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Há ocasiões na vida em que as circunstâncias conspiram para que sintamo-nos mais importantes do que realmente somos. Pelo menos em dois momentos os amigos que freqüentam o ciberespaço contribuíram para que a minha já exacerbada egolatria tenha alcançado o paroxismo; foi quando entrevistaram-me o Rodrigo de Souza Leão (Seo Mário) e a Eliana Mora para, respectivamente, o Suplemento Lero e o Farol das Letras.

Ficaram assim, as entrevistas:

 

  P D - o cyberjornal da literatura

C O N V E R S A A O S D O M I G O S
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S U P L E M E N T O L E R o

São Paulo, 03 de outubro de 1999


Editoria: Seo Mário
Uma iniciativa do Caox e do P D e do CAOX

Conversando com Seo Mário:

SM: Quais os sites que mais gosta na internet?

FM: Navego muito pouco na internet, normalmente acesso somente o correio eletrônico e visito o sites das listas de poesia, além das páginas dos amigos poetas.

SM: O que só a internet tem?

FM: A possibilidade de se dialogar com dezenas, centenas de pessoas de todas as idades, culturas completamente diferentes etc... e, quem sabe, essa facilidade pode constituir-se em importante instrumento para construir um amanhã melhor para a humanidade. Vejo um potencial imenso ainda brotando, mas que em pouco tempo, com centenas de milhões de pessoas em rede, libertas dos tradicionais instrumentos de censuras e manipulações, irá nos dar um poder que hoje está monopolizado pelos (tu)barões da comunicação.

SM: O que gosta de ler?

FM: Sou leitor voraz, até bula de remédio eu leio; mas gosto sobretudo de romances e de história.

SM: O que é a poesia na sua vida?

FM: É uma necessidade vital. É terapia. É a forma que tenho para sublimar o homem fera. É como consigo estabelecer uma ponte entre o meu eu racional e o meu eu emocional, já que em outras instâncias eles não conseguem chegar a um acordo.

SM: Conte-nos aonde mora? como é a sua vida? trabalha? o que faz nas horas vagas?

FM: Moro em Salvador(BA), cidade onde nasci e da qual só fiquei distante nos três anos que morei em Campinas (SP). Minha vida é bem convencional, acordo as 6 horas, trabalho até as 18; à noite e nos finais de semana leio, escrevo, ouço música, assisto esportes e noticiários na TV e, sobretudo, leio as 200 mensagens que recebo das 8 listas onde estou inscrito.

SM: Como é o seu processo de criação do poema?

FM: Normalmente é uma palavra ou uma frase que me fica martelando a cabeça até que a coloque no papel, a partir dessa célula desenvolvo o poema; nesses casos começo escrevendo sem a mínima noção do quê resultará, nesse momento é que o meu eu racional entende-se com o eu emocional para "organizar a fantasia". Mais raramente, escolho um tema e escrevo sobre ele; esse é o caso, por exemplo, dos 4 poemas que fiz para a Antologia Horizontes da Editora Poesia Diária, que, salvo engano, será lançada em Setembro próximo.

SM: Você tem alguma epígrafe que o acompanha?

FM: Se tivesse alguma logo a trocaria por outra, portanto, para citar uma coerente com a minha incoerência, fico com o verso muito conhecido de Raul Seixas : "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".

SM: Qual o papel do escritor na sociedade?

FM: Acho que, sobretudo, educar. Educar trazendo inquietações; educar ajudando na preservação da riqueza idiomática; educar pelo que de humano pode transmitir; educar mostrando que ninguém é uma ilha e que a felicidade de cada um está umbilicalmente atada na felicidade coletiva; educar conscientizando para a preservação ambiental, para a eliminação das discriminações, para a erradicação da fome, da ignorância, das guerras, de qualquer violência.

 

 ENTREVISTA PARA O FAROL DAS LETRAS

 

Escritas – setembro de 1999

Eliana Mora entrevista Fred Matos


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades. "
Luís de CAMÕES [Soneto 45]

 

Este é um dos poemas preferidos de Carlos Frederico M. Matos, o Fred Matos. Nasceu em Salvador, Bahia, em 24/10/1952. É filho do escritor e jornalista Ariovaldo Matos e da artista plástica Dalva Matos.

Escreve poemas desde a infância, deixou suas marcas até nas areias do mar da Bahia... outros rasgou. Mas acabou reunindo sua produção e publicou neste ano de 1999 o seu primeiro livro: "Eu, Meu Outro". O poema "Ausências", que integra o livro, foi publicado no segundo volume do "Painel Brasileiro de Novos Talentos".
Fred é um autodidata -- abandonou os estudos formais no primeiro grau. E parece que isto não fez (e não faz) nenhuma falta... como vocês terão oportunidade de verificar.

E - A sociedade de alguma maneira te cobra o "estudo" digamos assim - em termos de onde vives freqüentas etc?

F - Só tenho esse problema para conseguir emprego, pois até para cobrador de ônibus já se exige o segundo grau. Mas, depois que consigo, as pessoas percebem que na prática isso não me faz falta para o desempenho das minhas funções. Já fui ator, produtor de teatro, repórter em dois jornais, editor de uma revista (ViverBahia), depois trabalhei num banco durante 14 anos, onde fui gerente de marketing, gerente de agência, assistente da diretoria. Em 1994 o referido banco extinguiu a Diretoria Regional (da Bahia). Fiquei um ano desempregado, transferi-me para Campinas (SP) para estruturar a área de orçamentação e controle de uma empresa de transporte e atualmente, de volta a Salvador, atuo como gerente financeiro de uma empresa de ônibus urbano.

E - Fred, eu te pediria que contasse se teu pai ou mãe escreviam poesia, ou como era a tua casa - onde cresceste - só para sabermos mais alguma coisa de ti.

F - Meu pai foi escritor: Estreou com o romance "Corta Braço" (1955), reeditado em 1988, ano em que morreu. Um de seus contos, "A Construção da Morte" foi filmado por Orlando Senna. Escreveu também peças de teatro, uma delas adaptada por Antunes Filho para a TV Cultura [O Desembestado"]. Foi preso em 1964 e condenado em 1970 "por ter idéias". Foi editor chefe do "Jornal da Bahia" (onde formou uma equipe de jovens entre os quais vieram a ter destaque Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro e Guido Guerra); cronista político da Rádio Cultura e fundador dos semanários "Sete Dias" e "Folha da Bahia". Tem contos traduzidos e publicados em francês, romeno e russo.

Minha mãe era pintora e professora de cerâmica na Escola de Belas Artes da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Infelizmente, com a invasão da nossa casa e a prisão de meu pai em 64, desestruturou-se e até hoje é prisioneira das suas fantasias.

E - Fugias do estudo formal para aprender outra coisa, ou ias aonde.....? [risos]

F - Aqui há uma soma de fatores. Em 1967/68 eu estudava em um colégio público e dedicava-me pouco às aulas e muito à política estudantil; com o endurecimento do regime militar, a diretora da escola (que era amiga do meu pai) "aconselhou" a minha transferência para uma escola particular (a opção era a minha expulsão) onde, não raro, sofria o constrangimento de ser retirado da sala de aula por inadimplência.
Outro fator é que eu gostava de estudar algumas matérias ( história, sobretudo) e não tinha o menor interesse por outras (matemática e ciências).
Nas que eu gostava, era comum que eu travasse discussões com os professores que (na minha opinião) sabiam menos que eu. Um dia enchi o saco e abandonei a escola de uma vez.

E - Tu és tímido ?

F - Sou tímido sim; mas depois que me ambiento a timidez passa ao largo.

E - Lembras de alguma coisa que tenha te marcado muito na juventude?

F - Quando comecei a cursar o ginásio e levei para casa o primeiro boletim escolar daquele ano letivo. Meu pai recusou-se a assinar como "responsável". Comunicou depois ao diretor que eu era o meu próprio responsável e que estava autorizado a assinar o boletim. Disso não resultou um aluno brilhante, mas desde então tenho assumido, com responsabilidade, para o bem ou para o mal, as decisões que tomo a respeito da minha vida.

E - E qual é a explicação para o nome que deste à tua página na Web, a ..."ser racional tem sido o meu desastre" ?

F - O meu outro (aquele que escreve minhas poesias) preferiria ser um animal irracional, vivendo todos os prazeres sem a preocupação do amanhã. Já eu sou extremamente responsável: nunca chego atrasado a um compromisso, não consigo dormir se tenho uma dívida, mantenho com fidelidade um casamento de 25 anos...

E - Como se interessou pela Poesia?

F - Nunca fui um grande leitor de poesia, sempre li muito mais prosa que poesia.

O primeiro poeta que li foi Castro Alves. Comemorávamos na escola a Abolição da Escravatura e a minha classe, acho que no terceiro ano primário, apresentou "O Navio Negreiro", cada aluno recitando um pedacinho do poema, a mim coube memorizar a estrofe mais bonita, que diz : "Auriverde pendão da minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra, / E as promessas divinas da esperança.../ Tu, que da liberdade após a guerra, / Fôste hasteado dos heróis na lança, / Antes te houvessem rôto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha!...".

E - Qual é o teu preferido, mesmo? E os de estilos e escolas diferentes. Em suma, os poetas de que mais gostas.

F - Ganhei ao fazer 15 anos a "Antologia da Moderna Poesia Brasileira", quando tomei contato com a poesia de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, mas, sobretudo de Cecília Meireles. Porém a maior descoberta foi Fernando Pessoa ( em 1968 ou 69). Primeiro fiquei deslumbrado com "Alberto Caeiro" e durante algum tempo eu "psicografava" Alberto Caeiro em poemas que depois joguei fora. Ainda acho Pessoa o melhor poeta do mundo de todos os tempos, até porque, como sou monoglota, tudo o que li de poesia em outros idiomas foi de "segunda, terceira ou quarta mão".

E - E os poetas modernos? Brasileiros e estrangeiros, antigos, eternos e vivos, com exemplos [ou trechinho de algo que tenha marcado tua vida].

F - Dos poetas modernos devo dizer que conheço poucos. Leminski, por exemplo, eu conhecia como o compositor de "Verdura", música gravada por Caetano Veloso em "Outras Palavras". Por falar em Caetano muitas letras de suas músicas são, para mim, poemas belíssimos, como "Cajuína"; assim como as de Chico Buarque, ("Construção" e "Pedaço de Mim"), e "Pra Dizer Adeus", de Torquato Neto.
Do pouco que conheço dos contemporâneos, gosto muito de Myriam Fraga. Os culpados por essa minha desatenção para com a poesia recente são alguns amigos meus adeptos da poesia concreta, de tudo o que eles me apresentavam como o "supra-sumo" só se salvava, ao meu ver, alguns poetas antigos que eles apontavam como precursores, entre os quais Pedro Kilkerry e Gregório de Matos. Meio fora da cronologia devo acrescentar que gosto também dos simbolistas, onde destaco Augusto dos Anjos e dele os sonetos "O Morcego", "A Idéia" e "Asa de Corvo".

E - Fred, o que achas:

de ficar sozinho

É quando me encontro comigo, portanto nunca estou realmente sozinho.

do lugar que moras [cidade, casa, amor, filho]

Salvador é o meu labirinto.
Na casa o ninho, minha concha.
Amor é onde me abrigo,
nos filhos e filha me encontro.

de cinema

Existem dois filmes que não canso de rever: "Amarcord", de Fellini, e "Um dia, um gato", um filme checo do qual ignoro o nome do diretor.

de dinheiro

Não gosto de dinheiro, mas ainda não descobri como viver sem ele.

de música

Em música meu gosto é eclético ( Caetano, Chico, Hendrix, Cartola, Dylan, Lennon, Mozart, Hermeto, Luiz Gonzaga, Caymmi, João, Gil, Tchaikovsky, Pink Floyd).

de teatro

Fiz teatro, pouco e mal, e já freqüentei muito, mas em Salvador, quase sempre só encenam "besteirol". Não gosto do gênero.

de Literatura [assim, dizes o que estás lendo, também...]
O gênero literário que mais leio é o romance. Atualmente estou relendo "Germinal" de Zola em tradução de Francisco Bittencourt.
Tenho ainda sobre a mesa o volume 20 da História da República Brasileira, de Hélio Silva; "Eros e Civilização" de Marcuse (que é "figurinha carimbada" na mesinha de cabeceira"); Nietzsche, da coleção "Os Pensadores" da Nova Cultural. E o livro do nosso amigo Maurício Rosa (Contrastes), de poesia.

da arte do povo (folclore)etc

Acho uma grande bobagem a discriminação que se faz entre arte do povo e arte erudita, para mim o que importa é a qualidade. Ademais toda arte dita erudita bebe na fonte limpa da chamada arte popular. Mozart era popularíssimo no seu tempo.

de um eclipse

São lindos os eclipses dos astros; fim do mundo é o eclipse das consciências.

do mundo de hoje

É inegável o progresso material. Assim como é inegável, por exemplo, que hoje um morador de favela tem uma expectativa de vida maior que um nobre europeu da idade média. Mas, infelizmente, é cada vez maior a concentração de renda e, o mais dramático, é que o homem continua destruindo o meio ambiente e que a espécie ainda não tenha abdicado da violência.

da Internet

Acho que em pouco tempo, com o crescimento fantástico que vem tendo, vai ser o grande instrumento democrático de comunicação, que hoje é um poder em mãos de pequenos e poderosos grupos a serviço do status quo.

da inveja

É a admiração do maldoso.

da amizade

O mais bonito dos sentimentos. É doar-se incondicionalmente.

da esperança

A última que morre.

da vida

Sobre a vida (e a felicidade), o último terceto do meu soneto "Desterrado" diz o que penso:

"Viver é como navegar sem rumo
e ser feliz é enfrentar o mar
e, na tempestade, não perder o prumo."

da morte

O inevitável fim da curtição.

E - E o novo milênio?

F - Será no ano 2001, não no 2000 como a imprensa vem desinformando todo mundo; mas é só uma questão de calendário instituído pela igreja católica. Seja amanhã, seja no terceiro milênio, minha esperança é de um futuro quando as riquezas sejam mais sabiamente distribuídas, quando todos tenham iguais oportunidades de educação e saúde e, sobretudo, quando a violência (que nunca se justifica) seja uma nódoa do passado.

E - Olha, eu vou te pedir para contar como foi o dia em que percebeste fazendo um poema [falo em sentimentos]

F - A lembrança mais remota é de ter feito umas quadras para a minha professora no terceiro ano primário. Da infância, o único poema que ainda tenho guardado é datado de 1963 (10/11 anos) e chama-se "O Pobre e o Cego". Minha temática era política e social. Na adolescência (bendita explosão de testosterona) eu me apaixonava por toda menina bonita que via e, evidentemente, derramava copiosamente as mais lambuzadas palavras em poemas de amor. Da época não guardei nada. Em 1970 virei hippie e fui morar em Arembepe. Nessa época eu escrevia meus poemas na areia e hoje, deles, somente os seres marinhos são capazes de saber algo. Em 1974 me casei, e desde então até 1998 a minha produção poética é mínima. Nesses 24 anos somente escrevia quando a poesia ficava martelando na minha cabeça até que eu me livrasse dela colocando no papel.
Em 1998, a partir de quando tive contato com as listas de poesia na internet, é que voltei a escrever.

E - Então, por aqui ficamos, agradecendo à Internet... Um abraço, e até a próxima, Fred Matos.

 

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