Prosa
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Apocalipse [Uma reflexão pseudo filosófica]
Cicatrizes [ Romance em construção ]
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Apocalipse
Quando finalmente soar a trombeta anunciando o juízo final, resultando mortos os seres humanos, plantas e bichos, e a escuridão cobrir a Terra, catapultada do sistema solar para a sua última viagem entre as constelações rumo aos confins do universo, a verdade absoluta estará demonstrada e, mesmo assim, paradoxalmente, se algum animal racional pudesse testemunhar o apocalipse deste grão de poeira onde habitamos, ou, o que é mais razoável, dele tivesse antecipada ciência ou premonição; surgiriam acaloradas controvérsias, tentativas estapafúrdias de explicar o fenômeno. Os místicos apontariam, uns, a ira divina como causa do inevitável, outros a realização da comunhão da alma humana com onírica energia astral, resultando dai o nascimento do Deus Carbono a quem caberia a tarefa da recriação da vida. Os cientistas formulariam teorias cuja experimentação nunca se poderia realizar nos seus, para isto, impotentes aceleradores de matéria subatômica. Os políticos engajados nos mecanismos de poder engendrariam frases bombásticas para demonstrar que os governos estavam no caminho certo para a solução do problema ou, na pior das hipóteses, para que o sofrimento fosse o menor possível; os da oposição asseverariam que mais uma vez os mais prejudicados seriam os mais carentes, pois, afinal, no tempo que lhes foi dado viver, apenas comeram o pão que o diabo amassou, enquanto as elites banqueteavam-se com o botim da exploração do homem pelo homem. Os profissionais da fé negociariam a chave do portão do paraíso e, ou, apascentariam o rebanho com a miragem do abraço divino. Os filósofos sofismariam com a inevitável constatação de que o cogito cartesiano havia encontrado confirmação "na transposição negativa do enunciado". Os empreendedores dariam "tratos à bola" objetivando descobrir como lucrar com a catástrofe, ainda que soubessem da impossibilidade de gozar dos seus frutos. As beatas e os crentes entupiriam os templos; os devassos os motéis de alta rotatividade; e os poetas lamentariam a impossibilidade do luar e sopesariam palavras que com mais comoção e elegância pudessem exprimir a angústia da perda da musa e do sonho.
Eu, que sou somente um louco, me contentaria em ouvir você dizer:
- Te amo.
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Festa no Piau
Dona Alzira, moça velha já beirando os 70 anos, ciosa na função de governanta da casa grande da fazenda do Dr. Paulo Albuquerque, mas já alquebrada pelos anos na dura labuta abraçada com fervor religioso para sofrear as jamais consumadas, mas ainda recorrentes, paixões carnais, foi quem recrutou as mulheres para arrumar e enfeitar a casa para a fuzarca. Cristina, a mais bonita delas, chegou com o sol ainda nascendo. Pés no chão, trajava, gola e mangas puídas, um velho vestido de chita muito apertado, sobretudo nas ancas generosas, pois, como lamenta dona Josefa, "as roupas não crescem com as crianças".
Paulo, solteirão por opção, aparenta dez anos menos que os 47 que tem. Cirurgião conceituado na Bahia, aplica todo o tempo ocioso na fazenda comprada há quase 20 anos, quando, no inicio da carreira, medicava em Valença, sua cidade natal. É um homem que ama a natureza e prefere a convivência com as pessoas simples do lugar que entre os citadinos. Aos colegas justifica-se dizendo que prefere ser o maior peixe em um lago pequeno que um peixe pequeno em grande lagoa. No Piau, onde é a grande personagem, ninguém faz reparo nas mulheres que traz de Salvador para o gozo nas longas e frias madrugadas.
João comprou cuecas novas e, pela primeira vez, tirou da gaveta a calça Lee presenteada no Natal pelo padrinho. A camisa domingueira, de linho branco, foi herança do pai, o velho Honorato. O coitado, João marejou os olhos ao lembrar, morreu abraçado com a mulher, Cremilda, sua mãe, no capotamento, ano passado, de um pau-de-arara em romaria a Bom Jesus da Lapa. Filho único, ficou órfão aos 18 anos e toca sozinho o pequeno sítio. O sustento é garantido pela pouca farinha que consegue produzir e vender na feira. Dinheiro a mais, para os lavradores do lugar, só na safra do cravo, de dois em dois anos. Nessas ocasiões, pai e mãe ainda vivos, o apurado que sobrava do pagamento das dívidas era depositado em uma caderneta de poupança na Caixa Econômica, em Valença, maior cidade da região. Sua primeira safra após a orfandade ainda é promessa nos frágeis arbustos. O intento do moço é, vendida a safra, sacar toda a Poupança e, junto com o apurado do ano, reformar o velho casebre e a casa de farinha, comprar uma bicicleta e casar com Cristina. Uma parte será reservada para a lua de mel : uma semana em Morro de São Paulo, paraíso tão próximo mas onde foi apenas uma vez, levado pelos pais como presente de aniversário, em ano de boa safra.
Ah!, Morro de São Paulo, de inesquecíveis lembranças. João, menino taludo, pedra nos peitos e primeiros fios de pentelho aflorando, completava 13 anos. Na praia mais próxima à antiga vila os pais fizeram pouso e ele, usufruindo da liberdade que só é dada às crianças criadas no interior, apressou-se em conhecer o que fosse possível até a hora marcada para voltar. Atraído para uma mangueira carregada de frutos maduros, transpôs a porteira de uma fazenda à beira-mar e lá foi premiado com a sorte de encontrar uma mulher estrangeira, dona da propriedade, que aliando experiência e paciência transmitiu-lhe as primeiras lições da difícil arte da satisfação da libido.
Dona Josefa passou goma no melhor vestido da filha. Na festa do Doutor Paulo todos usam suas melhores roupas mesmo sabendo que não são tão bonitas quanto as dos convidados que chegam de Valença e de Salvador. O doutor, ela matutava, "é um amor de pessoa. Tem o defeito de ser solteiro e mulherengo, trazendo diferentes amigas a cada final de semana, mas sempre respeitando as moças do Piau; além do mais, trata pobres e ricos da mesma forma: dançam todos no mesmo salão e comem dos mesmos petiscos. Muitas crianças da região lhe são dadas para batizar e aos afilhados presenteia no Natal e na data do aniversário. Até escola construiu na fazenda e conseguiu professora do Estado para dar as aulas". Cristina pediu ao pai para comprar vestido novo, mas está tudo tão caro e os cravos ainda estão verdes no talo. O cacau, que nos bons tempos garantia o sustento, às vezes até algum luxo, já não tem bom preço e as árvores, atacadas de pragas, muito pouco produzem. Dona Josefa nunca tinha visto a filha tão excitada. Cristina, que completou 17 anos em junho, ainda não fala em casar e desdenha quando ela fala no assunto. A mãe só lhe notou algum interesse por homem, em um sábado de feira em Itabaina, quando cruzaram com o filho do finado Honorato. Não tardou em avisar que o pai não consentiria em namoro com o moço, apesar de afilhado do Doutor Paulo. Recebeu como resposta um "tá doida mãe ?" e desocupou-se do caso.
Cristina é, no aspecto físico, um belo exemplo da miscigenação que resultou na raça brasileira. Dos indígenas herdou os cabelos pretos e lisos que escorrem, quando os tem soltos, até o meio das costas. São da raça branca as feições delicadas do rosto e os olhos castanhos claros, quase verdes. Das negras tem a bunda avantajada que requebra voluptuosa fazendo com que, à sua passagem, os homens paralisem a labuta para sonhar prazeres improváveis. A cor da pele, acobreada, resulta da mistura dessas três raças.
O cabelo preso em coque, ela estava de quatro, areando o piso do banheiro, a bunda balançando no ritmo do vaivém do braço, quando Paulo entrou e trancou a porta. Ficou pálida, mas não disse palavra. Ele tirou a roupa, exibindo o pau, já duro. Tentou sair mas foi abraçada pelo médico que, desinibido, desabotoou o seus trapos enquanto passando a língua pelo seu ouvido. Cristina, transida de desejo, voz sussurrante, pretextou sua condição de virgem e disse de João e dos planos que tinham. Paulo tranqüilizou-a garantindo o casamento com o afilhado : "Se você não contar, ele nunca vai saber", ele prometeu.
Naquele exato momento, na roça de mandioca, João extraia as raízes da terra sonhando com a consumação do ato sexual que unirá o seu destino ao de Cristina. Pensava, com boa razão, que, em conseqüência, seu Ramalho, pai de amada, nada poderia objetar para impedir o casamento. Mesmo a velha rixa do pai da noiva com o finado Honorato, resultado de disputa por mulher quando eram moços, seria finalmente esquecida. Imaginou seu pênis penetrando Cristina, que até então só lhe havia permitido botar nas coxas e que, uma única vez, havia concordado em chupar seu pau, o que fez com lamentável imperícia. João lembrou-se da Italiana do Morro de São Paulo lambendo-lhe cada milímetro de sua glande e bebendo ávida o suco branco e quente que ejaculava abundante. Não podendo conter-se masturbou-se idealizando estar sodomizando a namorada.
Usando da delicadeza possível em circunstância como aquela, Paulo havia rompido o hímen de Cristina sem que ela chegasse ao gozo. O médico explicou-lhe que era assim na primeira vez, mas que ela não ficaria decepcionada, esperasse um pouco até que ele estivesse refeito do esforço. Estavam deitados em enorme banheira
- esse útil aparelho sanitário aposentado pela moderna arquitetura - , imersos em água morna, quando o médico foi chamado pela rapariga que ele tinha trazido de Salvador. Deixou entrar, para constrangimento da matuta, uma escultura loura com não mais que 20 anos. A intrusa deixou cair o roupão revelando atributos de beleza que Cristina nem sonhava ser possível existir. Sem que nenhuma palavra tenha sido dita, a loura deitou-se ao lado da caipira tocando-a com uma ciência que poucos homens conquistam. Paulo juntou-se à dupla e foi então que Cristina experimentou o seu primeiro orgasmo, com a loura lambendo-lhe o clitóris.João, o sol ainda a pino, voltou cedo da roça, descarregou a mandioca na casa de farinha, desarreou o burro e desceu a ribanceira até o riacho, divisa da sua pequena propriedade com a fazenda do padrinho. Há muito o rapaz não se empenhava tanto no asseio: festa na casa do Doutor é o melhor programa da região banhada pelo rio Piau e, principalmente, porque Cristina fora enfim convencida a se fazer mulher e que, com todos entretidos na festa, oportunidade melhor não poderia haver para a consumação do ato.
Refeitos do gozo, Paulo inteirou-se com Cristina dos detalhes do plano de João. O afilhado tinha combinado com a namorada esperá-la, às 22 horas, auge da festa, quando ninguém daria pelas suas ausências, no pequeno quarto onde o médico guardava selas e arreios dos animais. O médico instruiu a moça a proceder conforme queria João e mais uma vez garantiu que tudo iria dar certo. Cristina voltou para casa após o almoço vivenciando humores ciclotímicos. Em alguns momentos tomava-se de pavor imaginando estar estampado no seu rosto o acontecido pela manhã. Em poucos minutos estava rindo, convencida pelas promessas de Paulo e ansiosa para que se repetisse o prazer nunca antes gozado.
Logo no inicio do baile, o médico convidou o afilhado a acompanhá-lo em umas doses de uísque. O rapaz, que não podia acercar-se da namorada na presença dos pais e irmãos da moça, aceitou com prazer e orgulho a especial deferência. A João preocupava apenas o ficar de olho no relógio enquanto Paulo entretinha-o falando das novidades tecnológicas das grandes cidades do mundo. Na hora aprazada para o encontro o rapaz estava completamente bêbado e foi aconselhado pelo padrinho a tirar uma soneca : "use o quarto dos arreios, se precisar pode ficar até amanhã". O médico saiu para o salão e João, trôpego e ofegante foi esperar Cristina.
No salão o baile corria solto, Paulo com licença de seu Ramalho, tirou Cristina para dançar e sussurrando instruiu-a a ir ter com o namorado. Avisou-a que provavelmente o encontraria dormindo e que, se assim fosse, que o despisse completamente e que nua o tomasse nos braços. Finda a dança, Paulo acercou-se do pai da rapariga com quem puxou conversa sobre coisas da lavoura, sobretudo quanto à necessidade da erradicação dos cacauais infectados pela "vassoura-de-bruxa". Conversa vai, conversa vem, convidou Ramalho para ver a sela nova que havia comprado em recente viagem aos Estados Unidos : "coisa do outro mundo seu Ramalho, o senhor vai ficar de queixo caído com o que vai ver".
No quarto, como havia previsto o médico, Cristina encontrou o namorado dormindo sobre um leito improvisado com as peles e panos que são usados para que os animais não sejam feridos pelas selas e procedeu como instruída pelo médico. Quando acabou de tirar a roupa de João, ela também nua em pelo, João despertou e sonolento tomou-a nos braços. Vencendo o torpor causado pelo álcool, graças à sua juventude e ao enorme desejo acumulado desde quando a conhecera, João penetrava Cristina no exato momento em que, aberta a porta e acesa a luz, entravam Paulo e o pai da moça.
A reação violenta do velho Ramalho foi com grande esforço físico contida pelo médico. Estivesse o velho armado e a festa de aniversário de Paulo teria se transformado em palco de uma tragédia. Dominado, porém, o inicial impulso homicida, Ramalho foi acometido de grande lassidão, logo aproveitada por Paulo para acomodar a situação conforme sua própria conveniência. Pretextando sentir-se culpado pelo acontecido se ter dado em sua casa e por obra de afilhado seu, prometeu que tudo faria, inclusive financeiramente, para a felicidade do jovem casal. Pensando em seu deleite comunicou que já era tempo de aposentar a velha governanta e que seu lugar poderia ser ocupado por Cristina, moça prendada e trabalhadora, se a isso não houvesse objeção do pai ou do futuro marido. Que eles ficassem tranqüilos pois sabiam que, apesar de homem solteiro, "sempre respeitei e sempre respeitarei todas as moças do meu querido Piau".
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Encontro Marcado
Tancredo Neves (BA), 15 de Dezembro de 1998
Querida filha,
Quando dei por mim tudo já estava acontecendo e foi assim porque tinha que ser. Bem que eu queria lhe contar o acontecido sem muita frescura, indo direto ao assunto, como você gosta. Mas tem coisa que se deve contar bem devagarinho pra não assustar as pessoas e você sabe que eu não quero que você fique assustada. Eu conheço bem você e sei que uma hora dessa você já deve estar bem irritada com tanto arrodeio e não deve nem mais se importar se eu lhe disser que é caso de morte.
Tudo que eu podia fazer eu fiz, mas não teve jeito. O menino bateu aqui na porta lá pela meia-noite pedindo que eu fosse dar um adjutório lá na casa dele que a mãe estava apavorada com a condição do marido. Como pelas redondezas não tem nenhum doutor e considerando que tenho experiência no trato com bichos, eu era a única esperança.
Cê sabe que tenho o sono pesado. Foi um custo pra me acordar. A vizinhança toda estava na minha porta batendo e gritando, parecia festa. Lavei o rosto e por via das dúvidas tomei um gole de pinga pra prevenir um resfriado porque é sabido que sair da cama pra o sereno é um perigo.
Fui a pé que não dava tempo de arrear Pacata. Se lembra dela ? Era a única mula que você tinha coragem de montar quando ainda se incomodava de vir aqui na roça nos visitar. Depois do enterro de sua mãe você sempre arruma uma desculpa. Mas não vou falar mais disso não que eu sei que você não gosta. Mas entenda que você é minha única filha e que tenho muita saudade. Mas o importante mesmo é que você esteja feliz ai na capital e que progrida na vida.
Lembra de quando fui visitar você ? Acho que aquela amiga que mora com você não foi com a minha cara. Eu também não fui com a dela, parece uma rameira. Se zanga comigo não, mas eu pensava que pelo menos ia poder pernoitar com você, mas você tinha uma excursão e não ficava decente eu ficar sozinho com a moça no apartamento. A culpa foi minha que não avisei antes que estava indo.
Quando cheguei na casa do doente vi que o caso era pior que o que eu ia pensando no caminho. Imaginava que ele tinha tomado além da conta e que um café quente e um banho frio, depois uma caminhada pra destilar dariam cabo do problema. Qual nada.
O homem coitado se contorcia de dor e dava berros parecendo um porco sendo sangrado. Lembra do dia que levei você no matadouro ? Cê ficou tendo pesadelo quase um mês inteiro. Foi burrice minha, você era muito criança pra entender aquilo e até hoje não come carne de porco. Até hoje tenho arrependimento. Tem coisas que agente faz sem pensar e que depois pesa na consciência pelo resto da vida. Essa vida aqui na roça faz agente ficar meio bruto, quase como bicho. Quando meu pai ficou desempregado aí na capital e tivemos que mudar pra cá eu tinha 14 anos. Foi muito difícil me acostumar, abandonar a escola, os amigos, a praia, a vida confortável e segura. Foi por isso que todo tostão que eu consegui juntar, à custa de muita privação principalmente para a sua mãe, eu guardei para poder mandar você estudar na capital. Quis que você tivesse as oportunidades que a vida me negou.
Quando você saiu daqui pra morar na pensão sua mãe e eu sentimos que estávamos fazendo a coisa certa e continuo achando que fizemos mesmo. Você hoje tem um bom emprego, está quase se formando e eu vou ficar ainda mais feliz quando você me der a notícia de que resolveu se casar e me dar netos.
O homem berrava, se contorcia com a mão no ventre, os olhos fora de órbita, a pele arroxeando, e me senti impotente. Não havia nada que eu pudesse fazer. Chamei a mulher de lado e disse a ela que o único jeito era arrumar um carro e levar o doente pra o hospital de Valença. Ela disse que sim. Fui pra estrada com a esperança de arrumar uma carona. Fiquei mais de uma hora fazendo sinais e nenhum cristão parou. Também não é pra menos, com a violência dos dias de hoje quem teria coragem de parar ?. Afinal eu podia ser um assaltante. Eu também estava com medo, tem tanta gente malvada nessa vida. Cê não viu o índio que queimaram vivo lá em Brasília ?. Aqui, na solidão da noite, na beira da estrada, se algum playboy me mete uma bala só iam achar meu corpo de manhã e ninguém nem ia saber quem foi. Mais também de que adianta saber que foi? No caso do índio todo mundo sabe quem foi e não deu em nada.
A sorte foi que depois passou uma viatura da Policia Rodoviária. O vigilante falou que não podia usar o carro num caso como esse, mas passou um rádio pra Valença pedindo uma ambulância.
Voltei na casa do doente pra avisar que o socorro estava a caminho, mas quando cheguei lá, já eram umas duas horas da manhã mais ou menos, o homem já tinha entregue a alma. Fiquei lá até o dia amanhecer tentando dar consolo à viuva e a tal de ambulância não apareceu. Daí voltei pra casa que era hora de ordenhar as vacas, porque apesar de dar pouco dinheiro é o único mais certo e não posso ficar queimado com a cooperativa.
Ah!, se lhe conheço bem você agora está muito brava e curiosa pra saber quem foi que morreu. Desde pequena a curiosidade é o seu fraco. Pois bem, posso adiantar que é gente que você conhece. Uma das filhas do casal era uma das suas amigas de infância, mas não vou dizer quem é não. Se você quiser saber que venha passar o Natal aqui comigo. Agora vou arrumar seu quarto e colocar a carta no correio.
Um beijo do pai que te adora.
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Cena de Bar
José Abreu, chefe de reportagem de um jornal de Salvador, observava com interesse a mulher. Parada na porta do bar, ela olhava com a ansiedade de quem procura alguém. Aparentava bem vividos 35 anos e a saia, um palmo acima dos joelhos, deixava à mostra um belo par de pernas morenas. Dirigiu-se à mesa do jornalista, como se ele fosse um velho conhecido e, inopinadamente, desembuchou:
- Hoje vou ser sua, mas antes você tem que me ouvir com atenção e sem interromper. É minha única condição.
O generoso decote da blusa de pano leve insinuava seios pequenos e rijos. Ela continuava falando:
- Tudo começou quando ele chegou na sala, com aquela cara de bunda mole, os cabelos assanhados, a barba de dois dias e as narinas vermelhas de tanto enfiar o dedo pra tirar melecas graúdas que degusta prazer. Degusta é chique, não é?. Puxa me desculpe, eu não devia ter dito meleca bem quando você botou a batatinha na boca.
Atônito, Abreu engoliu com a batatinha o salamaleque que trazia na ponta da língua.
A mulher sentou sem esperar convite e fazendo escandaloso jogo de sinais, com uma mão apontando a boca, com a outra o copo do jornalista, pediu um chope ao rapaz que servia aos gatos pingados instalados nas mesas vizinhas. Sem perder o fôlego, nem aparentar ter consciência do inusitado assédio que fazia, continuou com a sua ladainha:
- Tome um gole do chope, parece que você está engasgado, e ouça. Ele chegou na sala e disse: - Venha meu bem. Eu fazendo de conta que não estava ouvindo e ele falando: - Desligue a TV, quase pego no sono lhe esperando. Reclamando como de costume o chato chegou mais perto. Estava com o pijama de bolinhas vermelhas que de tão velho eu quis dar para o velhinhos de Irmã Dulce e o "caxias" não deixou.
Abreu conjeturou tratar-se de uma louca e decidiu-se por manter o silêncio pedido.
- Meu estilo está melhorando depois de um curso de português, aliás devo dizer língua portuguesa, que tomei mês passado. Por falar em passado, não ache esquisito eu falar assim com os verbos no passado, como se ele já estivesse morto. Também não sei se está vivo. Pra mim morreu e só falta enterrar. Não o quero ver nunca mais.
Definitivamente é uma louca, pensou Abreu que havia decidido participar mais ativamente da comédia, ainda que isso só viesse a servir para encher tempo e saco. Foi quando disse debochando:
- Realmente é suis generis o seu estilo.
Calou-se, contudo, com a pronta reação:
- Não me interrompa. Você tem um acordo comigo e deve só ouvir. Além do mais não sei porque estranhar o meu jeito de falar: assim meio erudito. Não sou nenhuma ignorante não. Tenho estudo meu senhor e sou secretária de uma agência de publicidade e marketing. Sabe o que é marketing?. Aposto que não sabe. Trabalho na Cria & Fia Comunicações, você já ouviu falar?. Lá só tem gente inteligente e ilustrada. Tirando é claro a Tonha que é a servente. Tem uns cabeludos lá que são maconheiros. Não sei como gente inteligente fica viciada nessas coisas, mas se não fossem inteligentes não estariam trabalhando lá.
O garçom trouxe o chope. Abreu, que acabava o seu, pediu outro. A mulher indiferente à presença do rapaz prosseguia o seu discurso:
- Seu Césio é quem me diz que emprego os vocábulos errados às situações circunstanciais. Até hoje não entendo o que ele quer dizer com isso ou se está me gozando. Mas é do meu marido que quero falar e você não está deixando. Eu tinha nojo dele, não de seu Césio que é um amor de pessoa. Nojo de meu marido. Nojo adquirido em anos e anos de vida em comum, se é que se pode dizer que aquilo era vida. Aí eu disse a ele: espere um pouco, o filme está ótimo e já está quase no fim. O nojento voltou para o quarto balançando as banhas. Fiquei torcendo pra ele pegar no sono e que isso me livrasse do suplício de ser amassada num papai e mamãe onde cada gesto era repetido e inalterado ao longo de décadas, milênios, sei lá.
O Garçom trouxe o chope, a mulher pediu mais um e tira-gosto de calabresa. Falava cada vez mais alto e com maior desenvoltura:
- No começo do casamento tivemos momentos de intenso gozo. Ultimamente eu tinha que fingir, como uma puta qualquer. Hoje dou, aqui e agora, o meu grito de independência ou morte. Nunca mais finjo estar gozando para satisfação de filho da puta nenhum. Quem não for bom de cama vai ficar sabendo no ato. Felizmente ele já não revela o mesmo tesão de quando jovem. Sábia é a natureza e iluminado é Deus que a criou. Assim a nossa trepada que era diária, às vezes, logo no começo do casamento mais de uma por dia, passou primeiro a ser dia sim dia não e agora era semanal, sempre aos domingos: dia em que íamos à praia e Milton ficava olhando as bundas das menininhas para inspirar-se para a noite. Por isso o cretino só queria trepar de luz apagada.
O rapaz olhava as pessoas das mesas próximas preocupado com a possibilidade de que alguém os estivesse observando. Mas a mulher agia como se no bar não houvesse mais ninguém, apenas ela e um par de ouvidos.
- Você está prestando atenção? Era ou não um cretino? Não vejo a necessidade que ele tinha disso. Sei que não sou mais nenhum broto. Tenho 37 anos mas não sofri com os anos uma deterioração semelhante à que o transformou de príncipe encantado em sapo cururu. Isso você vai poder constatar ao vivo logo mais. Prometo-lhe momentos maravilhosos, mas somente depois do meu desabafo. Mas eu falava mesmo é que não me enchi de pelancas. Nunca me descuidei: faço ginástica diariamente antes do meu banho matutino.
O bar esvaziava, os garçons empilhava cadeiras sobre as mesas vazias, um mudo recado de que aproximava-se a hora de fechar. Indiferente a tudo, a mulher só fazia pausa para largos goles de chope.
- O que me envelhece um pouco são essas rugas que começam a aparecer no canto dos olhos. Com cremes e massagens não tenho encontrado solução, o jeito é uma plástica. Mas como pagar uma plástica com o salário mixuruca que recebo? De Milton nunca vi um tostão furado além das despesas da casa, que aliás eu nem vejo porque é ele quem faz as compras. As despesas são controladas com o rigor que somente um contador é capaz de ter. Mas os meus seios, vou lhe mostrar, estão como de brotinho de 18 anos.
Afastou com os dedos a blusa e o sutiã e, rapidamente, mostrou um seio ainda bem rijo para a idade.
- Milton é um bom contador, tem seu próprio escritório e ganha bem, mas gasta... Não é gasta merda, é gastava... apenas o estritamente necessário para comer, vestir mal e pegar ônibus. O resto é na poupança onde já tem guardado uma bela fortuna. Sempre que falo em uma despesa não orçamentada alerta: - Preocupa-me nosso futuro meu bem.
Vendo a nova rodada de chope consumir-se rapidamente, Abreu quis saber se outros deviam ser servidos. Suas palavras foram, contudo, encobertas por nova elevação na entoação da mulher.
- Você sabe o que é voltar de Itapuã para Brotas, mais de 20 quilômetros, num domingo de sol às duas da tarde em um ônibus lotado? Afora a luta que é entrar no coletivo tomando porrada de tudo quanto é lado? E isso sabendo que seu marido tem na poupança dinheiro suficiente pra comprar uns cinco ou seis carros de luxo novinhos em folha? Isso fora os dólares que tem guardado em casa, mania que começou quando confiscaram o dinheiro da poupança.
Abriu a bolsa e mostrou um maço de cédulas verdes.
- Veja isso. Aqui tem mais de quinhentos dólares que tirei da carteira dele. Ele comprou sexta-feira e esqueceu de guardar junto com o resto, trancados no baúzinho, onde ainda estão as jóias que foram da mamãe. A dele é claro, que a minha nunca teve jóias verdadeiras.
Fechou a bolsa. A boca é que não fechava:
- Às vezes tinha sua compensação. Um dia um surfista ajeitou o pau, grande e duro, roçando minha bunda. Milton também espremido do meu lado não viu nada. Claro que não gozei, mas tive o prazer de cornear o safado bem na frente dele.
Dois jovens saíam do bar comentando a vitória do Bahia sobre o Flamengo. Indiferente a tudo ela falava:
- Não fique você pensando que sou uma vagabunda, dessas que saem por aí caçando homens e chifrando o marido. Hoje vai ser a minha primeira vez com outro, e vai ser com você; depois que eu desabafar tudo.
Abreu pediu licença para ir ao banheiro. Na volta, num misto de alívio e decepção viu que a mulher deixava o bar abraçada a um homem gordo. Na mesa havia deixado uma nota de 10 dólares e anotados na cédula um número de telefone e um nome: Enizete.
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