "Teatro"
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Nos tempos de Getúlio
Os Dias do Medo, do jornalista e ficcionista baiano Ariovaldo Matos, 52 anos, reforça e engrandece duas tendências que, aos poucos, depois de muitos desvarios pelos quais passou nossa literatura e nossa vida nacional, vêm se firmando no romance baiano. A primeira é o abandono de experimentalismos às vezes interessantes, mas quase sempre inócuos em favor de uma maior comunicação com o leitor. A Segunda, a tentativa de buscar na História do país, uma explicação para a barbárie que se abateu sobre nós por quase 15 anos.
O livro de Ariovaldo narra as supostas memórias de um senador da República, Antônio Petrucci, editadas por seu secretário, o bacharel Abelardo d'Antunes, que ao fazer esse trabalho se envolve aos poucos num hetero-homossexualismo, menageâquatre com a datilógrafa, o namoradinho e a psicanalista dela. O senador Petrucci, porém, é o centro da história, personagem típico - no sentido que Górki e Luckács dão a este termo - muito bem construído, desde sua infância de filho de imigrantes nas areias da Pituba, seu ódio à mãe, associado de nojo pela condição de mulher dela, seus ardores sexuais com empregadinhas e finalmente sua corrupção nas mãos de um professor de Direito, homossexual, que o encaminha na vida, isto é, política.
Na verdade, há alguma coisa de Saul Belov na construção do Senador Petrucci, em suas contradições, sua perplexidade diante dos acontecimentos da História que o envolve - ele, velha raposa política - sem lhe dar chance de atuar sobre eles. São muito ilustrativas, neste aspecto, suas definições da vida de um político, mais preocupado com os donos dos currais eleitorais do interior da Bahia do que com as grandes crises mundiais - a que pode funcionar nos tempos de relativa normalidade, mas é fatal nos momentos óbvios da História, como ele próprio vem a descobrir ao fazer o elogio de Franco, na Guerra Civil espanhola, pensando estar agradando a Getúlio.
Mas não é, o retrato de Tonio Petrucci, um foto em preto e branco. A compaixão, marca do criador, está sempre presente na criação de Ariovaldo Matos. Sim, o senador é corrupto, oportunista, venal, mas tem consciência disso, e estas, são as armas de que vale para sobreviver e, se possível, vencer num mundo em que estas são as regras. E o mundo em que o jovem professor entra, ao passar a vida adulta, é o das trevas da década de 30, quando Getúlio enveredava pelos caminhos de aprendiz de Hitler e Mussolini.
Em tudo isto, porém, ele tenta manter sua dignidade, um mínimo que seja, e chega mesmo, às vezes, à temeridade. É no fim, diante da perplexidade causada pelo golpe de 1937, não se entrega - de todo. É uma pena que o romance se encerre ai, pois fica dito, no início, que o senador chegou até quase o fim da década de 60. É pena, também, que as transas do editor com a datilógrafa não sejam melhor exploradas, restringindo-se a bilhetinhos trocados pelos dois entre os capítulos podados - algo muito esquemático. Mas talvez, quem sabe, tenha sido este o último tributo que o autor não pôde deixar de pagar ao formalismo. Uma pena.
Artigo publicado no "Jornal do Brasil", em 1979.
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Ari, um jornalista
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Um episódio
Em meados de 1963, julho ou agosto, talvez setembro, não lembro exatamente, realizou-se em Brasília um Congresso Nacional de Jornalistas. E lá estávamos nós, eu e Ariovaldo Matos, integrando a delegação baiana. Apesar de eventuais discordâncias e mesmo entreveros esporádicos, politicamente, e também profissionalmente, caminhávamos juntos, então jornalistas ambos do Jornal da Bahia, do semanário I.C. [
Shopping News da Bahia] , que fundáramos no ano anterior, e ainda de um outro semanário, este eminentemente político, a Folha da Bahia.O clima em Brasília mostrava-se tenso, já prenunciando a crise e o golpe de 1964, com debates acirrados na Câmara e no Senado, greves, manifestações sindicais e populares. Uma noite, já encerrados os trabalhos do dia, fomos procurados por uma comitiva de dirigentes sindicais e lideranças populares, vinha uma multidão de manifestantes. E atrás, um destacamento do Exército, dispondo-se os soldados, ameaçadoramente, lado a lado, empunhando suas armas e cercando o local. E nunca soube se integravam o já falado dispositivo militar do almirante Assis Brasil ou se viriam se incorporar ao movimento golpista.
Os dirigentes do Congresso, assim como da Federação Nacional de Jornalistas, já se tinham retirado, os poucos que ainda permanecíamos no local consideramos não estar autorizados a falar em seu nome. Mas Ariovaldo discordou, trabalhadores e povo de Brasília buscavam a solidariedade dos jornalistas brasileiros, que não lhes devia faltar. E enquanto ainda discutíamos a respeito, seguindo-se a um dos oradores locais ouvimos o próprio Ariovaldo, ele que não era orador, habituado a escrever, não a falar em público, afirmando o apoio dos jornalistas brasileiros.
O episódio expressa, em certa medida, o que foi Ariovaldo Matos, corajoso, às vezes chegando às raias da temeridade, freqüentemente avesso à disciplina, mas preservando dignidade e esbanjando talento, qualidades que evidenciava como homem, jornalista e ativista político. E que, obviamente, estão presentes e inspiram toda a sua obra literária, pois também presentes em sua atividade de escritor.
José Gorender é Jornalista e crítico de arte, texto publicado em "A Ostra Azul", coletânea de contos de Ariovaldo Matos organizada por Guido Guerra, Ed. Artes Gráficas, 1999.
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Meu velho
Por culpa sua vivo um dilema. Quando você me perguntou se gostaria de escrever alguma coisa para o livro, com que os amigos pretendem homenagear meu pai, respondi um não curto e grosso. Poucos minutos depois eu já estava achando que deveria ter dito que sim. Agora já não sei se devo, se sou capaz de fazê-lo e mesmo se o seu convite não decorre apenas da gentileza com que você sempre me tratou.
Penso que o meu depoimento pode apenas revelar fatos interessantes do "velho" no que concerne ao nosso cotidiano familiar e nada mais. De todos pinço três, entre tantos do mesmo jaez, que foram marcantes na minha formação moral.
Quando tinha 11 ou 12 anos, eventualmente, eu surrupiava alguns trocados na carteira de Ari. Ele não se dava conta do desfalque porque nunca foi de ficar contando dinheiro, mas um dia me pegou em flagrante. Não disse uma única palavra, mas, desde então, durante muitos meses, todas as noites quando chegava em casa me entregava a carteira para que eu tomasse conta. Eu sabia que ele não tinha o cuidado de verificar quanto havia, mas mesmo assim eu nunca mais tive coragem de roubar um único tostão.
Quando ingressei no curso ginasial e levei para casa o primeiro boletim escolar daquele ano letivo, Ari recusou-se a assinar como "responsável". No dia seguinte acompanhou-me ao colégio e comunicou ao diretor que eu era o meu próprio responsável e que estava autorizado a assinar o boletim. Disso não resultou um aluno brilhante, nem eu o seria se meu pai ou minha mãe assinasse o meu boletim, mas desde então tenho assumido com responsabilidade, para o bem ou para o mal, as decisões que tomo a respeito da minha vida.
A data exata não me recordo, mas foi entre os anos de 68 e 70. Meu pai e José Gorender foram a julgamento em um tribunal militar acusados de subversão. Eu estava presente quando da leitura da sentença em que Ari foi condenado a nove meses de prisão. Antes que ele fosse levado para a Casa de Detenção pude ter alguns minutos com ele. Nessa ocasião, visivelmente preocupado com os dias difíceis que ele sabia que iríamos viver, apesar da certeza que a sua família seria socorrida pelos amigos se necessário, me fez ver que na condição de primogênito havia chegado a hora de assumir, temporariamente, os encargos de "homem da casa". Como se em sagração colocou-me no pulso o seu relógio. Minutos após, o seu advogado* tomou-me de volta o relógio alegando que Ari talvez precisasse ter algo de valor com que comprar proteção na prisão, se lhe colocassem em uma cela comum. Lembro-me que, adolescente e ainda sem o pleno entendimento da cautela do advogado, doeu-me mais me sentir privado do relógio que a própria prisão do meu pai. Na primeira visita que lhe fiz, ele e Gorender, já instalados em sala especial na Casa de Detenção, Ari repetiu o gesto e, enquanto esteve preso, usei o seu relógio como um cetro.
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