CICATRIZES

 

 

"... somos quase forçados a aceitar a terrível hipótese

de que na própria estrutura e substância

de todos os esforços humanos de construção social

está incorporado um princípio de morte;

de que não há impulso progressivo

que não deva tornar-se fatigado;

de que o intelecto não pode fornecer

uma defesa permanente

contra um vigoroso barbarismo"

Wilfred Trotter

Instincts of the Herd in Peace and War

Londres: Oxford University Press, 1953.

 

 

 

 

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Pocada a cabeça no impacto com o meio-fio, o sangue brotava da base do crânio escorrendo na sarjeta tingindo os veios imundos dos paralelepípedos e, pouco adiante, empoçava-se viscoso, refletindo o sol abrasante do meio dia, do dia quatro de janeiro de 1960. Transeuntes puseram-no em decúbito ventral, cruzaram-lhe os braços sobre o tronco, juntaram-lhe as pernas e cobriram-no com folhas de jornal, as pontas presas por pedras soltas do calçamento. Uma piedosa anciã, levemente corcunda e muito magra, dessas cujos ossos parecem estar a ponto de furar a pele enrugada, a tudo assistira pela janela do primeiro andar do decadente sobrado amarelo defronte e acorreu trazendo uma vela, se ajoelhou, acendeu o lume, tirou um terço do bolso e a Deus encomendou sua alma. O carro que o matou e sumiu chispando, cantando os pneus, era vermelho como o sangue de papai. Foi assim o meu primeiro encontro com a morte, no dia que fiquei órfão, aos dez anos de idade.

Mais curiosos chegaram, se aglomerando, se empurrando formando um círculo compacto ao nosso redor. Um negro alto, espadaúdo, cabelo encarapinhado, ventas arreganhadas, olhos injetados, tirou-lhe os sapatos e, sob os protestos e vaias da platéia, abriu caminho, a socos e cotoveladas, levando de roldão ao chão os que se lhe interpunham. Um velho desavergonhado, magro, baixo, calvo, trajando um paletó puído nas mangas, fedendo a charuto apagado, levantou com a ponta do guarda-chuva a gazeta que lhe amortalhava o rosto. Foi essa a última imagem que vi de papai: a face já macilenta e os olhos negros arregalados, hipnotizados pelo terror. "Coisa feia de se ver menino", arrancou-me do epicentro funéreo, me puxando pelos ombros, uma balzaquiana gorda trajada de organdi com escandaloso estampado floral e pestilento hálito de alho e cebola. Nas portas das lojas, vendedores e clientes se espichavam nas pontas dos pés para admirar o tumulto, cada um especulando a versão que lhe viesse à cabeça. Formara-se num átimo a algazarra. Antes que alguém se desse conta de mim, se desse conta de quem eu era, se desse conta de que eu daquele infausto era a maior vítima, me afastei caminhando a ermo, as pernas bambas, o raciocínio embotado, um nó na garganta, os olhos perdidos no não sei onde. Com a avenida Sete de Setembro parcialmente obstruída pelo desastre, formou-se um grande engarrafamento dos veículos destinados ao centro da cidade e o buzinaço ecoava-me como escárnio da praça da Piedade até a rua Visconde de São Lourenço, aquela do Forte de São Pedro, por onde caminhei até o Campo Grande.

As buzinas silvavam lancinantes, intermitentes umas, persistentes outras, reboando no meu cérebro, lacerando-o. Não mereceria meu pai o respeito do silêncio? Inutilmente, tapei com as mãos os ouvidos, mas a estridência me invadia pelos poros, pelas frestas dos dedos, pelos olhos, pela boca e eu ouvia que as buzinas me acusavam: "você correu", "você fugiu". Ainda entorpecido e confuso, me sentei em um banco de pedra próximo da fonte luminosa e, enfim, chorei. Uma solícita senhora me perguntou se eu sentia alguma dor, eu disse que não. Perguntou se seu estava perdido, eu disse que não. Perguntou "então choras por quê?" Eu disse que havia perdido o dinheiro do ônibus pra voltar pra casa. Ela me deu algum dinheiro e seguiu em paz com a sua consciência. Fiquei ali até anoitecer e foram naquelas horas de dor, choro, desespero, lembranças, autocomiseração e medos que decidi não contar a Madalena, minha madrasta, nada do que acontecera.

Quando mamãe morreu, eu ainda não completara três anos e a minha memória embaça tão remotas lembranças. Tudo o que sei dela é por ouvir de outros, e por uma foto de lambe-lambe, três por quatro, em preto e branco. Foto onde ela tem o cabelo preso atrás das orelhas de lóbulos entumecidos (por lhe tirarem sem delicadeza as argolas para o instantâneo), me escondendo a longa e ondulada cabeleira castanha clara, quase loura, que papai um dia me descreveu com ternura e saudade. Foto em que reconheço traços meus nos lábios carnudos e nos grandes e profundos olhos. Foto que papai retirou de um documento sem mais valia e me deu quando me matriculou, aos sete anos, no primeiro ano primário da Escola Coração de Jesus.

Papai, varapau de metro e oitenta e tantos, cabelos negros como os olhos, mãos enormes macias ao tato, peito peludo, sobrancelhas espessas, era caixeiro em uma loja de tecidos, mas, apesar de pobre, não media sacrifícios para me dar uma boa educação.

– Principalmente no primário, que é base de tudo. Graças a isso, quando eu morrer, lhe terei deixado algo que sempre será de valor e ninguém poderá roubar. Luzia, se fosse viva, ficaria feliz. — Foi o que disse energicamente a Madalena, colocando ponto final na cantilena de que era um despropósito gastar a metade do seu pequeno ordenado para me colocar em escola de gente rica.

Papai nasceu em família abastada. Seu avô, um aristocrata do segundo império, Barão de Nagé, título que o pai, o meu tataravô, recebeu em pagamento dos escravos cedidos à nação para a Guerra do Paraguai, fora proprietário de grandes plantações de cana-de-açúcar no Recôncavo Baiano e de rebanhos bovinos criados soltos nos sem fins das suas fazendas do sertão; bens e propriedades que o filho único e mimado, vovô Francisco, pai de papai, dilapidou em roletas, casas de carteado e em noitadas orgíacas com francesas nos prostíbulos mais luxuosos da Bahia e do Rio de Janeiro. Tudo isso sei por papai me contar, magoado, do bem bom que não lhe chegou.

Sendo obrigado a vender de porteira fechada a última fazenda, a da moenda, para pagar as dívidas do jogo, vovô Francisco se suicidou ingerindo uma dose cavalar da digitalina que usava como tônico cardíaco. Mesmo tendo deixando como herança para vovó Maria e os seis filhos, apenas o velho sobrado residencial (necessitado de reformas, para as quais se vendeu as pratarias da casa e as últimas jóias de vovó) e uma pequena casa comercial, ambos em Santo Amaro da Purificação, foi um alívio para os descendentes, porque, se naquele raro momento de lucidez ele não desse cabo à própria vida, em mais um ou dois meses torraria os seus últimos parcos bens. Não faltaram maledicentes para sugerir que vovó Maria enfiara a dose mortal goela a baixo do marido pródigo; mas coisa que se diz e não se prova pertence ao universo paralelo do se, aquele onde tudo é em desconforme com este nosso, o real. Contudo, admitindo-se que o tenha feito, seu único erro teria sido esperar tanto e ficar com tão pouco. Primogênito, papai aos quatorze anos, viu-se obrigado a abandonar os estudos para ajudar vovó na loja, cuja renda mostrara-se insuficiente para pagar empregados e sustentar a família.

Mamãe nasceu em Salvador. Vovô Teotônio, seu pai, um balofo hipertenso, sangüíneo, afeito aos mocotós e gordas feijoadas, fumante de três maços de cigarro por dia e sedentário por esporte, estava empregado em uma função burocrática nas docas quando um infarto do miocárdio fulminou-o jovem, no ano seguinte ao da formatura de mamãe como professora de ensino fundamental. Vovó Hilda, uma mulher de compleição frágil e tez amarelada, morreu de tristeza, com anemia profunda, poucos meses depois. Ainda tenho uma foto do casal em uma moldura elíptica pintada com tinta dourada. Para as filhas, tia Amélia e mamãe, ficaram duas casinhas geminadas na rua Lopes Trovão, no bairro da Massaranduba, na cidade baixa. Tia Amélia, que já era casada, vendeu a sua logo após a conclusão do inventário e partilha dos bens; na outra morávamos, eu, papai e Madalena.

É útil esclarecer, aos leitores de outras paragens, que Salvador é dividida em Cidade Alta e Cidade Baixa. Essa distinção remonta à sua fundação no século XVI, pois, por questão de segurança contra a pirataria, as suas primeiras edificações foram erguidas pelos colonizadores portugueses sobre uma escarpa à cerca de sessenta metros acima do nível do mar e a, aproximadamente, três quilômetros para dentro da ponta norte da baía de Todos os Santos: essa é a origem da cidade alta. A cidade baixa era, então, o porto, situado ao pé da escarpa. Com o crescimento de Salvador, hoje se usa a denominação de cidade baixa para toda a área ao nível do mar no interior da baía, até os subúrbios. E é chamada de cidade alta, além do centro histórico e das áreas elevadas, todo o litoral oceânico situado ao norte da baía. Estar, portanto, ao nível do mar, em Salvador, não significa, necessariamente, estar na cidade baixa. Talvez esteja neste paradoxo a origem da injúria, que os baianos sofremos, de alguns despeitados da nossa notória inteligência, que denominam "baianada" às atitudes disparatadas que eles próprios cometem.

Começava a escurecer quando tomei o ônibus da Ribeira, o sol acabara de se esconder atrás da ilha de Itaparica quando descemos a avenida Contorno para alcançar a cidade baixa. Saltei no Largo de Roma, a cerca de meio quilômetro da minha casa, e fiz o resto do caminho a pé, maquinando o que diria quando chegasse. Talvez, imaginei, a notícia me precedesse e por dor mais dolorosa o esquecimento apagasse em Madalena a preocupação com a minha ausência, poupando-me explicações.

Havíamos saído, eu e papai, os dois gozando férias, às dez horas da manhã daquela quarta-feira, para pedir, na loja onde ele trabalhava, e em outras, aos seus camaradas de ofício, retalhos de tecidos, imprestáveis para o balcão, que sempre sobram das vendas natalinas. Retalhos para Madalena cozer "colchas de fuxico" e vender, de porta em porta, engordando o haver do nosso parco orçamento doméstico.

Recolhêramos uma boa quantidade de retalhos quando papai foi atropelado, já quase concluída a travessia. Eu, saltitante de alegria pelo passeio, correra destemido na frente, entre os veículos; livre das suas mãos enormes no meu pescoço, (que era como papai gostava de me conduzir), porque ele as tinha ocupadas, carregando os embrulhos. Alcançada a calçada, ouvi o guinchar de freios, o som surdo da porrada do carro em papai e o da sua cabeça espatifando no chão. Virando-me vi-o, já cadáver, a massa encefálica à mostra, seu sangue jorrando e, rompidos os embrulhos de papel sob as rodas de outros carros, os retalhos irremediavelmente perdidos.

A caminho de casa passei na de Guga, amigo de brincadeiras e colega de sala na escola. Ele morava na melhor casa da rua. Uma casa térrea de fachada branca com portas e janelas em azul colonial, assoalho de boa madeira, três quartos, duas salas, um gabinete. Era um palacete, se comparada com as outras casas da rua. Era a única com quintal, quase um bosque mágico habitado por fadas e duendes, onde costumávamos brincar nos balanços atados aos galhos altos de uma frondosa mangueira de frutos dulcíssimos. Balanços que transformávamos em trapézios, como os do Circo Garcia, que armava a sua lona nos arredores por quinze dias a cada ano; ou que desmontávamos, retirando-lhe as tábuas, fazendo das cordas os cipós onde brincávamos de Tarzã, o homem macaco, herói e paradigma, meu e de Guga, invencível nas lutas contra leões, tigres, jacarés e homens maus.

Guga também é filho único e, exceto nos horários das aulas, passava os dias sem adultos a azucrinar-lhe: seus pais (seu Nicolau e dona Tânia) trabalhavam no centro da cidade e não almoçavam em casa. Seu Nicolau, fiscal de rendas do estado, era de estatura mediana, tinha entradas de calvície pronunciadas na testa miúda e um horroroso nariz adunco, encimado por óculos de aro de tartaruga e lentes grossas para miopia. Uma dessas fisionomias que fazem a festa dos caricaturistas. Muito reservado e estudioso mal se lhe percebia a presença, pois, amiúde, trancava-se em um quarto transformado em gabinete, território proibido às crianças, de lá saindo apenas para as ceias e, evidentemente, dormir, mijar e cagar. Quando ele morreu em 1980 eu estava em Vinhedo Novo e não pude chegar a tempo para o funeral. Dona Tânia, sempre alegre e festeira, baixinha e magrinha, ainda é viva. Caduca, mora (na mesma casa branca de janelas e portas azuis, o palacete da nossa infância) com Guga e Alice, a quem inferniza com suas fantasias: pensa que tem vinte anos e por isso, para desespero da nora, todas as tardes, exageradamente maquiada, assedia os rapazes que passam sob a janela da sala. Naquela época já tinha a cabeleira com as raízes brancas denunciando o uso de tintura ruiva e era funcionária da Secretaria de Educação do Governo do Estado. Sua mania por limpeza, ralhando conosco por sujar o assoalho com a lama do quintal, era o único senão que eu lhe fazia.

Ainda na porta, Guga me perguntou onde andara a tarde inteira e me informou que Madalena procurara-me. Menti-lhe dizendo que me perdera de papai na avenida Sete e que voltara a pé desde lá. Era essa a versão que preparara para Madalena e foi o que disse quando ela me inquiriu.

– Você não devia sair de junto dele, você é muito traquinas! — ela recriminou-me — Onde já se viu, se perder do pai. Geraldo deve estar lhe procurando como um louco. — A notícia ainda não lhe chegara.

Tomei a sopa educativa, de caldo de carne e massinha de letrinhas, que ela me serviu e não sai para brincar com a molecada da rua, como era natural ter feito se outra fosse a situação. Fui para o meu quarto: o da frente; pequeno; pintado com um azul pálido, lamentável resultado da mistura de cal com pouca anilina; contíguo à única sala da casa; com infiltrações e mofo na parede; mas o único com janela para a rua. A janela do outro, o do casal, abria para um vão sombrio sob as escadas do andar de cima do prédio ao lado. Prédio que era uma casa sobre outra e não uma única casa, por isso a escada externa.

Do quarto era perceptível a preocupação de Madalena: ouvia-a ir e vir, trilhando várias vezes o curto percurso entre a porta da rua e a cozinha, arrastando os pés no corredor (que tem, porque a casa ainda existe, três portas, uma à direita para o quarto do casal, outra à esquerda para o banheiro, a última, na ponta, a da cozinha) e praguejando com a demora de papai. Foi quando, pela primeira vez, tive pena dela. Apesar de sempre me tratar com doçura, abdicando de violências mesmo se eu não lhe obedecia, via-a, até aquele dia, injustamente, como um estorvo: uma mulher, que não era a minha mãe de verdade, me obrigando a cumprir horários, notadamente para banhos e para os deveres que trazia da escola; me jogando na cara a fortuna que papai gastava em mensalidades, uniformes e livros, privando-se, e a ela, de qualquer conforto. Mesmo assim eu me sentia muito mais feliz, então, que quando morei com tia Amélia. Mas atribuía minha felicidade exclusivamente a papai

Papai conheceu Madalena alguns meses após enviuvar. Com o passar dos anos formei a convicção de que, mais que uma mulher para si, ele buscou uma mãe para mim, como única forma de me resgatar da casa de tia Amélia, aos cuidados de quem eu ficara, por quase dois anos, até quando ele se casou com Madalena. Viúvo, trabalhando o dia inteiro, sem condições de pagar uma babá, só podia ficar comigo, até o casamento, nos domingos.

Eu já tinha quinze anos, cursava o último ano ginasial, quando minha madrasta me contou tudo o que sofreu na vida. Filha de lavradores paupérrimos, ela nasceu na zona rural de Alagoinhas, em um pedaço de terra devoluto, com área que não media nem meio alqueire, cuja única cultura eram minguados pés de agave, insuficientes para uma meada de sisal, e meia dúzia de galinhas d’angola ciscando, esfomeadas e sedentas, o terreiro miserável, esturricado pela seca. Sofreu abusos sexuais do próprio pai, com a complacência da mãe, desde os doze anos. Aos quinze venderam-na para a dona de um bordel de Salvador onde, demonstrando maior aptidão para o corte e costura do que para o comércio do sexo ("eu chorava o tempo inteiro e só homem tarado queria ficar comigo", ela me explicou), foi aproveitada como costureira. Aos dezoito anos conheceu papai na loja, onde fora comprar, a mando da cafetina, uma peça de lamê, tecido de preferência da sua freguesia. Namoraram-se por quase um ano e, sendo necessária uma autorização paterna para contrair núpcias, porque ela era menor de vinte e um anos e a lei é mais rigorosa para isso que para coibir a prostituição de menores, submeteram-se, ela e papai, ao constrangimento de procurarem o pai anormal que exigiu dinheiro para assinar o documento.

– Seu pai pagou, Júnior. Com raiva, mas pagou. Levamos meu pai no cartório, a papelada foi feita e registrado pelo tabelião, depois, na saída do cartório, Geraldo pagou, demos as costas para ele sem dizer palavras e viemos embora. Mas é meu pai e eu o perdôo, porque o Nosso Senhor Jesus Cristo quer que eu não tenha ódio deles, é pecado. Mas nunca mais quis saber dele nem de mãe, nem se é morto, nem se é vivo.

Não durou muito a aflição de Madalena, passava pouco das nove da noite quando bateu à porta um policial perguntando se era ali a casa do Sr. Geraldo Freitas Alencar.

Atraída pelo carro de policia, parado na porta lá de casa, a vizinhança foi chegando para assuntar a novidade. Do quarto, o som atravessando o compensado da porta, eu ouvia Madalena chorando convulsivamente e invocando o Nosso Senhor do Bonfim, esperançosa, ainda, talvez, que fosse um engano, que o corpo não fosse o de papai. Pela janela entrava o alarido do povaréu na rua e logo as vozes de consolo invadiram a casa. Uma, que com certeza, pela voz fanha, era Maricota, uma negra feia, safada e fedorenta, que gostava de apalpar as intimidades dos meninos, mas que foi de grande utilidade pública, porque a muitos guris do meu bairro serviu, ao menos, para o descabaço, perguntou por mim e Madalena respondeu que eu dormia faz tempo. Temendo que alguém se dispusesse a conferir, fiquei deitado, quieto, as costas voltadas para a porta do quarto e adormeci.

 

 

 

 

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A bruxa vinha me pegar, eu queria correr, minhas pernas se moviam, mas eu não saía do lugar; papai ria um riso de som áspero como o do freio inútil, como o dos pneus cantando nos paralelepípedos, como os das vozes estranhas, como os das buzinas dos automóveis; os urubus davam voltas em torno de mim e me bicavam; a bruxa, língua bipartida, com mau hálito de cebola e alho, mortalha de jornal negra e branca, já quase me pegando; papai rindo, chamando e rindo, não corra, não corra, venha Júnior, não fuja... Acordei do pesadelo no meio da madrugada, com a casa silenciosa e totalmente escura, o coração pulsando aos trancos. Levantei-me para beber água, mijar e espantar o medo, acendi a lâmpada da sala e, no corredor, a porta aberta do quarto de papai, a cama do casal vazia, o lençol encardido espichado, indicavam que Madalena ainda não voltara da sua triste missão. Passei insone o resto da noite, rolando na cama, conjeturando um futuro sombrio na casa de Tia Amélia onde, imaginava, voltaria a sofrer os maus tratos do seu marido, o tenente Henrique Machado, terror da minha infância.

O tenente era um homem rude, habituado à caserna, impondo ao lar disciplina militar: exigira-me aos três anos de idade, sob pena de cascudos e beliscões, castigos que aplicava sem alterar a serena fisionomia, que mantivesse limpos e brilhantes todos os sapatos da casa; que despertasse com a alvorada, que arrumasse a minha cama, o meu quarto, e dispusesse sempre em ordem os pequenos soldadinhos de chumbo que me presenteara.

– Farei de você um general, Geraldo Júnior; um General-de-exército. Mas é preciso disciplina e dedicação. Muita disciplina. — O sonho de tio Henrique soava-me como uma ameaçava.

Tia Amélia era estéril e eles me receberam, quando mamãe morreu, como se eu fosse o filho que jamais teriam. Foi a contragosto que me devolveram a papai.

– Conosco o menino terá um futuro brilhante Geraldo, aqui ele é tratado como se fosse nosso próprio filho. Você não está em condições de lhe dar tudo o que nós podemos. Você poderá continuar a vê-lo, é o pai, poderá leva-lo nos fins de semana. Amélia está muito apegada ao sobrinho. — Os protestos de tio Henrique não surtiram efeito. Felizmente.

O traço mais perverso do caráter de tio Henrique seria revelado, muitos anos depois, quando foi denunciado entre os mais sádicos torturadores que mancharam o exército brasileiro nos anos da ditadura.

Amanhecia o dia, somente os galos mais atrasados ainda cantavam, quando Madalena chegou. Ouvi o barulho da chave na fechadura da porta da rua e continuei deitado, fingindo que ainda não acordara. Ela foi para a cozinha, coou o café, como sempre ralo, e, pensando que eu ainda dormia, foi me acordar, levando-me um copo de café pingado com leite e o pedaço de pão seco de todo dia. Esperou que eu me alimentasse e, não conseguindo mais conter as lágrimas, comunicou-me a morte de papai. Não sei por qual mecanismo da minha psique, chorei como se fora coisa não sabida, como se fora confirmação de algo que, até então, pertencia ao universo do talvez. Madalena me abraçou com ternura e pediu que eu me banhasse e me vestisse para acompanha-la ao enterro no cemitério da Quinta dos Lázaros, onde o corpo estava sendo velado. Um vizinho e amigo de papai, seu Bonifácio, motorista de carro de praça, passaria dali a meia hora para nos levar. Temeroso que, lá mesmo, eu fosse entregue a tia Amélia, pedi a Madalena que me deixasse ficar, argumentando que não queria ver morto o meu pai, que preferia ir para a casa de Guga; lá ela me buscasse na volta. Ela acedeu.

Na vigília eu decidira fugir ou suicidar-me. Fugindo me tornaria um "capitão-de-areia", nome que se dava, na época, aos meninos de rua; ou tomaria na estrada uma carona para Santo Amaro, buscando abrigo entre as tias do lado de papai.

Papai viera para Salvador com a expectativa de ascender à gerência de uma grande loja, ele que, após tantos anos labutando no ramo, conhecia todos os macetes do comércio de tecidos. Um dia, sonhava quando chegou, montaria a sua própria loja, que seria, com sorte e perseverança, a primeira de muitas. Mas sonhos são isso mesmo, sonhos; aquele não fugiria à regra: a fortuna não estava em seu destino. Mas não foi o sonho que o trouxe, viera porque a lojeca que sua família herdara sofrera com a concorrência de comerciantes mais capitalizados, capazes para vender a crédito e mais barato. Sofrera, também, com a nascente indústria do "prêt-à-porter". Tornara-se, assim, fonte de renda insuficiente para manter tantas bocas, sobretudo porque, já moços e moças, novas necessidades lhes surgiam. Na mesma época, tio Gerson, um ano mais novo que papai, decidira buscar a fortuna em São Paulo, a despeito da oposição familiar. Tio Genésio, o caçula, engravidara uma moça de Maragojipe e, forçado a um casamento prematuro, porque na época era esse o preço da honra maculada, ficara a serviço do sogro em um armazém de secos e molhados.

Sobrevivendo da lojinha restavam, quando papai morreu, as tias Gesilda, Guiomar e Gislene, esta, coitadinha, presa a uma cadeira de rodas, as pernas finas como gravetos, vítima da poliomielite. Tínhamos pouco contato com a família de papai. Até a morte de vovó Maria, em 1958, íamos a Santo Amaro um domingo em cada mês, chegávamos quase na hora do almoço e voltávamos no final da tarde; desde então fôramos somente nas festas juninas e papai pretendia nos levar, a mim e a Madalena, na próxima festa de Nossa Senhora da Purificação, festa na qual nunca faltara, mas à qual nunca nos levara.

Seu Bonifácio já levara Madalena para ao enterro quando sai. Passei direto pela porta de Guga, atravessei a avenida Caminho de Areia e segui até a praia da Boa Viagem. Entrei no mar decidido a nadar para o fundo até que me faltassem forças e que fosse levado como oferenda para Iemanjá, a rainha do mar. Era essa a praia que freqüentávamos nos finais de semana e, esporadicamente, quando papai tirava férias. Ali estivéramos na manhã do dia primeiro de janeiro, para acompanhar a chegada da procissão marítima do Senhor Bom Jesus dos Navegantes.

Foi, e ainda é hoje, uma festa belíssima, com o mar da baía de Todos os Santos tomados por centenas de barcos, minúsculos botes, grandes saveiros e iates e, à frente de todos, a galeota Gratidão do Povo trazendo a imagem do Bom Jesus e a de Nossa Senhora da Conceição da Praia.

Sempre que é possível passo o reveillon na festa da Boa Viagem só retornando após o encerramento da procissão marítima. Causa-me pena, contudo, verificar que decresce, ano a ano, a quantidade de saveiros; na mesma medida em que cresce a presença de barcos motorizados. Estão morrendo os saveiros que, na minha infância, singravam as águas da baía trazendo para a feira de Água de Meninos os produtos do seu recôncavo.

Do mar, do fundo, de longe, a praia era uma estreita linha branca e os banhistas pontos negros, como formigas pequenas em trilha de formigueiro. Eu nunca nadara tão ao fundo. Foi lá, tendo um mundo de água salgada ao meu redor, (bem verdade que água mansa, lisa, de mar interior, não mar oceânico de vagas gigantes), que me dei conta que eu não queria morrer; que eu era capaz de vencer aquele mar e que o seria para enfrentar intempéries de quaisquer natureza. Do mar, de Iemanjá talvez, recebi um novo ânimo, uma energia mística para enfrentar o que viesse. Sentia-me forte para lutar contra tudo e contra todos, se fosse preciso. Forte para ergue-me, para superar a falta que papai me faria, e determinado a me tornar tão rico ou mais rico ainda do que fora o meu bisavô.

Deixei-me boiar para recuperar o fôlego, como papai me ensinara, e nadei para a praia. Caminhei de volta para a Massaranduba fazendo um percurso mais longo, subindo o Mont Serrat e seguindo daí até o alto da colina do Bonfim onde, no adro da igreja, me ajoelhei e rezei pedindo ao Nosso Senhor da Colina Sagrada que fosse bom para as almas de mamãe e de papai e que não permitisse que Madalena me devolvesse para tia Amélia. Mandasse-me para Santo Amaro ou ficasse comigo e eu prometeria comportar-me, obedecer-lhe e, até mesmo, estudar em escola pública.

Secara-me ao sol, na jornada até a casa de Guga. O meu amigo, que ainda não sabia da morte de papai, sendo disso informado, primeiro pensou que eu estava culhudando, depois, convencido, ensaiou palavras de consolo, mas, percebendo que eu não demonstrava desmesurado abalo, me chamou para brincar no quintal. A mangueira estava carregada de frutos maduros e deles nos empanturramos, desprezando o almoço que dona Tânia deixara pronto no forno. Eram quase três da tarde quando Madalena passou para me buscar. Estava com as mãos geladas e trêmulas e os olhos inchados do pranto. Enquanto caminhávamos para casa, ela me disse, quase sussurrando, como se quisesse segredo:

– Júnior, antes de me casar com seu pai ele me fez prometer que eu nunca lhe abandonaria se alguma coisa de mal acontecesse com ele. Eu sei que você não me ama como se eu fosse sua mãe, mas vou cumprir minha promessa, mesmo que tenha que labutar noite e dia na máquina; a não ser que você prefira ir morar com sua tia Amélia. Lá no cemitério ela me disse que se você quiser pode voltar pra casa dela, que seu tio Henrique gosta de você como se fosse um filho. Vocês podem alugar a casa, que é sua. Eu posso voltar pra de onde vim. Não tenho direito a coisa alguma.

Abracei-me a Madalena com uma ternura que, até então, somente a papai concedera e, mentalmente, agradeci ao Nosso Senhor do Bonfim por ter atendido as minhas preces e a papai pela previdência de ter cobrado tal promessa da noiva. Respondi-lhe:

– Eu prefiro ficar com você Madá, prometo que vou me comportar direitinho e que vou lhe obedecer como se você fosse minha mãe de verdade. Eu não quero morar com tio Henrique, ele é muito bruto. — Foi uma cena comovente, assim hoje me parece, madrasta e enteado abraçados chorando no meio da rua.

Na manhã seguinte ao dia do enterro, fomos para Santo Amaro comunicar a tragédia à família de papai. Estando em férias até o final de fevereiro e atendendo aos argumentos de tia Gesilda, Madalena concordou em que eu ficasse alguns dias com as irmãs de papai, tempo em que ela cuidaria dos papéis necessários para dar entrada, no instituto de previdência dos comerciários, no requerimento da pensão a que tínhamos direito.

Rememorando os acontecimentos, depois de muito tempo, como o faço agora, fico à vontade para dizer do desagrado que é ter a dor continuada, remoída, com essa obrigação póstuma de satisfazer com detalhes a curiosidade alheia, além, é claro, de ter que suportar, com um olhar contristado, o inevitável "coitadinho, órfão de pai e mãe ainda tão novinho". Apesar disso, tive ótimos momentos naquele verão em Santo Amaro. Tia Gesilda estava noiva de Anísio, um ferroviário iniciando militância sindical, o que motivou que amargasse prisão e tortura no período da ditadura militar, levando-o à demência. Ainda hoje perambula, maltrapilho, nas ruas de Santo Amaro, proferindo discursos desconexos conclamando o povo a formar, sob o seu comando, um batalhão para formar na "Segunda Coluna Prestes, que um dia libertará o Brasil do imperialismo ianque".

Foi Anísio, tia Gesilda conosco, quem me levou para o meu primeiro passeio de trem, até Cachoeira, cidade histórica ribeirinha, ligada a São Félix por uma ponte de ferro, que me disseram ter sido inaugurada pelo próprio D. Pedro II. Essas cidades irmãs mereceriam todo um capítulo, se isso, o relato das minhas memórias, fosse um livro de história da Bahia ou um guia turístico; mas, em não sendo, registro apenas que, na ocasião, a única coisa que mereceu a minha atenção foi a ponte, mesmo assim porque fantasiei a presença do meu tataravô, ao lado do imperador, na sua festiva inauguração. Boas recordações tenho de lá, mas de outra época, bem mais recente. Em Cachoeira tomamos um barco e descemos o rio Paraguaçu até Maragojipe, para visitar e informar a tio Genésio o falecimento do irmão.

De Maragojipe, onde ficamos mais tempo, guardo a lembrança de centenas de bois de sela, com argolas metálicas enfiadas nas narinas, onde se ata uma corda, à guisa de rédea, e de grandes caçuás de cipó pendendo das cangalhas. Era esse o transporte de quantos vinham da zona rural para vender seus produtos e abastecerem-se de mantimentos e de cachaça. Quase quatro décadas são passadas, mas tenho viva a memória das ruas transformadas em um lamaçal de bosta e urina do gado exigindo-nos agilidade de malabarista para saltitar a estranha dança necessária para transitar nas ruas sem empestear os sapatos. Inesquecível é, também, a moqueca de pititingas que nos foi servida por dona Benedita, sogra de tio Genésio. Moqueca como nunca mais achei igual.

Um dia, para me agradar, talvez enciumada com o relato que lhe fizera, Madalena comprou pititingas, mas fê-las fritas, untadas em farinha de rosca, quando a informei que, para a moqueca, carecia trata-las, tirando o espinhaço de cada um dos pequeníssimos peixes. Ela até tentou, mas não tinha a técnica necessária e as pititingas se desmanchavam nos seus dedos, inábeis para tão delicada operação.

Àquele passeio tia Guiomar não pôde nos acompanhar, já que uma das irmãs obrigava-se a ficar, na ausência da outra, para cuidar da loja e assistir tia Gislene. Dito assim é possível que se pense em tia Gislene como uma cruz a carregar; é necessário, pois, restabelecer a verdade.

Apesar de presa na cadeira de rodas desde a infância, ela assumiu a cozinha da casa, liberando a mãe e as irmãs de mais esses afazeres. Para lhe facilitar as tarefas, vovó Maria mandara um hábil marceneiro instalar, em toda a cozinha, um sobre piso de madeira. Assim tia Gislene tinha fácil acesso ao fogão, a pia e ao grande balcão onde ficavam os potes e terrinas com os ingredientes mágicos que manipulava com mãos de fada. Para um adulto em pé, aquela parecia uma cozinha em casa de anões.

Além de eximia nos doces e nos salgados, tia Gislene nos deleitava com sua rouca e bela voz, interpretando tanto os mais recentes sucessos do rádio quanto as modinhas do passado e umas canções melancólicas que inventava na hora e depois, se lhe pedíamos, não lembrava mais nem letra, nem melodia. É de tia Gislene que me recordo sempre que ouço os discos de Maysa. Quando retornamos da nossa curta viagem a Maragojipe ela preparara, para nos esperar, uma fornada de quindins e um sublime sorvete de mangaba.

Nos dias seguintes minhas tias se revezaram em me distrair. Foi com tia Guiomar que fui banhar-me na cachoeira da Vitória e nas praias de Itapema, Bom Jesus dos Pobres e de Cabuçu, as mais próximas de Santo Amaro. Belíssima, mas avessa à corte dos rapazes, soube-lhe homossexual, anos depois, quando veio brincar o carnaval em Salvador, hospedando-se conosco, creio que em 1965. Indignada com a cantada que dela levara, Madalena só a não pôs porta a fora por ser minha tia. Felizmente esse episódio foi logo mitigado e não resultou em dissentimento entre as duas. Não se pode dizer que se tornaram grandes amigas, mas conseguiam relacionarem-se como se o desagradável entrevero nunca tivesse acontecido.

Madalena foi me buscar em Santo Amaro a uma semana do inicio das aulas. A boa notícia que trazia foi que me matriculara no quarto ano primário da Escola Coração de Jesus, graças a um saldo de comissões que papai ainda não houvera recebido. A má notícia foi que a tramitação do processo burocrático para que passássemos a receber a pensão do instituto costumava levar meses, "no mínimo seis meses, um ano no máximo", dissera-lhe o burocrata do setor de protocolo.

Quando chegamos em casa observei que Madalena instalara a máquina de costura e uma mesa para corte na minúscula sala. Amontoados sobre a mesa, pedaços de lamê e de outros tecidos brilhosos e de cores quentes denunciavam que retomara sua antiga freguesia. Denunciavam sim, mas essa é uma constatação que faço agora, porque, na época, eu nada sabia das antigas atividades da minha madrasta. Essa é uma das armadilhas que corremos quando rememoramos e narramos o passado, dispondo de informações que não tínhamos na época: atribuirmo-nos, com uma má escolha de palavras, sensações que, com as informações então disponíveis, não poderíamos ter sentido.

Foi Vicente, alcunhado "reco-reco", um pretinho gago, dois anos mais velho que eu, que morava com os avós em um casebre, de chão batido e paredes de adobe chapiscado de cimento, situado quase no final da minha rua, companheiro nas brincadeiras e também aluno do João Florêncio Gomes, o responsável por minha introdução no mundo dos negócios, convidando-me para acompanhá-lo na venda de jornais. Naquela época, 1963, o jornal "A Tarde" era vespertino e, por volta das onze horas, os jornaleiros formavam filas, entre o prédio do jornal e o do Cine Guarani, na Praça Castro Alves, para adquirir, a preço menor que o de venda, os exemplares cujo peso suportasse carregar. Devido ao horário da escola, só me era possível chegar por volta das treze horas; mesmo assim, raramente não conseguia vender minha cota e o sacrifício mostrava-se compensador, pois era com aquele pequeno faturamento que comprava o ingresso para a matinê dominical do Cine Roma, para assistir, no estádio da Fonte Nova, os jogos do Esporte Clube Bahia, o esquadrão de aço tricolor, ficando com troco suficiente para lanchar cachorro quente com guaraná Fratelli Vita.

Em pouco tempo descobriria outras fontes de lucro negociando garrafas, sucatas de metais e papeis usados. Um dia, apareceu na fila dos jornaleiros de "A Tarde" um senhor baixinho, muito vermelho, Seu Maurício (alguns anos mais tarde fiquei sabendo que era um perigoso comunista), recrutando rapazes para a distribuição de um novo jornal, o IC Indústria e Comércio, um semanário que seria entregue gratuitamente de porta em porta. Sendo gratuito, não precisaríamos ter dinheiro, nem correr risco de não vender; receberíamos um valor fixo por cada domicílio de uma relação que nos seria entregue. Aceitei o convite. As cinco da manhã, já não me lembro se aos sábados ou domingos, buscávamos os jornais. A mim foi destinado distribui-los nos bairros do Politeama, Gamboa, Canela e Fazenda Garcia. Era um dinheiro fácil de ganhar. Na semana do Natal, além do que o Seu Maurício nos pagava, recebi boas gratificações espontâneas dos assinantes. Nunca ganhara tanto dinheiro. Desde então tomei gosto pelo trabalho e pelo lucro. Aos quinze anos formara capital suficiente para instalar uma banca para a venda de jornais e revistas. Começávamos, assim, Madalena e eu, e superar os anos de penúria extrema vividos após a morte de papai. Anos em que ovos fritos com arroz e macarrão com salsicha eram os luxos que nos permitíamos.

 

 

 

 

 

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Foi notável o meu sucesso no comércio: com uma parcela dos lucros da primeira banca montei outra e aos vinte anos era dono de outras três. Descobrira que a melhor maneira de ganhar dinheiro é conseguindo poupar para investir nos negócios fazendo-os crescer, e que, para isso, era necessário ter, servindo-me, pessoas que se contentassem com pouco. Aprendi nessa época que o salário nunca deve ser pequeno demais, porque assim, sem medo de perde-lo, o empregado não cumpre bem as suas obrigações e sofre a tentação do roubo. Por outro lado, não pode ser maior que a necessidade do assalariado, mesmo se se pode pagá-lo, porque, se lhe for dado mais, o empregado pode capitalizar-se e será tentado a empreender por conta própria, tornando-se, então, um concorrente.

Para fazer funcionarem as bancas eu recrutava meus empregados entre os mais pobres da minha rua. Eram rapazes que eu conhecia desde a infância, conhecia as suas famílias, sabia a miséria em que viviam e sabia que o pequeno salário que estipulara lhes pareceria uma fortuna, dado o padrão de vida que levavam. Continuei, contudo, estudando com afinco, estimulado por Madalena que tomara como seu o sonho de papai em me ver "doutor, com anel no dedo e diploma na parede".

Mas voltemos um pouco no tempo, coisa absolutamente necessária, pois me deixei enveredar pela rememoração dos meus primeiros passos como comerciante, omitindo fatos pretéritos, imprescindíveis para a completa compreensão dos eventos subsequentes. Na medida do possível tentarei não lhes vitimar com esses atabalhoamentos, mas, o amigo leitor deve estar prevenido, devido à minha inexperiência neste mister, para a hipótese do meu insucesso neste intento e, também, para a possibilidade de que eu, não me dando conta da deslinearidade, sequer digne-me, em algum outro momento, a alertá-los. Sigamos, pois.

Concluído o curso primário no Coração de Jesus, sobretudo graças ao esforço de Madalena, prestei, em 1962, o concurso de admissão ao ginásio no Colégio Estadual João Florêncio Gomes. Com a boa base adquirida, já não era necessário continuar os estudos em escola particular e, nesta época, ainda enfrentávamos dificuldades financeiras.

Foi no João Florêncio que me apaixonei por Bárbara, por seu riso alegre, riso que cintilava, também, além de nos dentes alvos e bem alinhados, nos olhos verdes, claros e brilhantes, emoldurados por viçosa pele morena e pelos cabelos negros, lisos, sempre bem penteados, compridos até quase a cintura. Bárbara era "mignon", tinha pouco mais de um metro e meio de altura. Eu estava começando a espichar, media cerca de um metro e sessenta. Um ano mais velha que eu, ela cursava o segundo ano ginasial na sala ao lado da minha. Nos primeiros dias observava-a nos intervalos entre as aulas, mantendo cautelosa distância. Depois passei a aproveitar qualquer oportunidade que surgisse para estar próximo a ela, mas, tímido, eu não ousava qualquer abordagem direta e, para meu desalento, nenhum dos meus camaradas participava da turma à qual ela se reunia.

Um dia segui-a para ver onde morava. Ela tomou a direção da Igreja de Nossa Senhora da Penha, oposta à do caminho que eu fazia para casa. Vicente "reco-reco", companheiro constante do ir e vir para o colégio, ainda ignorante do que ocorria, gaguejou:

– Va-vai fa-fazer o q-quê na Ri-ri-be-be-ira, Gê? — Era este o meu apelido, na escola e na rua, Gê, de Geraldo, com som de Jê. Somente Madalena, os tios e as tias, tratavam-me por Júnior.

– Quero ver os barcos no ancoradouro dos Taineiros — respondi, os olhos presos em Bárbara que já se afastara cerca de 20 metros; com ela outras garotas da escola.

– Po-por lá-lá é u-uma vo-ol-ta da-danada p-pra ca-casa. Q-quê ma-mania a-go-gora é-é essa d-de ve-ver ba-bar-co? E tá-tá co-com ca-cara q-que va-vai cho-chover. — Vicente argumentou.

– Não precisa vir comigo se não quiser — eu disse, no íntimo torcendo para que ele não viesse, porque eu não estava disposto a dividir com ninguém o segredo daquele novo sentimento que me possuía.

– Tá-tá b-bem, tá-tá b-bem, vo-vou co-com vo-você. — Ele aquiesceu. Eu já apressava o passo para não a perder de vista.

Bárbara já chegara ao largo da Ribeira quando a alcançamos. Diminuí o ritmo das passadas para nos manter a não menos que uns três metros do grupo que ela integrava. Vicente pareceu surpreso com a alternância de ritmo que eu imprimira tentando manter inalterada a nossa distância para o grupo das meninas, mas não disse nada, talvez cansado de gaguejar.

Desalentei-me quando Bárbara se despediu das colegas e dobrou a esquina da rua André Rebouças. Não tendo como justificar a Vicente tomar outro caminho para casa que não fosse pelos Taineiros, seguimos pela praça General Osório.

Depois do almoço, ainda não começara nessa época na venda de jornais, vesti minha melhor roupa, para surpresa de Madalena, que interrogou-me:

– Vai pra onde, tão bonito assim, Júnior?

– Vou pra reunião do trabalho de equipe, volto logo. — Menti, as equipes ainda não estavam constituídas.

Fui, o coração na boca, uma sensação estranha na barriga, as mãos frias, o rosto afogueado, bater pernas, pra cima e pra baixo, ao longo de toda a rua André Rebouças e das suas transversais, com a esperança de descobrir em qual casa Bárbara morava; uma curiosidade infantil, como se aquele conhecimento viesse a se tornar uma intimidade a nos unir. Imaginei que ela morasse em uma das casas mais próximas da esquina onde a perdi de vista, pois, sendo em alguma mais para o final da rua, ela poderia ter voltado da escola, pela rua Eng. Pimenta da Cunha; a não ser, eu matutava, que tivesse feito o caminho que fez apenas pelo prazer de acompanhar as amigas.

A chuvarada, prenunciada por Vicente "reco-reco", desabou, com raios, relâmpagos e trovões, por volta das três da tarde, interrompendo minha malsucedida investigação. Corri para me abrigar em uma mercearia que havia na esquina da André Rebouças com a Pimenta da Cunha e dei de cara com Bárbara, atrás do balcão. Nunca lhe falara e creio que ela nunca prestara atenção em mim. Nossos olhares se cruzaram por um átimo, tremi e me dei conta que, apalermado como estava, não saberia o que lhe dizer se nos falássemos. Mas o átimo foi mesmo um átimo e ela continuou na sua labuta sem me dedicar qualquer atenção. Voltei para casa sob a tempestade, sujando meu melhor sapato e minha calça domingueira nas poças de lama, molhando-me até os ossos, tiritando de frio, e decidindo que, doravante, jamais cometeria o erro de agir movido apenas por impulso, sem antes me preparar adequadamente para as situações com as quais poderia me deparar. Desde então tenho me esforçado para sobrepor a razão aos sentimentos. Talvez tenha sido aí, por isso, que tenha feito tantas opções erradas na vida, como mais adiante se revelará.

Àquela noite, após repassar as lições do dia, não fui para a rua brincar de "bandido e ladrão" com os amigos, fato tão inusitado que Madalena se preocupou me acreditando adoecido pela chuvarada que tomara. Disse-lhe que não, não estava gripado nem febril, mas que estava assoberbado com tarefas do trabalho de grupo da escola, que precisava estudar. Ela se incumbiu, por conta própria, de barrar na porta quantos vieram conclamar-me para sair.

Decidira-me escrever um poema para Bárbara, era o primeiro passo da estratégia que engendrara para conquista-la. A idéia do poema me ocorreu porque eu havia gostado de um de Cecília Meireles que nos fora dado para a análise sintática na aula de português daquele dia. Lembro-me ainda da primeira quadra:

"Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve...".

Recentemente, revendo a papelada velha que entulha as gavetas da estante do gabinete de casa, (uma mania essa que não sei de quem herdei: guardar cadernos, anotações, bilhetes, cartas, coisas de que nunca precisarei, mas às quais devoto um cuidado exagerado, arquivando, catalogando e eventualmente folheando, como se ali pudesse encontrar talvez um outro eu que o passado levou, ou que nunca existiu, exceto na minha fantasia) encontrei em um velho caderno o resultado daquele esforço:

Bárbara, basta-me um gesto...

ou um breve piscar de olho

que entre todas as meninas

é você a que escolho.

Transcrevi esta quadra, com letra de forma, em uma folha alva arrancada ao caderno de desenho; adornei-a com moldura formada por pequenos corações flechados, inscritos com as iniciais "B" e "G"; assinei como "alguém que lhe ama", e levei para a escola, no dia seguinte, inserta no livro de matemática, matéria da primeira aula. Meu plano era colocar o poema entre os cadernos de Bárbara durante o primeiro intervalo. Para isso teria que contar com um improvável descuido de dona Jandira, a zeladora responsável pelo corredor das nossas salas, cuja função era coibir vandalismos e furtos, e que não me permitiria livre acesso à sala de Bárbara.

Não me recordo de muitos dias na vida em que tenha sentido tanto constrangimento quanto naquele. Tendo sido chamado ao quadro-negro para resolver uma equação de primeiro grau, deixei sobre a minha carteira o livro de matemática com o papel marcando a página da lição do dia. Heitor, o colega que sentava na carteira ao lado da minha, surrupiou o papel com a quadra, leu-a e fez com que fosse passada de mão em mão. Absorto com a explicação do professor demonstrando a solução do problema, que eu não conseguira resolver, só me dei conta do ocorrido quando, ao soar a sirene, dei pela falta do papel e enquanto folheava os livros procurando-o, o salafrário declamou o meu poema aos berros, para gozo de toda a sala. Fui salvo de um ridículo maior com a chegada de dona Jandira exigindo que a sala fosse evacuada, que todos descessem, como era praxe nos intervalos. Eu e Heitor, que estávamos trocando sopapos, fomos levados para a sala da diretoria.

Considerei uma dádiva a suspensão que levamos, na hipótese de uma semana ser tempo suficiente para que outro assunto ocupasse a atenção dos colegas. Afagando meu ego, levei para casa um elogio da diretora, Prof. Dalva, ao meu versinho.

– Foi você mesmo que escreveu ou foi copiada Geraldo? — Ela perguntou.

– Fui eu mesmo.

– Está muito boa, bem escrita, você não deve se envergonhar dos seus dotes poéticos.

– Eu não me envergonho.

– Então por que brigou com seu colega?

– Porque eu não queria que ninguém visse.

– E quem é Bárbara? É aluna da escola?

– Não senhora, é uma menina da minha rua. — Menti.

– É uma pena ter que lhe suspender, mas é preciso manter a disciplina, não posso abrir precedente do qual possa me arrepender depois.

Suspenso da escola e obrigado a trazer a assinatura do meu responsável no documento de comunicação da penalidade, me vi compelido a contar toda a verdade a Madalena (ela também adorou a quadrinha, que eu tinha na ponta da língua) e a lhe pedir que me desculpasse pelas mentiras que lhe pregara. Ela admoestou-me por lhe ter mentido e por ter esmurrado o colega, mas abriu um grande sorriso e disse:

– Júnior, tenho tentado ser sua mãe, agora parece que vou ter que ser também seu pai. Precisamos ter uma conversa de homem para homem. Você já tem pentelhos?

Tomei um susto e respondi ruborizado:

– Tenho.

– E pedra nos peitos?

– Tenho.

– Então o meu menino está ficando homem. Converse sobre isso com seus amigos mais velhos que eu de meninos não sei muita coisa, mas não fique envergonhado por estar apaixonado e quando sentir necessidade de experimentar uma mulher me fale, qualquer uma das minhas freguesas da zona ficará alegre em ser sua professora. Mas isso você não conte a ninguém. Promete?

– Prometo Madá.

Eram recorrentes entre os meus amigos mais velhos, Vicente "reco-reco" entre eles, as "conversas de rapazes". Nessas ocasiões eu e Guga, os mais novos da turma, afastávamos desinteressados. O sexo ainda não se tornara, sequer, uma curiosidade para mim. Em uma das poucas vezes que não ignorei o assunto, os "rapazes" promoverem um concurso de punheta onde o vencedor seria aquele que esporrasse mais longe. Não participei, mas, mais tarde, no banho, me esforcei inutilmente até doer-me o braço e assar o "pinto".

Cumprida a semana de suspensão não foi sem sobressaltos que voltei ao colégio: passara a pensar que os colegas não esqueceriam em tão pouco tempo a quadrinha e, pior, temia que Bárbara me antipatizasse, pois, decerto, constrangera-se magoada por caçoada que provavelmente sofrera por minha culpa. Decidi-me, portanto, evitar me encontrar com ela até ter certeza de que o assunto era coisa esquecida, apesar da imensa saudade, da vontade de rever seu sorriso, de ver o brilho do seu olhar. Assim, senti como se tivesse levado um soco no estômago quando a vi se aproximando de mim no segundo intervalo. Pensei em dar as costas, me perder no meio dos colegas, porque percebi que ela me olhava fixamente e que a sua direção era coisa deliberada e não mera coincidência. Mas fiquei paralisado e baixei os olhos, preparado para ouvir uma bronca, quando ela parou a meio metro à minha frente. Então a mais meiga voz que jamais ouvira me perguntou:

– Foi você o menino que escreveu uma poesia pra mim?

– Foi, fui eu. Desculpe-me se lhe causou algum inconveniente — respondi com um fio trêmulo de voz.

– Desculpar? Não precisa pedir desculpas, eu fiquei envaidecida. Você me mostra a poesia? Cada um me declama de uma forma diferente, quero ver como ela é realmente.

Um calor eufórico percorreu-me todo o corpo. Tirei do bolso, as mãos trêmulas, o papel já amarrotado e entreguei a Bárbara. Ela desdobrou, leu e perguntou:

– Posso ficar pra mim?

– Claro, é seu.

– Queria que você assinasse com seu nome. — Disse me devolvendo o poema.

Assinei o nome completo, Geraldo Freitas Alencar Júnior e perguntei, baixinho para que somente ela pudesse me ouvir:

– Você quer namorar comigo?

– Preciso pensar. — Ela respondeu — Acho que, primeiro, devíamos ficar amigos para nos conhecermos melhor e eu nunca tive namorado. — Acrescentou — Nessa altura tocava a sirene conclamando para a terceira aula.

Namorar, naquela época, na idade que tínhamos, significava pouco mais que o direito a ficar de mãos dadas. Significava compartilhar preferencialmente o tempo de lazer um do outro e a possibilidade de alguns beijos e abraços. O desejo sexual ainda não se nos manifestara. Em mim, com certeza, não. Era bem diferente de hoje, mas isso não vem ao caso, nem por acaso.

Nos primeiros dias de namoro conversávamos nos intervalos entre as aulas, e ao meio-dia, de mãos dadas, seguíamos até a porta da sua casa (trajeto no qual éramos seguidos à respeitosa distância por Vicente "reco-reco", que não abdicara da minha companhia na volta para casa) e, eventualmente, visitava-a à tarde na mercearia do pai, onde cumpria um turno de serviço.

Seu Álvaro, o pai, era um indivíduo bonachão e engraçado, baixinho, dono de enorme bigode e de não menor barriga molenga que pendia sobre o cós da calça. Barriga sempre à mostra pela camisa desabotoada. Foi ele quem, notando a constância com que eu ia à mercearia só para conversar com a filha, um dia nos interrompeu dizendo que ali ela estava para despachar no balcão, não pra namorar, que eu poderia ir vê-la em sua casa, das oito as dez da noite. Namorávamos a não mais que um mês quando isso ocorreu e comecei a freqüentar a casa de Bárbara, onde, no pequeno jardim entre o portão e a porta da casa, havia um banco de pedra, desses que se usam nas praças públicas. Era ali que ficávamos até as dez da noite, mas não sem vigilância, pois, além da porta aberta para a sala, onde dona Wanda e seu Álvaro assistiam a programas de televisão, tínhamos que aturar Pedrinho, o irmão caçula de Bárbara, que não concebia lugar melhor para ocultar-se que sob o nosso banco, quando brincava de esconde-esconde com os amigos.

Às nove horas era dona Wanda quem vinha nos interromper trazendo um pequeno lanche, quase sempre "bolinhos de vento" ou "fatias de parida", com suco de caju ou de outro fruto da estação e, invariavelmente, lembrava a Bárbara de entrar as dez e de não esquecer de levar para dentro a travessa e os copos. Dona Wanda andava pela casa dos quarenta anos, tinha a pele de um moreno mais escuro que o de Bárbara, os mesmos olhos verdes da filha, o cabelo escuro e liso, mas já agrisalhando, cortado na altura dos ombros e, como era rechonchuda, aparentava ser mais baixa que Bárbara, mas era dois ou três centímetros mais alta.

O irmão mais velho de Bárbara, Paulo, na época, com dezesseis anos, era um arruaceiro: integrava uma turma cujo estúpido divertimento era arrumar brigas com outras turmas, comprazendo-se em não permitir sossego aos rapazes de outros bairros que por um motivo ou outro freqüentassem ou simplesmente trafegassem na Ribeira, que era, como dizia "nosso território". Apesar disso, e de eu ser da Massaranduba, de outra turma, portanto, Paulo não me hostilizou. Ele era louco pela irmã e mesmo tendo demonstrado algum ciúme do nosso namoro, quando ela mo apresentou, ele me disse que eu estaria sob a sua proteção e que, portanto, teria "trânsito livre na área".

Seu Álvaro tinha uma velha caminhonete e aos domingos costumava levar a família para fazer piquenique na praia de Buraquinho. Após alguns meses de namoro convidou-me, a acompanhá-los no passeio. Avisou-me que sairiam cedo, as sete da manhã. As seis e meia eu já estava na porta de Bárbara levando uma cesta de sanduíches de mortadela que Madalena preparara para eu não ir "de mãos abanando".

Acostumado com as praias interiores da baía de Todos os Santos fiquei maravilhado com o mar oceânico, mar de ondas poderosas; com a praia de areia alvíssima, e com a foz do rio Joanes; e me prometi que um dia seria muito rico e construiria ali uma mansão onde passaria os veraneios com Bárbara. Àquele primeiro, outros piqueniques sucederam-se, nos finais de semana seguintes, até a fatalidade do afogamento de Pedrinho.

No início da tarde, Bárbara e eu conversávamos sob o coqueiral na margem do rio, fazendo planos e promessas para um futuro que nunca viria, quando Paulo, e um amigo que o acompanhara ao piquenique, veio nos perguntar se sabíamos de Pedrinho.

– Não, ele não veio conosco, acho que ficou na praia com Dona Wanda — respondi.

– Ele sumiu. Venham ajudar a procurá-lo, mamãe está aflita porque não o encontra — ele ordenou.

Nós o procuramos na praia, na margem do rio, nas barracas, nos bares, nos restaurantes, mas foi inútil a busca. Às dezoito horas, o sol se pondo, seu Álvaro mandou que Paulo nos trouxesse de volta para Salvador. Ele e dona Wanda ficaram em Buraquinho ainda esperançosos de que o garoto aparecesse, apesar de já estarem considerando as hipóteses de seqüestro ou afogamento. O corpo foi encontrado no dia seguinte. Madalena me acompanhou ao enterro, no mesmo cemitério onde está a campa de papai, foi a primeira vez que entrei em um cemitério e só então fiquei sabendo o exato local onde papai fora sepultado. Eu me afeiçoara ao pirralho e a sua morte me entristeceu como se fora a de um irmão.

Nosso namoro durou pouco mais que cinco anos. O rompimento aconteceu quando Bárbara foi passar umas férias de junho na fazenda de um tio. Na volta me disse que havia se apaixonado por um amigo do primo, falou que não me amava mais, que queria ter-me somente como amigo. Gelei, foi impossível conter as lágrimas, mas não fiz cena. Sem dizer qualquer palavra, dei-lhe as costas e fui caminhar na praia da Ribeira até me acalmar. Neguei-lhe a minha amizade. Cheguei tarde em casa naquela noite.

 

 

 

 

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Contrariando Madalena, que me aconselhara freqüentar um curso preparatório, instituição que surgira arrebanhando uma clientela necessitada de compensar a queda de qualidade no ensino público de segundo grau, eu obtive êxito, no final de 1968, no vestibular para o curso de direito da Universidade Federal da Bahia.

Decidira-me pela advocacia ainda no curso ginasial, influenciado por Bárbara; ela dizia que, sempre tendo uma desculpa para tudo, outra não seria a minha profissão. Estava convicto, porém, que, após a colação de grau, mandaria emoldurar o diploma para pendurar na parede junto ao retrato de papai, e que dai em diante me dedicaria, exclusivamente, ao comércio; para o qual me sentia mais vocacionado e onde, acreditava, poderia enriquecer mais rapidamente.

Cogitei, algumas vezes, em requerer transferência para outro curso, se fosse possível, ou, na impossibilidade, em prestar novo exame vestibular; sobretudo no transcorrer do primeiro ano. Eu estava decepcionado. O curso, a escola, os colegas, os professores, tudo frustava minhas expectativas; desmedidas talvez.

Contribuía para o meu desânimo o clima de efervescência política da época, as greves, as passeatas, as palavras de ordem, as intermináveis discussões da miríade de facções em que se dividia o movimento estudantil. Foi em 1969, durante o meu primeiro ano universitário, que houve o golpe dentro do golpe militar, pois, com a doença do general presidente Costa e Silva, que prometia a promulgação de uma constituição mais liberal, o governo não foi entregue ao vice-presidente, um civil, sendo exercido primeiro por uma junta militar e depois entregue ao general Médici.

Irritava-me ver que os colegas mais agitados, os que mais clamavam contra um suposto plano de privatização das universidades públicas, eram, preponderantemente, os da classe média. Os mais pobres, os que precisavam trabalhar, e não eram muitos os que conseguiam conciliar os horários da faculdade com o do trabalho, não queriam greve, queriam aulas, queriam concluir o curso o mais cedo possível.

Aceitei as ponderações de Madalena e continuei o curso. Ela estava certa, não teria sido diferente em qualquer outro que eu escolhesse. E abandonar o sonho do diploma era coisa fora de propósito.

Por mais que empenhemo-nos em planejar cada passo, avaliando cuidadosamente o efeito das escolhas que fazemos, a nossa existência sempre estará à mercê do imponderável. Essa é uma constatação que faço sem amargura, pois, apesar dos malefícios sofridos por conta do intangível é forçoso reconhecer que, muitas vezes, o imprevisível concorreu favoravelmente na minha vida. Não foi assim com a molequeira de Heitor, resultando no meu namoro com Bárbara? Pior que os desvios de rota que sofremos por conta das fatalidades são aqueles que decorrem das decisões erradas que tomamos. Agora penso assim, mas a vida não tem volta e o arrependimento não remedia nada.

Por uma dessas trapaças da sorte foi que não pude pendurar o diploma ao lado da fotografia de papai. Aos vinte e quatro anos, recém formado, eu estava vendendo a rede de bancas, que já eram doze nesta altura, para comprar uma loja de ferragens na rua Barão de Cotegipe, cujo dono, um espanhol, colocara-a a venda por uma ninharia, pois, sentindo-se próximo da morte e sem familiares no Brasil, almejava viver seus últimos dias na terra natal. Foi então que Madalena adoeceu.

Se for verdade que Deus concede um anjo para cada criatura, outro não foi o meu. Se não, como explicar que ela tenha se dedicado a mim, desde a morte de papai, sem uma lamúria e de tudo abdicando? Viúva, Madalena vestiu luto fechado por um ano. Ninguém a censuraria se, após esse período, aceitasse a corte que lhe fez seu Manuel, o português da padaria, ou a do Cabo Libório, o mulato sorridente, filho de seu Bonifácio; mas ela dispensou esses e outros inúmeros pretendentes.

Eu já completara quinze anos, voltara excitadíssimo da casa de Bárbara, que houvera, enfim, permitido que lhe beijasse os seios, quando cobrei:

– Lembra Madá — era assim que a tratava — quando você disse que me arranjaria mulher quando eu precisasse?

– Você ainda tá donzelo? Não acredito.

– Ainda Madá. Você lembra?

– Lembro sim Júnior. Amanhã resolvemos isso.

No dia seguinte ela me disse:

– Júnior, passei o dia todo pensando a qual das meninas pedir para passar uma noite aqui com você e acho que nenhuma poderia lhe servir tão bem como eu mesma. Não temos o mesmo sangue, você acha que é pecado? Se você me quiser podemos dormir juntos. Só peço que você nunca conte isso a ninguém.

Agora já não há por que fazer segredo.

Madalena, aos vinte e oito anos quando isso aconteceu, era uma bela mulher: quadris largos; cintura fina; bunda arrebitada; seios volumosos, mas não exageradamente grandes; olhos e cabelos negros; os traços do rosto e a cor da pele denotando uma remota origem indígena. Era, sintetizando, um perfeito exemplar do caldeamento que resultou na raça brasileira. Nunca antes a desejara. Mesmo nas ocasiões em que a surpreendera nua, não reparara na sua beleza, não a vira como fêmea.

Imersos na escuridão do quarto que fora dela e de papai, já nus na cama do casal, perguntei:

– Você se zanga se eu lhe chamar de Bárbara?

– Pode me chamar como você quiser Júnior — respondeu. E, enquanto deslizava uma mão até o meu sexo, com a outra conduzia delicadamente a minha boca aos seus seios. A primeira noite de um rapaz mereceria um relato mais minucioso, com detalhes das preliminares e das complementares, mas serei obrigado a decepcionar os que anseiam por narrações picantes, porque, neste assunto, sou, vantajosamente, mais versado na ação que na descrição.

Fizemo-nos amantes. Dias depois daquela nossa primeira noite foi que me relatou os tristes episódios da sua infância Não creio que ela tenha sentido, em nenhum momento, que traíamos a memória de papai, coisa que senti, mas que ocultei. Ocultei porque temia magoá-la e temia, principalmente, que ela não mais me recebesse na cama onde, possuindo-a, era em Bárbara que eu pensava, era Bárbara quem eu possuía. Disso ela sabia, mas não sentia ciúmes. Sexo, para Madalena, era uma necessidade física, como a sede ou a fome. Necessidade da qual privara-se desde a morte de papai, talvez temerosa da minha reação. Só deixei de procurá-la sexualmente quando comecei a namorar Lídia. Ela aceitou sem lamúrias a nova privação.

 

 

 

 

- 5 -

 

 

Ajustado com o espanhol o preço da loja de ferragens, oito bancas já vendidas, as outras anunciadas; foi quando recebemos o diagnóstico da inesperada doença de Madalena: "aneurisma arteriovenoso cerebral, a cirurgia é indicada apesar de delicadíssima. Se vocês tiverem meios, recomendo que seja feita em São Paulo, onde são maiores as possibilidades de sucesso", dissera o médico.

Madalena protestou:

– Não Júnior. Prefiro ser operada no Hospital das Clínicas. Se eu morrer é porque Deus quer, se Ele quiser tanto faz aqui como em São Paulo. Se não quiser tanto faz também. Não carece gastar uma fortuna comigo, principalmente agora com você e Lídia fazendo o enxoval do casamento.

Gastei, com passagens aéreas, hotel, hospital, cirurgião, anestesista, enfermeiros e sei lá mais o quê, quase todo o montante apurado com a venda das bancas, mas foi em vão: Deus queria Madalena e roubou-ma na sala de cirurgia do melhor e mais bem aparelhado hospital do país, das mãos do mais afamado neurocirurgião do Brasil, mudando, mais uma vez, o rumo da minha vida. Mais uma vez a morte interpunha-se no meu caminho, mudando radicalmente o meu projeto de vida. Mas não me arrependi na época, nem lamento agora, tudo o que gastei para tentar salvar Madalena. Este episódio está entre os poucos atos de grandeza que tive, orgulho-me dele. Fiz o que achava certo. Mais teria feito se pudesse. Era impagável a minha dívida com ela.

Extinto o provento do instituto, com dinheiro suficiente apenas para manter-me por muito pouco tempo, e sem ânimo para recomeçar no comércio em condições tão adversas, fui aceito no quadro efetivo do setor jurídico de um estabelecimento de crédito no qual estagiara. O casamento planejado foi adiado até ocasião mais propícia.

Vêm que lhes avisei, mais uma vez foi-me impossível manter o compromisso da linearidade, mas, absolve-me, espero que sim aos seus olhos, meu caro leitor, minha prezada leitora, ter lembrado de avisar-lhes que, mais uma vez, será preciso voltar o calendário.

Depois que Bárbara rompeu o nosso namoro tive alguns relacionamentos fugazes com outras moças, nenhum deles digno de menção, até conhecer Lídia em uma festa na casa de Alice, a namorada de Guga.

Na festa estávamos combinando reunirmo-nos no dia seguinte para assistir ao jogo entre Brasil e Itália, (a peleja final da copa de 70, que é escusado dizer, sagrou a nossa pátria como tricampeã mundial de futebol) e, não obstante me sentir atraído por sua beleza, antipatizei com Lídia porque ela declarou que éramos alienados e idiotas preocupando-nos com futebol quando o país estava sofrendo um período de obscurantismo e que a vitória do Brasil seria o "ópio do povo". Assistir ao jogo, ela acresceu, "só se for pra torcer contra. Quem sabe assim o povo tome consciência do que está acontecendo".

Não quero me justificar, nem posso alegar completa ignorância de tudo o que acontecia. Apesar da férrea censura daqueles anos, eu sabia, por exemplo, do exílio de Caetano Veloso e de Gilberto Gil, artistas que admiro desde quando os conheci assistindo aos festivais de música popular, promovidos pela TV Record e que eram transmitidos em Salvador pela TV Itapuã. Eu sabia também, por informação de tia Gesilda, que Anísio fora preso e torturado, perdera o emprego na Rede Ferroviária e tinha ficado tantã, motivo pelo qual ela rompera o noivado. Mas a realidade que eu conhecia e os anseios que me afligiam, não eram os da classe média. Fora criado na pobreza, mas estava conseguindo progredir fazendo crescer minha rede de bancas de revistas e podia observar que o país também crescia. Não gostava de política, mas pensava que entre a liberdade na pobreza e a ditadura com prosperidade, a segunda opção era muito melhor. Pior ainda seria ter uma ditadura comunista, sem liberdade e sem a possibilidade de ascender socialmente, coisa que, a despeito de tudo, eu estava conseguindo.

Pouco tempo depois daquela festa na casa de Alice, Guga me pediu que o levasse para encontrar a namorada na praia de Piatã. Ele não tinha carro e eu comprara o meu primeiro, um Gordine usado, mas quase novo, de um tom marrom que Guga dizia ser da "cor de burro quando foge". Eu não tinha nada para fazer naquela manhã de domingo e praia é sempre um bom programa. Em Piatã, com Alice, estava Lídia. Elas estavam conversando sobre o movimento hippie quando chegamos; assunto que retomaram após saudarmo-nos. Lídia discorria com entusiasmo sobre o livro "Eros e Civilização" de Herbert Marcuse, que acabara de ler, onde ela dizia ter encontrado argumentos que a fizeram compreender que aqueles jovens não eram simplesmente "um bando de drogados", como ela antes acreditava que fossem.

– Eles não são alienados. São revolucionários armados de flores e não de fuzis, armados pelo slogan da paz e do amor. Contestam a sociedade de consumo e os arcaísmos dessa nossa civilização carcomida que nos nega o princípio do prazer e nos submete a uma competição desumana, pois condiciona-nos a julgarmo-nos pelo que possuímos e não pelo que somos. Os hippies são os filhos de Eros. Eles pregam a mudança na própria espécie humana e não uma mera alternância de sistema político, que não é capaz de acabar, por si só, com o individualismo, com as guerras, com o desamor. São acusados de maconheiros, mas aqueles que os acusam vivem também drogados, de álcool, de calmantes, de cobiça, de ódio... — Ela discursava com paixão, marcando cada palavra com movimentos dos braços e das mãos, como se regesse uma orquestra invisível, da qual o único instrumento que eu ouvia era a sua voz aveludada.

Aquele era um assunto que nunca merecera o meu interesse. Eu conhecia maconheiros lá na rua desde a infância, maconheiros de todas as idades, maconheiros que eram boa gente e outros que não valiam nada, maconheiros que trabalhavam duro de sol a sol e maconheiros vagabundos cuja única ocupação era azarar as moças com conversa mole; consequentemente, as reservas que eu tinha contra o uso de maconha eram as mesmas que tinha contra o abuso do álcool. Os hippies eu os classificava entre os maconheiros vagabundos. Mas, percebendo que ela estava mais bem preparada sobre o assunto do que eu, preferi não externar a minha opinião. O importante foi que, estando ela certa ou errada, me encantei por sua inteligência e pela paixão com que defendia o seu ponto de vista.

Encantado, é essa a palavra exata para explicar como fiquei naquele dia. Além de inteligente, Lídia é, com o perdão da rude e desgastada metáfora, "um avião". Loura natural, quase um metro e oitenta de altura, olhos azuis do mais belo azul que a natureza criou, corpo escultural... Se eu tivesse pelo menos um pouco de modéstia poderia dizer que ela era "muita areia para o meu caminhãozinho"; mas como nele cabe tudo o que me fascina, isso nem me passou pela cabeça. Voltei à realidade quando ela me perguntou:

– Qual é a sua opinião?

– Desculpe-me, eu não estava prestando atenção na conversa de vocês. — Menti.

– Ah! Então lhe dou um doce pelos seus pensamentos. — Ela duvidou.

– Dê-me um beijo e serão seus. — Mesmo eu surpreendi-me com o que dissera. Alice e Guga olharam-se e sorriram. Ela olhou para Guga, também sorrindo e disse:

– É rápido no gatilho o seu amigo Guga. — E depois me olhando, completou — Eu pago a prenda. — Levantou-se e me beijou na testa apoiando as mãos nos meus ombros.

Quando se inclinou para me beijar, os seios rijos e bem proporcionados, mal contidos no minúsculo sutiã do biquíni, ofereceram-se aos meus gulosos olhos. A pele levemente bronzeada, os pêlos dourados finíssimos dos braços e das pernas brilhando ao sol, o talhe perfeito do corpo, o umbigo profundo... Tudo aquilo me excitou provocando uma ereção, que, felizmente, como eu estava sentado, passou desapercebida a ela e aos amigos. Respondi:

– Eu estava pensando em como é possível que duas pessoas possam ter opiniões diferentes sobre um mesmo assunto, opiniões às vezes diametralmente opostas e, no entanto, que ambas estejam corretas, cada uma examinando o assunto à luz da sua vivência. — Eu estava mesmo pensando isto, pensando que tanto a opinião que ela externara, quanto a que eu ocultara, eram opostas, mas que eram como faces de uma mesma moeda. Em uma face, a que ela via, a utopia; na outra, a que eu intuía, a crua realidade.

– Então isso quer dizer que você estava prestando atenção, no que falávamos, sim; mas que pensa diferente e não quer dividir conosco a sua opinião. Não é? — Seus olhos faiscavam um brilho azul de um azul mais intenso que o do céu claro daquela manhã de verão tropical.

– Não, não é. Eu não estava mesmo atento à conversa de vocês, estava pensando nisso por conta de uma aula que tive na quinta-feira. — Como vêm, a mentira aflora-me sem dificuldades e eu já engendrava uma outra para o caso dela me perguntar qual fora o assunto da tal aula. Mas o que ela me perguntou foi:

– Você cursa o quê? Filosofia?

– Não. Direito. E você? — Perguntei.

Felizmente a conversa mudou de rumo. Eu não estava com nenhuma disposição para debater um assunto sobre o qual não estava bem informado. É da minha índole não polemizar se eu não estiver em condições de argumentar à altura do meu contendor. Pode ser um defeito, mas não gosto de ser vencido. Nas poucas vezes que me deixei enredar em situações assim, quase sempre levado pela emoção, o saldo foi me sentir inferiorizado, com o ego esfarrapado, ridículo.

Uns dois meses depois daquele dia, quando já estávamos saindo juntos, Lídia me pediu que a levasse para ver os hippies em Arembepe, uma praia belíssima do município de Camaçari, situada ao norte de Salvador, onde centenas deles, vindos de todos os quadrantes, mas, preponderantemente do Rio de Janeiro e de São Paulo, esperavam encontrar o nirvana. Lá o que notei foi que, também entre aqueles jovens desnorteados, existia a tal diferença de classes que Lídia supunha abolida entre eles, por mútua aceitação e não por ação violenta: havia os hippies ricos, com batas indianas e outros trajes extravagantes "de butique", com cabelos compridos e desgrenhados, mas cheirando a xampu e adornados por flores de floricultura; residindo em confortáveis casas de veraneio ou no pequeno, mas asseado, hotel da cidadezinha. Enquanto isso os hippies pobres, quase todos muito sujos, vestidos de andrajos, moravam nas choupanas miseráveis de uma aldeia de pescadores, situadas às margens de um riacho de águas mansas, separado do mar por um coqueiral sobre as dunas de alva e fina areia. O cenário era um paraíso, ou assim me pareceu naquele dia de céu azul e sol dourado; mas os personagens me pareceram mais adequados para fazer figuração eu uma cena do inferno.

Em comum, entre eles, somente pude perceber a sofreguidão pelas drogas e pelo sexo promíscuo. Os ricos, com certeza, estavam vivendo em Arembepe às custas das mesadas que os pais depositavam em suas contas bancárias, decerto preferindo mantê-los distantes de si que arrastando pulseirinhas e falando sandices nos seus convescotes. Os pobres, estes pediam esmolas aos turistas, faziam artesanatos, em geral mal acabados, e prestavam serviços aos hippies ricos. Nada diferente da sociedade que contestavam. Se é que contestavam alguma coisa mesmo.

Mas, voltando àquele dia do meu encantamento por Lídia, ficamos na praia de Piatã, mais precisamente em uma barraca da praia, tomando cervejas e comendo caranguejos, até quase escurecer. Foi um dia agradabilíssimo e nem me dei conta de que estava bebendo demais. Na volta Guga resolveu que iria para a casa da namorada. Alice estava com o carro do pai, não precisavam da minha carona. Para que eu não voltasse sozinho todo o percurso e vendo que eu havia bebido além do recomendável para quem vai dirigir, Lídia, que tinha ido com Alice, se ofereceu para guiar até a Pituba, bairro onde residia. Lá eu a deixaria.

Quando chegamos na porta da sua casa, ela me convidou para entrar e tomar um café. Estava preocupada comigo e disse que não me permitiria conduzir o carro naquele estado. Eu estava tão alto que dormi todo o percurso da praia até lá. Lídia morava em uma mansão de dois pavimentos, na rua Manoel Dias da Silva. O pai, seu Oswaldo, morava em Ilhéus, onde administrava uma firma de exportação de cacau, e visitava a família um final de semana em cada mês.

Dona Vera, a mãe de Lídia, ela e os dois irmãos, Antônio e Roberto, haviam se mudado de Ilhéus para Salvador, no ano anterior, juntando-se à irmã, dois anos mais velha, Lúcia, que cursava o segundo ano de Engenharia Civil e que já morava, aqui na capital, na casa de parentes.

Lídia estava com dezenove anos e preparava-se para prestar vestibular estando, àquela altura, ainda hesitante entre os cursos de filosofia e história. Houvera rompido um namoro de três anos, pois o rapaz, na iminência da sua mudança para Salvador, queria forçar um casamento ao qual ela não estava disposta.

– Agora quero dar um tempo. Foram três anos de asfixia. É tempo de curtir. — Disse-me quando conversávamos enquanto eu me restabelecia da bebedeira.

Vivíamos uma época de liberação dos costumes, de afrouxamento dos anátemas sociais, sobretudos os relacionados ao sexo. As moças, ou pelo menos uma parcela importante delas, parcela onde Lídia inseria-se, não aceitavam mais a submissão ao dogma da virgindade; pregavam o mesmo direito ao prazer que nunca fora negado aos rapazes.

– Por que as mulheres têm que se manter virgens e inexperientes até o casamento enquanto aos homens tudo é permitido? — Ela questionava.

Eu era e ainda sou, não tenho vergonha em reconhecer, o protótipo do "careta", como se dizia na época; mas aquela era uma situação da qual poderia me aproveitar, já que, na verdade, eu ainda não estava emocionalmente envolvido, achava que não estava apaixonado por Lídia. Estava encantado, apaixonado não. Ela não fazia parte dos meus projetos de futuro. Só por isso concordei com ela:

– Isso é uma bobagem, mas o mundo está mudando, muitos homens já não pensam assim, já não se importam se a noiva é virgem ou não. Quem ama de verdade não leva isso em consideração. — Como eu estava bêbedo não devo ter me expressado com tanta clareza, mas foi mais ou menos isso o que insinceramente falei.

Dona Lúcia, que estava nos ouvindo, interferiu:

– Pode até ser. — Depois se dirigindo a Lúcia disse — Mas é melhor que você não confie muito nisso, porque nem todos são liberais como esse seu amigo.

Isso me deixou na dúvida sem saber se Lídia era virgem ou não. Inclinava-me a achar que não, porque se fosse ela seria do tipo de gente pensa de um jeito e faz de outro.

Acreditando que eu ainda não reunia condições para dirigir, ela, com a concordância da mãe, não precisou insistir muito para que eu aceitasse dormir em sua casa.

– E se não for incômodo, você me dá uma carona amanhã até o cursinho, na Barra. Preciso estar lá às oito horas.

– Por que dar trabalho ao rapaz minha filha? Lúcia lhe leva.

– Não é trabalho nenhum Dona Vera, é caminho pra mim, e mesmo que não fosse. Será um prazer.

Fui alojado no quarto de hóspedes, situado sobre as garagens, em um prédio independente, separado da casa por uma grande área onde ficava a piscina. Fantasiei que Lídia viria visitar-me quando todos dormissem. Não veio ou, se veio, me encontrou dormindo. Nunca lhe perguntei e é coisa que nunca saberei.

Acordei por volta das sete horas e da janela do quarto vi que Lídia, Lúcia, Dona Vera e um dos irmãos, que depois fiquei sabendo ser Antônio, tomavam o desjejum em uma mesa que havia no deck da piscina. Tomei uma ducha e, conforme fora informado, encontrei, no armário do banheiro do quarto de hospedes, escovas dentais novas e dentifrício. Quando desci, uns quinze minutos depois, Lídia estava sozinha no deck:

– Ah! Vejo que o meu hóspede é pontual. Você quer que mande preparar alguma coisa? Ovos? Como você prefere?

– Não precisa se incomodar.

– Não é incômodo e temos tempo ainda.

– Mas não precisa mesmo, de manhã não tenho fome, sou habituado a tomar somente uma xícara de café preto.

– É um mau hábito, sabia? — sentenciou enquanto me servia de café puro.

– Com açúcar ou adoçante?

– Açúcar, por favor.

Durante o percurso até a Barra convidei-a para sair à noite. Perguntei se não gostaria de conhecer o "meu território". Ela concordou:

– Desde que você me prometa não beber tanto quanto ontem, ou terei que leva-lo para minha casa de novo. Não que isso seja um problema, mas é para evitar que mamãe comece a trata-lo como genro.

– Prometo e peço desculpa por ontem. Não pense que vivo me embriagando, ontem passei do meu limite, talvez devido ao calor.

Quando cheguei em casa Madalena notou uma expressão diferente em mim. Contei-lhe o que acontecera na véspera e o motivo pelo qual não tinha vindo dormir em casa.

– Eu fiquei preocupada, fui na casa de Guga e ele me disse que o tinha deixado em boas mãos. Pelo visto deixou mesmo, você está radiante. Até que enfim se apaixonou de novo.

– Não tem paixão nenhuma Madá.

– Ah! Júnior, você não me engana, só lhe vi com essa cara antes no começo do seu namoro com Bárbara.

– Bobagem Madá, é só passatempo, não estou apaixonado.

– Está sim. Você é que não sabe ainda.

– Se estiver vou desficar, eu acho que ela não é virgem.

– Besteira Júnior, eu também não era e seu pai casou comigo.

– Você é diferente Madá.

– Diferente por quê?

– Por nada. Deixe pra lá.

Àquela noite levei Lídia para conhecer meus recantos favoritos. Apesar de ser uma segunda-feira, quando é difícil encontrar boas opções para ir à noite, jantamos uma fenomenal moqueca de camarões, em um barzinho na Pedra Furada e, depois, a levei para conhecer a igrejinha de Nossa Senhora de Mont Serrat, na Ponta de Humaitá. Foi lá, tendo como cenário o mar enluarado, que trocamos o nosso primeiro beijo. Lá nos casaríamos anos depois, mas, então, eu não sabia.

 

 

 

 

- 6 -

 

 

Apesar de deseja-la ardentemente e supor que não fosse mais virgem, talvez por um inconsciente moralismo, do qual ignoro as raízes, ou mesmo por timidez, nem sequer insinuei, naquela noite, um convite para que fizéssemos sexo, o máximo a que chegamos foram os beijos e abraços trocados, primeiro no Mont Serrat, depois no carro, na porta da sua casa. Pretendi que nos encontrássemos na noite seguinte, mas ela, pretextando a necessidade de estudar para o vestibular, me disse que não, que só poderia sair à noite na sexta-feira, se eu quisesse. Eu queria. Eu a queria.

Foram dias de inquietação aqueles de espera. Cogitei mandar-lhe flores, mas desisti porque temi assusta-la. Ela não tinha dito que não queria compromisso? Que queria "curtir"? Comprei o "Eros e Civilização" na quarta-feira com a ilusão de que seria capaz de apreende-lo até a sexta-feira. Assim, se o assunto voltasse à baila, eu estaria em condições de não tangenciar. Ledo engano. A ansiedade era tanta que não conseguia fixar-me na leitura, que por si só não era nada fácil, com muitas referências a seres mitológicos que eu não conhecia; citações de Freud, Hegel, Nietzsche; palavras que eu nunca vira ou ouvira, como ontogênese, filogênese; e teorias fundadas nos instintos e comportamentos de ancestrais da espécie humana.

Quando cheguei na casa de Lídia na sexta-feira, ela pediu que eu guardasse o carro na sua garagem; percorreríamos, a pé, o "território" dela, e me disse que eu estava liberado para beber o quanto quisesse: poderia dormir em sua casa e iríamos à praia na manhã do dia seguinte.

A Pituba de então era bem diferente da de hoje. Começara a crescer e ainda predominavam casas onde hoje estão prédios de apartamentos. Passamos por alguns barzinhos, entre os quais me recordo da "Cabana do Pedro", situado na esquina da Manoel Dias da Silva com a rua Bahia; fomos dançar um pouco na Boate Pituba e depois encontramos conhecidos dela, tocando violão e cantando Bossa Nova na Praça Nossa Senhora da Luz. A esse grupo nos reunimos até a hora que voltamos para a sua casa. Resolvi que era o momento certo e pedi que me visitasse no quarto de hospedes. Ela concordou dizendo que aquilo já estava nos seus planos.

Como eu supunha, Lídia não era mais virgem. Penetrei-a sem nenhuma dificuldade. Eu perguntei se fazia sexo há muito tempo e ela me respondeu que desde os dezessete anos, com o antigo namorado.

– Você foi o segundo homem da minha vida. — Ela disse.

A confirmação da minha suspeita me incomodou, porque no íntimo eu desejava ser o primeiro, o único, talvez. Mas, como eu estava decidido a interpretar o papel de um jovem liberal, personagem que não consegui encarnar por muito tempo, como logo se verá, descarreguei a frustração possuindo-a outra vez, como se exorcizando-a.

Foi uma noite maravilhosa. Lídia não era, nem é, um furacão na cama, mas também não era uma "não-me-toques" e não se negou às variações sexuais que lhe propus. Variações que Madalena me ensinara e que os leitores libidinosos vão continuar sem saber quais são.

É interessante que agora, rememorando o passado, eu me recorde de pequenos e insignificantes detalhes que o tempo deveria ter apagado. Entre eles, me lembro agora, Lídia levara para o quarto de hóspedes alguns discos, entre os quais um de Janis Joplin, cantora pop norte americana, da qual eu já ouvira falar, mas que não conhecia. O toca-disco estava defeituoso, ocasionando que, quando acabava a última faixa, o disco recomeçava em vez de parar. Ocupados e inebriados com a mútua descoberta dos nossos corpos, não nos dispusemos a mudar o lado do long-play ou a trocá-lo por outro. Ouvimos, repetidas vezes, as mesmas músicas, durante toda a madrugada.

Antes de o sol raiar ela voltou para o seu quarto. Ela já me avisara que dona Vera não podia saber que ela não era mais virgem, mas que tomava pílulas para dormir e que dificilmente seríamos surpreendidos, desde que ela voltasse ao seu quarto antes da alvorada. No sábado fomos à praia e ela me confessou que armara com Alice e Guga aquele encontro em Piatã, pois se sentira atraída por mim desde a festa da casa de Alice.

– Mas nós nem conversamos naquela festa! — Eu disse.

– Não, não conversamos, mas percebi que você não ficou com uma boa impressão de mim.

– Não podia ficar! Onde já se viu torcer contra o próprio país?

– Mas eu não torço contra o Brasil, torço a favor. E porque torço a favor é que acho que teria sido melhor ter perdido a copa. Futebol é um jogo, o país não vai ficar melhor se ganhamos ou perdemos um jogo de futebol ou de qualquer outro esporte.

– Eu acho melhor não discutirmos política. Eu venho de baixo e sei que hoje as coisas estão melhores do que foram no passado.

– Melhores? Com tanta gente sendo presa, torturada, morta, exilada? Como podem estar melhores?

– Você nunca passou fome, eu já. E, no entanto, hoje sou um pequeno comerciante. Se as coisas continuarem como estão em breve serei um grande comerciante.

– Isso nada tem a ver com a situação política. Isso é fruto do seu esforço, do seu trabalho e não da ditadura. Ainda existe muita miséria. Cada dia os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres, essa é a realidade que não pode ser dita sob pena de seqüestro, prisão, tortura, morte.

– É melhor mudarmos de assunto. Eu queria que você me dissesse o que viu em mim para tramar aquele encontro.

– Ah! Não é fácil explicar o que faz uma pessoa se sentir atraída por outra. Talvez seja coisa dos feromônios.

– E o que são feromônios?

– São odores que secretamos e através dos quais os indivíduos percebem, inconscientemente, qual é o parceiro mais apropriado para a preservação da espécie.

– Você está inventando isso.

– É sério.

– Mas não foi você quem disse que não está querendo compromisso? Que só quer curtir? Agora já está pensando em filhos?

– Não estou pensando. Eu disse a você que isso é uma coisa inconsciente. Você queria saber o que vi em você e estou lhe dando uma razão cientifica, na falta de outra melhor. Nada mais que isso. — Ela começava a se irritar.

– Não precisa ficar zangada. — Disse e beijei-a.

Madalena estava certa, eu estava apaixonado, mas decidi não aprofundar aquele relacionamento, decidi que continuaria a vê-la, mas que não a alçaria à condição de namorada, posto reservado para uma jovem virgem com a qual, mais tarde, pudesse casar e ter filhos.

Aqui é imperioso revelar uma outra faceta do meu caráter, um outro grave defeito, para explicar aquela decisão: o meu ciúme exacerbado. Ciúme que às vezes me leva a protagonizar cenas ridículas. Como aquela, certo dia, quando já namorávamos oficialmente e combinamos que a pegaria em casa para irmos à Festa da Pituba, ocasião em que, dezenas de barracas, com toldos de lona, eram armadas, na rua Manuel Dias da Silva, no trecho da praça Nossa Senhora da Luz. Atrasei-me e quando cheguei em sua casa me informaram que ela resolvera ir acompanhada de Lúcia e do namorado desta, e que me esperaria, na barraca onde costumávamos ficar. Quando cheguei, à mesa, além da irmã e do namorado, estava um amigo deste em animada conversa com Lídia. Possesso, dei um encontrão proposital na mesa derrubando o rapaz e, sobre ele, os copos e garrafas de cerveja. Enquanto o acudiam, eu arrastei Lídia pelo braço até a sua casa. Brigamos, ficamos alguns dias sem nos ver, mas ela foi sensível aos meus pedidos de perdão e às carradas de flores que lhe mandei nos dias subseqüentes. .

Nos meses seguintes àquele nosso primeiro encontro íntimo no quarto de hóspedes, fomos inseparáveis nas noites das sextas e sábados, além da praia que freqüentávamos, quase sempre acompanhados também de Guga e Alice, nos sábados e domingos. Em todo esse tempo assaltavam-me sentimentos conflitantes travando uma luta íntima e angustiante. De um lado pelejava o meu ciúme doentio; do outro, uma paixão avassaladora. Paixão que não arrefecia mesmo quando as nossas opiniões conflitavam, o que era comum acontecer, sobretudo quando o assunto era a política. Lídia condenando veementemente a ditadura militar, eu satisfeito com o sistema que propiciara o chamado "milagre brasileiro".

Ela resolvera cursar psicologia, não filosofia ou história como cogitara. No dia em que comemorávamos seu sucesso no vestibular eu perguntei se não queria namorar comigo.

– Mas amor, nós já somos namorados. — Foi como me respondeu.

– O que quero dizer é que, a partir de agora, devemos ser somente um do outro.

– Por acaso você tem outra? Eu não tenho, você é o meu único homem, desde que nos conhecemos. Você é quem vive vendo pêlo em ovo com seu ciúme doido.

– Eu também não tenho outra. — Menti. Até aquele dia havia Madalena, apesar de que quase não a procurara mais, depois que começara a sair com Lídia.

– Então do quê você está falando?

– É que eu não tinha pedido antes pra lhe namorar.

– E precisa pedir Gê? Você até parece criança.

Calou-me com um beijo.

Acho que seu Oswaldo não gostou de mim quando fomos apresentados. Em uma das ocasiões em que visitou a família, logo quando começamos a sair, eu fui busca-la em casa e ela me pediu que entrasse, queria que eu conhecesse seu pai. Sem nenhuma cerimônia ele me crivou com uma saraivada de perguntas:

– O que você faz, rapaz? De onde é a sua família? O que você quer com a minha filha?

Lídia tentou inutilmente refrear o ímpeto do pai.

– Papai, o Geraldo...

– Por acaso ele é surdo ou mudo? — censurou-a rudemente — Vamos lá moço, desembuche.

Respondi: meu nome é Geraldo Freitas Alencar Júnior. Sou estudante de direito e comerciante, minha família tem raízes na aristocracia rural açucareira, mas meu avô faliu e não me deixou herança. Minha mãe morreu quando eu tinha três anos, fiquei órfão de pai aos dez e fui criado por minha madrasta. Quanto a Lídia... — titubeei — Ainda estamos nos conhecendo.

– Conheça-a respeitando-a e traga-a de volta antes da meia noite. — Ele disse e balançando o copo de uísque, deu as costas e saiu da sala.

Lídia, os olhos congestionados, quase chorando, me pediu desculpas; disse-me que não imaginava que o pai fosse fazer aquilo, ou ela não o mo teria apresentado. Estava envergonhada.

– Eu o compreendo — contemporizei — se tivesse uma filha bonita como você talvez nem a deixasse sair com um cara que não conhecesse bem.

– Você é um anjo Gê. Vamos, vamos sair que é melhor eu chegar na hora marcada pra não ter confusão, ele deve estar com algum problema. Quando o conhecer melhor você vai ver que papai não é esse bicho do mato.

Ela não mentiu. Seu Oswaldo acabou por se tornar, mais que um sogro, um grande amigo. Foi ele quem, anos depois, usando o prestígio de grande cliente da filial de Ilhéus, conseguiu que eu fosse aceito como estagiário no setor jurídico de um banco. E, quando planejávamos nos casar, e Madalena adoeceu, ofereceu-me empréstimo:

– Depois você me paga como puder. É uma bobagem gastar assim seu capital. Você deve persistir nos seus projetos de comprar a loja de ferragens.

– Não seu Oswaldo, não precisa. Já estou formado, logo consigo um emprego, talvez no próprio banco, e começo tudo de novo.

– Deixe de soberba Geraldo. Estou oferecendo porque posso, não me vai fazer falta. Além do mais vocês estão querendo casar e, se você não aceitar que eu lhe ajude, serei obrigado a lhes pedir que adiem o casamento até que você volte a se estabilizar, no mínimo até que esteja bem empregado.

– Eu não posso aceitar seu Oswaldo. Se for preciso adiar o casamento adiaremos. Lídia e eu já conversamos sobre isso.

– Seja então como você quer, mas saiba que pode contar comigo. Se você concordar compro a loja para Lídia como presente de casamento.

– Por favor, seu Oswaldo, eu agradeço muito que o senhor queira ajudar, mas eu não me sentiria bem. Aceitar seria como se eu estivesse dando o golpe do baú, o senhor entende?

– Entendo sim. Você acaba de acrescentar alguns pontos positivos no bom conceito em que lhe tenho. Lídia escolheu o homem certo, que nunca a decepcionará. Ela é uma ótima menina, tão idealista. Muitos teriam aceitado minha oferta, outros, no seu lugar, não alienariam todo o patrimônio nem para salvar a própria mãe.

Recusar o empréstimo não foi, nem um ato de soberba, nem de dignidade. Estive tentado a aceitar, aquilo poderia vir bem a calhar, mas eu não estava disposto a me tornar refém do meu futuro sogro, nem a macular a imagem de bom moço que construíra laboriosamente. Eu amava Lídia, amo-a ainda, mas, além disso, eu não arriscaria perder a oportunidade de um casamento que prometia me abrir definitivamente as portas de uma sociedade a que eu tanto almejava pertencer. Era possível que seu Oswaldo, um homem vivido e inteligente, estivesse me testando. Eu não paguei pra ver o seu jogo. Atualmente tenho certeza que não se tratava de uma cilada, mas, de qualquer modo, acho que foi melhor assim.

Diferentemente do que acontecera com seu Oswaldo, dona Vera simpatizou comigo desde o dia que me conheceu. Eu lhe parecera um moço ajuizado, aceitando sem protesto o conselho de não dirigir embriagado. Mas acho que a conquistei definitivamente, na noite seguinte àquela, pois, quando fui buscar Lídia para conhecer "o meu território", levei para dona Vera um belo buquê de rosas brancas e um cartão onde me desculpava pela noite anterior. Tenho a firme convicção de que dona Vera advogou em meu favor junto a seu Oswaldo, visto que, já no mês seguinte, quando veio passar o final de semana com a família, ele me dispensou um tratamento cordial.

 

 

 

 

- 7 -

 

 

O trabalho no banco quase sempre me enojava. Sentia-me sujo pugnando contra pequenos empresários submetidos às taxas de juros absurdas, e contra desempregados inadimplentes nos contratos de crédito imobiliário. É certo que havia processos contra empresas que se endividavam além da capacidade de pagamento, enquanto seus proprietários viviam nababescamente, quase sempre formando patrimônio em nome de terceiros, os "laranjas", levando as firmas à bancarrota e saindo da empreitada mais ricos que quando entraram; mas, no universo dos processos que ajuizávamos, esses eram poucos e mínimas as nossas chances de reaver o prejuízo: essa gente é muito esperta e raramente se lhes é possível imputar dolo.

Apesar do mal estar, esforçava-me para atender aos interesses dos meus empregadores e, como resultado do meu trabalho, não foram poucos os que perderam seus imóveis, os lares pelos quais sonharam; e outros, os microempresários endividados no cheque especial e em outros empréstimos a juros sobre juros, com as suas ferramentas de trabalho, levadas a leilão.

Muitas vezes na vida somos obrigados a escolher entre a nossa consciência e a nossa necessidade. Para justificar-me pensava que se não fosse eu, outro faria o serviço sujo. Sempre haverá quem o faça. E, para mim mesmo, eu dizia que banco não é casa de caridade e as condições do empréstimo eram antecipadamente conhecidas pelo tomador. Admiro os que sempre colocam a consciência em primeiro plano, quase sempre pagando caro por essa opção. Quanto a mim, não posso negar que, quase sempre, escolhi agir conforme os meus próprios interesses; mas sempre, por isso, deixando cicatrizes na minha alma. Cicatrizes que não fecham jamais, cicatrizes que sangram. Há pessoas que agindo assim fazem-no com naturalidade, sem que aquilo lhes afete. Não têm consciência. Não é o meu caso: angustiava-me. Angustia-me, ainda. Além do mais, o salário não era grande coisa e era mínima a possibilidade de fazer carreira no banco. Minha recompensa não era suficiente para aplacar o mal-estar que sentia.

Quando pensava nisso gostava de me lembrar de Valdeck, um pernambucano de Garanhuns que foi meu colega na faculdade e que tinha uma filosofia maluca, materialista, mal articulada, mas toda própria, ou pelo menos penso que é, própria e original. Ele dizia, talvez ainda diga, se vivo for e doido ainda, que o defeito da espécie humana é pensar que temos alguma importância no cosmos, quando não temos importância nenhuma, nem coletivamente, nem como indivíduos. Um dia tentou doutrinar-me:

– Vá para uma praia deserta em um dia de lua nova e sem nuvens no céu, uma praia longe de qualquer cidade, onde nenhuma luz possa ofuscar a luminosidade da mais distante estrela. Deite-se na areia e veja brilhando a infinidade de astros que sua limitada visão pode perceber. Essas estrelas serão somente, meu caro, uma parcela infinitesimal das que há no infinito. Você sabe que cada uma estrela daquela é um sol e que, possivelmente, em grande parte deles, orbitando-os, existem planetas. E você ali deitado é o quê?

– Sou um débil mental, um poeta romântico, um corno sofredor, um bêbado, um astrólogo ou um astrônomo.

– Porra nenhuma. Você é um grão de areia. Dada a dimensão do universo, meu amigo, nem isso você é. O nosso próprio planeta é menor que um grão de areia.

– E daí?

– E daí? Que importância tem um grão de areia entre bilhões e bilhões de grãos de areia?

– Nenhuma. A não ser que vire um cisco no meu olho.

– Puta que pariu. Você não está entendendo porra nenhuma.

– Desculpe, to de sacanagem.

– Mas é isso. — Ele se inflamou — Eu, você, ninguém tem importância nenhuma, entendeu? A única importância que temos é que somos o resultado de um espermatozóide que foi mais rápido, mais forte e venceu uma batalha, contra milhões, bilhões, de outros que se foderam no meio do caminho, para fecundar um único óvulo. Venceu uma batalha, entendeu? Não a guerra, porque a guerra da vida ninguém vence. Vencemos batalhas até o dia em que perdemos a primeira, uma só, uma única. E perdendo a primeira, viramos pó e acabamos. Então aquele grão de areia é ainda mais importante do que qualquer ser vivo, porque ele, em qualquer circunstância, sempre será um grão de areia, é imortal. Portanto o que temos que fazer é trepar, beber, aproveitar tudo o que pudermos sem essa de se incomodar se fulano, beltrano, sicrano, ou um grão de areia ou outro está sofrendo, passando fome ou morrendo.

– Mas grãos de areia, não têm sentimentos, não raciocinam, não têm alma...

– Alma? Então você acredita em alma? Acredita mesmo que tem uma alma imortal? — Deu uma sonora gargalhada — Desculpe-me a franqueza Geraldo, você é um idiota.

– Se eu sou um idiota, se sou menos que um grão de areia, se nada nem ninguém no mundo tem importância, por que você está perdendo o seu tempo tentando me convencer das suas sandices? — Coloquei-o em xeque.

– Estou perdendo mesmo, não adianta discutir racionalmente com quem, na falta argumentos, apela para a religião. Boa razão tinha Fernando Pessoa quando escreveu que todos os males do mundo advêm de preocuparmo-nos uns com os outros.

– E se até você, com essa idéia maluca, se preocupa, é porque não somos grãos de areia. — Xeque-mate.

Não conferi na época, nem depois, nem agora, nem conferirei jamais se Fernando Pessoa escreveu isso ou em que contexto escreveu. Nunca levei Valdeck a sério, mas, no íntimo, gostaria de poder pensar como ele, porque a sua "filosofia" justifica qualquer coisa e eu não sofreria pelos meus irredimíveis pecados. Mas, diferente dele, eu creio em Deus e creio que Ele criou o homem à sua imagem e semelhança dando-lhe uma alma imortal. E creio que Ele criou o grão de areia para que pudesse haver praia para o deleite da sua mais perfeita criação, a espécie humana; criou as estrelas para embelezar a noite e criou céticos como Valdeck para nos por à prova.

Lídia, por mais que eu procurasse disfarçar, notou que alguma coisa estava me incomodando.

– Você está muito triste amor. Qual o problema?

– Não é nada não Li.

– Como não é nada. Você pensa que não o conheço? Está com ciúmes de quem agora?

– De ninguém.

– Foi alguma coisa que eu disse?

– Não Li. É assunto de trabalho.

– E desde quando não me interesso por qualquer coisa que se relacione a você? Por que não desabafa?

Então lhe contei que, naquele dia, havia conseguido uma ordem de despejo contra um mutuário que, desempregado, deixara de pagar as prestações do apartamento.

– É triste mesmo amor. Ele é casado?

– Casado e com cinco filhos, todos menores de idade. A esposa, uma costureira, é quem tem sustentado a família.

– E isso lhe lembrou de Madalena.

– Lembrou. Mas mesmo que ela não fosse costureira, fosse cozinheira, lavadeira ou qualquer coisa... É injusto Li. Tudo o que tinham deram como parte de pagamento no apartamento, fizeram armários na cozinha, nos quartos e agora saem despejados sem nem ter pra onde ir e sem indenização do quanto gastaram.

– E você não pode fazer nada?

– É o meu trabalho Li. Se não for eu, outro o fará.

– Amor, nós sempre discutimos quando eu condeno esse governo, essa ditadura, esse capitalismo. Agora você vê que eu tenho razão? Precisamos lutar, denunciar tudo isso.

– Li, pelo amor de Deus, o que eu preciso é trabalhar, ganhar dinheiro para que possamos nos casar. Com esse ou com qualquer outro governo isso não vai mudar.

– E eu estou cansada de lhe dizer que caso com você com dinheiro ou sem dinheiro. Podemos morar lá na Massaranduba mesmo. Não precisamos comprar apartamento na Pituba pra sermos felizes. Você pode advogar a favor dos pobres e não contra eles. Pense nisso. Esse emprego vai acabar lhe matando. Assim você acaba tendo um infarto.

Resolvi seguir, em parte, o conselho de Lídia e comecei a procurar um outro emprego; um onde pudesse advogar sem violentar-me ou cuja remuneração valesse a pena. Persistiria, contudo, no projeto de vender a casa da Massaranduba para dar entrada em um apartamento na Pituba. Eu já não tolerava a pobreza do lugar onde morava, e não seria justo oferecer a Lídia um padrão de vida muito inferior àquele no qual fora criada. Comentei da minha tristeza com o nosso trabalho, com um colega do banco que fazia "bico", como revisor, em um jornal que estava admitindo novos repórteres.

– Você escreve bem. É perspicaz. Daria um bom repórter.

– Mas eu não sou jornalista.

– Acho que isso não é problema. Problema é que o salário não é muito bom. Se você quiser me informo dos detalhes.

Lídia era todo contentamento quando lhe falei da possibilidade de trabalhar no jornal.

– Da água para o vinho! — Exultou — Você vai poder denunciar toda essa podridão.

– Eu não decidi ainda Li, o salário é metade do que recebo no banco.

– Mas depois você pode crescer, melhorar.

– Não existe jornalista rico Li, só dono de jornal e olhe lá.

– E quem disse que você tem que ser rico?

– Você não acha que eu vou tirar você do conforto para...

– Você não vai me tirar de lugar nenhum. Lembre-se que ano que vem me formo e que vou trabalhar, não vou ficar em casa engordando, fazendo comidinha pra o maridinho, lavando roupa, esperando você chegar. Portanto, se você ganhar pouco e por menos que eu venha ganhar, não vamos passar necessidade.

– Você por acaso acha que eu aceitaria ser sustentado por você?

– Eu não falei isso e também não vejo mal nenhum se precisasse ser assim. Mas eu sei que você é muito metido a machão para aceitar sequer dividir as despesas, o que é uma tolice sua. O que quero dizer é que podemos viver juntos, casados ou não, e sermos felizes morando na Massaranduba, na Pituba ou debaixo de algum viaduto.

– Li, é fácil dizer isso sem nunca ter passado necessidade.

– Ta bom, não vamos discutir mais. Mas, por favor, pense com carinho. Pense, porque a coisa mais importante que temos é a nossa consciência e você tem causado danos na sua.

Não foi sem apreensões que pedi demissão do banco e me tornei repórter, um "foca" como são chamados os jornalistas iniciantes. Mas acreditava que poderia me tornar um jornalista influente, ter a minha própria coluna e, usando-a com sapiência, receber favores, tornar-me uma figura pública, conseguir um bom emprego no governo...

Nos primeiros dias de trabalho o chefe de reportagem, José Abreu, determinou que eu acompanhasse um repórter mais experiente da editoria de cidade. Saíamos, no primeiro dia, por volta das treze horas, com seis pautas de reportagens, com a obrigação de estar de volta ao jornal a tempo de redigir as matérias antes das dezenove horas.

– Mas como isso é possível? — perguntei — Calculo que para escrever as seis matérias sejam necessárias, mais ou menos, duas horas, assim teremos que estar de volta as cinco da tarde. Nem se não houvesse engarrafamentos no trânsito. Como poderemos ir a seis lugares diferentes, esperar que nos recebam, fazer perguntas e anotar as respostas em apenas quatro horas?

O colega leu as seis pautas, dobrou duas, guardando-as no bolso da calça e disse:

– Essas duas nós queimamos. Das outras quatro, três são em instituição que tem assessoria de imprensa, só precisamos passar pra pegar o press release, depois reescrevemos, para evitar que saia igual à de algum outro jornal. Essa outra aqui é que vai dar trabalho, é uma entrevista na Secretaria de Indústria e Comércio com um técnico americano em juta.

– Desculpe a minha ignorância, mas o que é juta?

– Não tenho a menor idéia. Essa porra de pauta não informa. Chegando lá descobriremos.

– Será que o tal americano fala português?

– Se não falar a secretaria deve ter chamado um tradutor. Não se preocupe com isso.

– E aquelas pautas que "queimamos"?

– Chegando no jornal eu ligo pra colegas de outras redações e eles passam pra gente.

– Nosso serviço é esse mangue todo dia?

– Na editoria de cidade é. Hoje até que está fácil. — Disse rindo.

No dia seguinte perguntei ao chefe de reportagem se não podia me colocar em outra editoria, na de política preferencialmente.

– Isso é outro estágio. Foca primeiro tem que ralar na editoria de cidade. A não ser que você tenha fontes importantes que possam lhe passar notícias exclusivas. Algum deputado, por exemplo. Você tem?

– Não.

Na segunda semana Abreu considerou que eu já podia sair sozinho e me deu quatro pautas: uma exposição de pássaros exóticos, uma entrevista com o diretor de um espetáculo teatral, apurar uma denúncia de uma associação de moradores do subúrbio sobre hidrômetros que registravam consumo mesmo quando faltava água e a inauguração de uma escola municipal em Itapuã.

O jornal só tinha dois carros. A prática era pagar uma "caixinha" para que cada repórter se transportasse por sua conta, o carro levando cada um até o local da primeira pauta. Depois em cada carro ficava um fotógrafo que passava para "bater as chapas" para as matérias de maior destaque. Eu tinha meu próprio carro e podia dispensar a carona, o problema era que a caixinha seria insuficiente para o combustível que iria gastar se fosse a Paripe e a Itapuã, extremos da cidade. Eu não estava ali para pagar pra trabalhar.

Seguindo o exemplo do "colega mais experiente" queimei a pauta da exposição de pássaros, telefonei para a Secretaria de Educação do Município e pedi que me passassem o release da inauguração por fax para a redação. Fui na Associação de Moradores de Paripe para fazer a matéria sobre a falta d’água e entrevistei o diretor teatral.

No dia seguinte quando cheguei ao jornal o chefe de reportagem me avisou que o diretor de redação queria falar comigo. Fui ao "aquário", a sala separada do salão da redação por meia parede de vidro, levando comigo a ilusão de que o meu texto tinha causado boa impressão ao "Velho", alcunha bem aplicada àquele senhor de cabeça alva e semblante austero, e, sendo assim, que uma promoção era o motivo do convite. O "velho" me inquiriu:

– O senhor foi à inauguração da escola "Mãe ou Esposa de Fulano de Tal"? — não me recordo o nome da escola.

– Não senhor, cozinhei o release. — Respondi decepcionado, mas seguro de não ter cometido nenhuma irregularidade, posto que isso era normal, conforme já havia testemunhado.

– O senhor pensa que aqui é o Diário Oficial? — Fuzilou-me carrancudo.

– Não senhor, é que eu tinha quatro pautas, cada uma em um ponto da cidade e não daria tempo para cobrir todas. — Justifiquei, já meio sem graça.

– Quais o senhor queimou?

– Queimei a da exposição de pássaros exóticos e pedi release da inauguração da escola.

– Então o senhor preferiu ir entrevistar um veado que está ensaiando uma peça que não tem ainda nem data de estréia. — Maneou a cabeça — O senhor sabe o que aconteceu na inauguração da escola?

– Não senhor. — Respondi baixando os olhos, intuindo que a má sorte me pregara mais uma peça.

– O senhor não lê os jornais. — O "velho" estava irritado.

– Leio sim senhor, mas hoje ainda não tive tempo.

– Pois saiba que deu o maior fuzuê. Os professores resolveram fazer uma manifestação de protesto contra os baixos salários, a polícia baixou o pau, um professor está em estado grave no Pronto Socorro de tanta porrada, dois outros estão presos e nós não demos porra nenhuma disso. Cozinhamos o release como qualquer pasquim de quinta categoria. — Ele berrava tão alto que através do vidro toda a redação podia ouvir o esporro que eu estava levando.

– Sinto muito senhor. — Desculpei-me.

– Sente muito uma ova. — Baixou o tom de voz. — Só não o despeço agora mesmo porque o Abreu me disse que você tem um bom texto e se ele diz é porque tem mesmo, o filho da puta não gasta vela com mau defunto. Tenho uma vaga de copy-desk, o senhor começa hoje mesmo. Pode ir pra casa e esteja aqui às dezenove horas.

– Mas senhor...

– Não tem mais nem menos. Começa hoje às dezenove horas. É pegar ou largar.

Peguei.

Um dos inconvenientes, mas não o maior, da minha nova função seria a mudança de horário. Ficaria o dia inteiro sem atividades e não poderia me encontrar com Lídia à noite nos dias de semana. Lídia, além da mudança de horário, não gostou de saber que eu seria um mero reescrevente das matérias alheias. Ela, por seu idealismo e não pelas minhas razões, queria me ver um influente comentarista político com poder para abalar as estruturas do sistema. Mas, sempre otimista, disse que tinha absoluta certeza de que eu logo teria uma coluna, com meu nome em cima.

– Eles não são cegos, logo vão perceber o seu talento. — Contemporizou.

Aproveitando os dias vagos me dediquei à leitura de contos, romances, poesias. Até então minhas leituras tinham sido exclusivamente de livros didáticos. Com o novo hábito descobri novos universos, os universos de Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Manoel Bandeira, Jorge Amado e desejei escrever também, ser um deles. Parecia-me fácil. Comecei um conto, mas antes das vinte primeiras linhas conclui que minha imaginação não era suficientemente fértil para criar uma estória interessante que prendesse a atenção de nenhum leitor. Tentei fazer um poema tendo Lídia como musa, mas o resultado me pareceu pior e mais piegas que a velha quadrinha para Bárbara. Confiram:

No azul do seu olhar,

nas flores da primavera

nas profundezas do mar

na mais louca quimera

hei de um dia encontrar

a paz que a besta-fera

insiste em me roubar

roubando-me a atmosfera.

Conversei com Lídia sobre a minha falta de imaginação para escrever um conto, mas não tendo coragem de lhe mostrar o estrupício acima, (que só guardei por causa dessa minha mania de guardar papéis e que aqui coloco porque impus-me a obrigação da sinceridade quando resolvi escrever essas memórias), nem aventei a hipótese de escrever poemas. Ela me incentivou a tentar continuar escrevendo e me sugeriu:

– Ninguém nasce sabendo amor. Você deve continuar tentando. Experimente pegar uma notícia no jornal, um crime passional, por exemplo, troque o nome das pessoas e vá acrescentando coisas e personagens da sua imaginação dentro da história real.

Lembrei-me de uma matéria que havia reescrito no jornal sobre a morte misteriosa de um casal de meia idade. O filho único, um rapaz de vinte e cinco anos, chegou em casa à noite e encontrou os pais mortos a tiros. Todas as portas foram encontradas fechadas, só poderiam ter sido abertas, e novamente trancadas, à chave. As janelas estavam também trancadas e não havia qualquer sinal de arrombamento. A polícia suspeitava do rapaz, mas ele trabalhara o dia inteiro, tendo almoçado no refeitório da empresa. Tinha não uma, mas muitas testemunhas. A hipótese mais aceita era que o filho tinha contratado alguém para matar os pais, dando ao assassino uma cópia da chave. Mas como provar essa tese? E qual motivo teria o rapaz? Tanto o pai quanto a mãe recebiam aposentadorias e complementavam as despesas do moço: a morte deles significava não lucro, mas prejuízo. Toda a vizinhança declarara que se tratava de uma família pacata e bem quista. Era um caso, até então, insolúvel. Não sei se foi elucidado mais tarde.

Ao conto que resultou desse caso dei o nome de "Mistério no Solar dos Neves". Na verdade escrevi duas versões. Em ambas transformei a casinha, que era em um bairro de classe média baixa, em uma mansão, um solar senhorial do século XIX, situado no Corredor da Vitória. Na primeira versão o filho era o mandante do crime e o motivo foi ter sido expulso de casa quando os pais descobriram que ele era homossexual. Na segunda, um parente distante, que há muito tempo tinha feito cópias das chaves da mansão, matara os velhotes e pretendia matar também o rapaz para herdar a mansão. Francamente, eram deploráveis as duas versões. Disso vou lhes poupar, pois os fatos são os expostos e as minhas versões também. Assim me dei por vencido, convencera-me que nunca seria um ficcionista. Não seria este o caminho que me tornaria rico e respeitável.

Nem completara seis meses no jornal e já manifestava ao meu futuro sogro a minha insatisfação, contando com que ele me desse apóio para convencer Lídia, que teimava para que eu persistisse. Ela tinha orgulho em ser noiva de um jornalista. Enchia a boca quando me apresentava às suas colegas: "este é o meu noivo, ele é jornalista", mas entendam isso da mesma forma que entenderiam se ela dissesse: "este é o meu noivo, ele é marciano".

– Se você não está satisfeito com o trabalho no jornal, onde não vê possibilidade de ascender, por que não presta concurso para juiz, Geraldo? É uma carreira estável e, pelo que sei, bem remunerada. — Seu Oswaldo me perguntou.

– Não é uma má idéia. Vou me informar quando será o próximo concurso. Atualmente o que não me falta é tempo para me preparar.

– Se você quiser eu tenho um amigo que é juiz e pode indicar quais livros você deve ler.

– Ótimo. Eu agradeço.

O concurso realizou-se oito meses após aquela conversa com seu Oswaldo. Durante todo esse tempo continuei reescrevendo as matérias dos repórteres à noite e estudando de dia. Fui aprovado e designado para uma pequena comarca "onde Judas perdeu as botas e o vento faz a curva", no dizer de Lídia.

Minha noiva concluíra o curso e iria começar a trabalhar no departamento de recursos humanos de uma empresa multinacional. Apesar de temeroso com a possibilidade dela optar pelo emprego, deixei que Lídia decidisse entre nos casarmos logo, me acompanhando para o interior, ou adiar mais uma vez o casamento, até que eu obtivesse um posto em Salvador, ou em alguma cidade mais próxima da capital.

 

 

 

 

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No dia nove de fevereiro de 1978 nos casamos na igrejinha de Mont Serrat. E, após a lua-de-mel em Florianópolis, assumi, no dia primeiro de março, minhas funções na comarca do recém criado município Ari Barroso, uma justa homenagem ao ilustre compositor, que cantou a Baixa dos Sapateiros, como se baiano fora. Não sei se é verdade, mas me contaram que antes da homenagem a Ari Barroso cogitou-se em homenagear Dorival Caymmi, mas que o baiano ilustre, a quem a nossa música tanto deve, fez saber que, estando vivo, consideraria aquilo uma ofensa, um prematuro atestado de óbito.

Para quem não conhece, é útil esclarecer que a cidade de Ari Barroso está situada no litoral norte do Estado da Bahia, próxima à foz do rio Itapicuru. Como na época não havia sido construída a estrada do coco, o acesso para a sede da comarca era quase uma aventura. Normalmente uma cidadezinha como aquela não seria sede de município e, muito menos, de comarca. Acontece que é a terra natal de um influente político que empenhara todo o seu prestígio junto aos governos estadual e federal, e os preciosos votos do seu curral eleitoral, para a concretização do seu sonho emancipacionista. Só foi vencido, se é verdade o que o povo diz, na intenção de dar ao município o nome do finado pai, um pescador analfabeto como tantos outros e cuja grande contribuição, ao Estado e à Nação, fora a paternidade do prócer governista.

É de praxe que aos novos magistrados sejam entregues as menores comarcas. Além de justo, em qualquer acepção que tem vocábulo, isso proporciona o aprendizado prático, já que, teoricamente, os juízes deparam-se, nas pequenas comarcas, com toda espécie de situações que mais tarde irão encontrar nas maiores, com a conveniência de que nas pequenas comarcas as coisas são resolvidas com maior facilidade, pois todos se conhecem e, não havendo imprensa, é menor a pressão da opinião pública. Contudo, além de pequenas desavenças entre vizinhos, nada de mais conflituoso aconteceu em Ari Barroso no tempo em que respondi pela comarca.

O caso mais complicado que tive para apreciar foi uma disputa entre vizinhos, um que criava galinhas e outro que tinha em casa um cachorro feroz. Uma galinha passou a cerca que separava os quintais e foi morta pelo cão. O dono da galinha reclamava indenização. O dono do cão negava-se a isso argumentando que o dono da galinha comera-a depois de morta, e que, portanto, não houvera prejuízo. Não acrescentou, como poderia ter feito, que o cão agiu em legítima defesa da propriedade, que houvera sido invadida. O dono da galinha, por sua vez, argumentava que aquela fora, entre todas, a sua melhor poedeira e não uma galinha velha destinada ao abate. Como o dono do cão não argüiu a invasão de domicílio e a conseqüente defesa da propriedade, decidi que o dono do cão indenizasse o queixoso comprando-lhe uma nova poedeira e que, em contrapartida, o dono da galinha desse ao dono do cachorro um frango ou uma galinha velha. Contentaram-se ambos, felizes, com o meu veredicto salomônico e me convidaram para celebrar a paz com uma estupenda galinha ao molho pardo, iguaria que Ari Barroso é conhecida como galinha de cabidela.

Ocupamos uma casa, estalando de nova, cheirando a tinta, construída na única praça da cidade, quase defronte ao prédio do fórum, novo também. Era um simpático bangalô, com o exterior pintado em verde cana, uma grande varanda, jardim, quintal, todos os cômodos com piso cerâmico, sala de visitas e outra para as refeições, cozinha, dois banheiros e quatro quartos, um dos quais transformei em meu gabinete. Lídia me parecia feliz quando nos instalamos: passava o dia em banhos de mar, plantando flores no nosso jardim e supervisionando o plantio de uma horta no amplo quintal. Em maio me revelou que suspeitava estar grávida, suspeita confirmada em junho.

Em agosto, no quinto mês de gravidez, notei que Lídia estava tristonha, desinteressada do jardim, da horta e mesmo de preparar o enxoval para o nosso filho. Eu já temia que ela, sempre tão ativa, logo se aborrecesse com a quietude do lugar, mas confiava que a gravidez ocupasse-a. A princípio ela não queria aceitar, mas acabou concordando em ficar em Salvador, na casa dos pais, até o parto, previsto para acontecer entre o final de dezembro e os primeiros dias de janeiro.

Quando nos instalamos em Ari Barroso, contratamos Jussara, por indicação de dona Iolanda, a primeira dama do município, para ajudar Lídia nos serviços domésticos.

– É uma mulatinha bonitinha e asseada, moça de confiança, filha mais velha de Dione, a nossa cozinheira. Não cozinha tão bem como a mãe, mas não vai fazer feio principalmente no trivial. O doutor juiz vai ficar satisfeito. — Garantiu dona Iolanda.

Sem que dona Iolanda e Lídia percebessem, Romeu, o prefeito, piscou os olhos para mim e acrescentou, em um tom de voz que não condizia com a piscadela:

– Só tem dezessete anos a moça. Não é Iolanda?

– Quase dezoito. – Ela falou.

– A senhora pede, então, que ela me procure amanhã de manhã, dona Iolanda — Lídia pediu.

No dia seguinte, quando cheguei do fórum, ela já estava a serviço de Lídia, que me comunicou:

– Amor eu consegui convencer a Jussara a ficar morando aqui conosco. Ela mora com o pai, a mãe e mais uns oito parentes em uma choupana apertadinha na beira da praia. Aqui tem quarto sobrando. Você se importa?

– Não Li, faça como achar melhor. — Respondi.

– Vou chamar ela pra lhe apresentar. — Ela disse e chamou a moça.

Tomei um susto quando vi chegar na sala, vestindo um short apertadíssimo e uma blusa curta empinada pelos seios rijos, aquele monumento à raça negra. Levantei-me para lhe apertar a mão e fui brindado com um sorriso que me lembrou o de Bárbara.

– Muito prazer doutor Geraldo. Estou à sua disposição — Ela me cumprimentou curvando-se um pouco como se eu fosse, talvez, um monarca.

Por cima do decote da blusa, que era frouxa e de tecido leve, divisei-lhe, inteiros, os seios de pequenas auréolas negras e pontiagudas.

– O prazer é meu. Como é mesmo o seu nome? — Realmente eu não me lembrava.

– Jussara, doutor juiz.

Lídia pediu que ela nos trouxesse cafezinho. Hipnotizados, meus olhos seguiram as belas nádegas que sumiram rebolando pelo corredor. Temi que Lídia tivesse notado o meu excesso de atenção, o olhar continuado, é mais exato dizer assim. Para ser sincero, não fantasiei nenhuma relação com Jussara, apenas quedara-me a admirar a sua beleza. Se Lídia fosse ciumenta como sou, não a teria aceitado, nem sequer a convidaria para morar conosco, muito menos a instalando, não nas dependências para empregados, que as havia no fundo do quintal, mas em um dos quartos da casa.

Jussara insinuava-se desde o primeiro dia. Lídia comprou-lhe roupas e um biquíni, que ela continuava usando dentro de casa, quando retornava da praia, onde ia acompanhando minha esposa. Desfilava, rebolando quando me via, naquele traje sumário, como se me quisesse enlouquecer. E Lídia parecia cega, mas mantive a compostura. Contudo, com a sua ida para Salvador, não consegui mais resistir: no terceiro dia após o meu retorno da capital, onde fora para levar minha esposa, ela já estava na minha cama. De todas as mulheres com que trepei na minha tumultuosa vida, não houve nenhuma mais fogosa que ela, nem Madalena, com toda a sua experiência, fora capaz de me excitar tanto. Compreendi, na nossa primeira noite de gozos, a piscadela de Romeu e perguntei a Jussara:

– Você já foi pra cama com o prefeito?

– Já seu doutor. — Ela respondeu com a cara mais sonsa do mundo.

– Com quem mais? — Eu quis saber.

– Com o padre Brito, com seu Zeca da farmácia e com Ramon, um cabeludo da cidade que morou aqui uns tempos e foi quem tirou o meu cabaço.

– Você toma anticoncepcional?

– Tomo. É seu Zeca que me dá.

– De agora em diante você só vai pra cama comigo Jussara. E ninguém pode saber entendeu? Principalmente dona Lídia.

– Mas se eu não der pra seu Zeca ele não me dá mais os remédios pro povo lá de casa e nem as pílulas pra não emprenhar.

– Quando você precisar de remédio você manda botar na minha conta. Não, melhor. Você me diz o que quer e eu mesmo mando alguém do fórum comprar.

– E seu Romeu? Se eu não der pra ele, ele manda mãinha embora e o meu povo morre de fome. Meu pai é pescador, agente não pode viver só de comer peixe e aqui só no verão tem quem compre.

– Você fique tranqüila que o prefeito não manda sua mãezinha embora não. Você o ameaça de contar tudo a dona Iolanda.

– Ela sabe.

– Sabe? E não se importa?

– Eu acho que não. Ele me disse que ela já fechou o baú faz tempo.

– Então você deixe que eu converso com ele.

– E o padre Brito?

– O que é que tem o padre Brito?

– Se eu não der pra ele eu não entro no céu quando eu morrer.

– Foi ele quem lhe disse isso?

– Foi.

– Pois ele ta mentindo, o velho safado. Deus não quer que padre tenha mulher. Ele vai é pra o inferno e você também, se continuar dando pra ele.

– E eu não vou poder nem me confessar?

– Confessar pode. Só não pode dar pra ele, nem dizer a ninguém, nem na confissão, que está dando pra mim.

– Então ta bom. É o doutor juiz que manda na polícia e se alguém fizer maldade pra mim e pra meu povo o doutor juiz manda prender. Não manda?

– Mando. Mando prender todo mundo e mando jogar a chave da cadeia no fundo do mar.

No outro dia fui na prefeitura conversar com Romeu e fi-lo entender, através de metáforas e analogias, que "uma mão lava a outra". Eu disse que eu não era um juiz corrupto, mas que também não era santo, e que a Lei sempre dá ao juiz margens a interpretações. Ele não teria dificuldades em arranjar uma outra concubina.

– Porra doutor Geraldo, não precisa tanto lero-lero, o doutor não quer dividir a menina, não tem importância, eu já estou comendo a irmã dela de dezesseis que é tão gostosa e fogosa quanto ela.

– Não se trata de dividir ou não dividir Romeu. Eu não tenho nenhuma intimidade com a garota. Aliás, nem foi por intermédio dela que fiquei sabendo da relação de vocês.

– Não me diga que Iolanda contou a dona Lídia. Eu avisei a ela pra não tocar nesse assunto.

– Não. Não creio que Lídia saiba. Foi outra pessoa quem me contou. Essa pessoa me pediu que a deixasse incógnita, e eu sempre honro a minha palavra. Por sinal, não quero que Lídia saiba de nada. Você me entende? Ela poderia pensar coisas e a moça é quem seria prejudicada.

– É, Jussara agora ta na vida que pediu a Deus, dormindo em cama macia, comendo do bom e do melhor. Fique tranqüilo doutor. Por mim ou por Iolanda dona Lídia não vai saber de nada. É um pitéu a menina. É ou não é?

– Não sei Romeu. Sei que é uma garota menor de idade, com a qual minha esposa simpatizou, e que farei o que for preciso para que, doravante, tenha as oportunidades que a vida lhe tem negado. Não há de se tornar uma prostituta, se depender de mim.

Pretextei a necessidade de estudar um processo no fórum e acho que deixei uma dúvida razoável na cabeça do prefeito. Era em nome da moralidade e da integridade do meu lar o pedido que houvera feito.

Carlos Eduardo, o meu primeiro filho, nasceu no dia 31 de dezembro de 1978. Eu estava em Salvador para passar com Lídia o Natal e o Reveillon. Aquele foi um dos poucos anos que não rompi o ano novo na Boa Viagem, mas, na manhã do dia primeiro de janeiro, antes de ir à maternidade, fui ver a procissão marítima chegar e agradeci ao Bom Jesus e a Nossa Senhora da Conceição a ventura que me concedera na véspera.

Não creio que possa haver maior alegria que a do nascimento de um filho, principalmente a do primogênito. Mas à alegria eu somava o sentimento de culpa decorrente do meu relacionamento com Jussara e o medo com a possibilidade de Lídia descobrir essa relação. Medo não apenas porque não concebia a possibilidade de não poder criar o meu filho, se Lídia, descobrindo o meu relacionamento com Jussara, resolvesse por nossa separação, mas, também, e fundamentalmente, porque eu amava Lídia, amo ainda e perde-la seria perder a razão da minha vida. Por Jussara era somente um enorme tesão o que sentia.

Alguma coisa estava estampada na minha cara. Lídia achou que era medo pela responsabilidade de ter e criar um filho. Ela perguntou:

– Está preocupado, amor?

– Não Li. Estou muito feliz.

– Está preocupado, sim. Está preocupado porque agora tem o Carlinhos. Antes éramos somente nós dois, agora há esse principezinho lindo que é a cara do pai.

Era uma brecha para manter Lídia em Salvador. Brecha que eu não podia perder. Eu aproveitei dizendo:

– É verdade Li, estou mesmo preocupado. Lá em Ari Barroso não temos condições adequadas de saúde para cria-lo, tão pequeno, tão frágil ainda.

– Mas meu bem, quantos lá nasceram e se criaram?

– Nenhum filho nosso. Você tem idéia do índice de mortalidade infantil de lá? Lá uma simples caganeira pode matar por desidratação. Não há médico residente. O Dr. Luiz só dá plantão um dia por semana e eu não tenho confiança nele.

– E o que você acha que devemos fazer?

– Acho que vocês devem ficar aqui pelo menos uns seis meses, que é a fase mais crítica.

– Se você não me quer ao seu lado...

– Ah! Li, não é nada disso. É pelo bem do Carlinhos, prefiro que ele não corra um risco desnecessário.

– Pelo meu gosto, ficávamos aqui por só mais um ou dois meses, desde que nos casamos temos vivido mais tempo separados do que juntos, mas não vou teimar. Eu fico.

Foi um alívio, eu ganhara seis meses para resolver o imbróglio que criara. Foram seis meses de tensão, mas também de inenarráveis lubricidades com Jussara. Eu vivi esse período, me desculpem o clichê, "entre a cruz e a espada". A situação ideal seria poder ter, concomitantemente, as duas. Outra hipótese era conseguir uma transferência para outra comarca, de preferência próxima a Salvador, onde eu pudesse reunir a família. O inconveniente dessa segunda hipótese era ter que me livrar de Jussara, me privando do enorme prazer que ela me propiciava. Mas eu sabia que seria um risco muito grande conviver com as duas sob o mesmo teto. Mesmo que Jussara não falasse nada, mesmo que nenhuma fofoca caísse nos ouvidos de Lídia, eu tinha certeza que eu mesmo me denunciaria, não conseguiria agir com naturalidade. Renunciar a Jussara era, pois, inevitável, a não ser que Lídia aceitasse me dividir com ela, coisa muito improvável. Nos meus devaneios cheguei a pensar nisso, a pensar em contar tudo a Lídia, a lhe pedir que aceitasse aquela situação; mas quem aceitaria? Isso é coisa que só acontece na literatura; na vida real somente por loucura ou por falta de opção. E Lídia não é louca e tão pouco uma desamparada pronta para aceitar os meus caprichos e, mesmo que fosse, eu não teria coragem de propor, e em tendo, de perder o seu amor e, ou, o seu respeito.

Resolvi reivindicar uma transferência. Aceitaria ir pra qualquer lugar para salvar o meu casamento e decidi que Lídia não voltaria a Ari Barroso. Em busca de apóio ao meu requerimento oficial, apelei a muitos desembargadores fazendo-os ver que seria desumano submeter minha esposa e filho, uma criança com poucos meses de vida, a residirem em local tão inóspito; disse do risco de desagregação da minha família. Tornei-me um chato.

Tive sorte, havia um colega em uma comarca no sertão que estava querendo transferir-se para outra no litoral, qualquer uma à beira mar, o tribunal aceitou que permutássemos.

Esse colega, que estava separado da esposa, foi a única pessoa a quem confidenciei sobre Jussara, não omitindo nenhum detalhe. Ele me garantiu que manteria o segredo e disse que eu ficasse tranqüilo, ele ficaria com Jussara, dando-lhe o mesmo tratamento que eu:

– Está melhor que a encomenda. — Marcos, exultou.

 

 

 

 

- 9 -

 

 

Vinhedo Novo foi a minha nova comarca. A cidade, situada no alto sertão, é o último lugar no mundo que alguém, de sã consciência, escolheria para viver, mesmo que temporariamente. Edificada em uma baixada e cercada de morros, o calor é asfixiante, mesmo à sombra. O seu topônimo é uma piada de mau gosto: ali a coisa mais próxima da uva é a cor do pó vermelho da terra que se entranha pelas menores frestas. Não se vê portas ou janelas abertas, as casas não têm jardins, as ruas não têm uma árvore sequer. Ninguém se dá ao trabalho, pela inutilidade que é, de pintar as fachadas das casas; todas, absolutamente todas, cobertas pelo maldito pó. Eu não teria imaginação para pintar o inferno com tintas mais demoníacas.

Marcos me prevenira para a política local:

– São dois partidos, o Sabiá e o Canário. Legalmente são duas sublegendas do partido do governo. São mais que adversários, são inimigos ferrenhos: os ambientes que são freqüentados por um grupo não são freqüentados pelos do outro. Filho de Sabiá não casa com filha de Canário, e vice-versa. É rivalidade maior que a dos Montecchios e Capuletos. — Citou Shakespeare para mostrar erudição — O ideal é não se deixar envolver, pois, se localmente estão divididos, ambos contam com apoios importantes na esfera estadual. Nenhum tem força para impulsionar a sua carreira, mas talvez tenham para o prejudicar.

Agradeci o conselho, mas não demorou muito para que me deixasse enredar pelo Sabiá, grupo que controlava a prefeitura.

Lídia andava triste, não se contentava apenas com as tarefas de mãe e de dona de casa, queria ter alguma ocupação. Falava em ser voluntária para prestar serviços às crianças pobres. Eu protestava, dizendo que era imprescindível que ela cuidasse pessoalmente de Carlinhos, dedicando-lhe assistência integral. Ela se calava, mas logo voltava ao assunto; chorava pelos cantos da casa, onde se sentia, virtualmente, uma prisioneira. Amiudavam-se, agravando meus ciúmes, suas viagens a Salvador, em temporadas cada vez mais longas.

Sabendo que o Sabiá era favorito nas eleições marcadas para novembro de 1980, procurei Epaminondas, o candidato, na época secretário de obras da Prefeitura Municipal, e barganhei, sem que Lídia soubesse, o meu apoio em troca da nomeação da minha esposa como Secretaria de Educação do Município. Fi-lo ver que, devido a minha condição, o meu apoio não podia se tornar público, fato que levaria à minha suspeição na condução do processo eleitoral e, ainda, que quando da divulgação do secretariado, ele tornasse público que escolhera Lídia, com a minha oposição, com o intuito de não politizar a questão educacional.

Epaminondas aceitou o acordo. Daí em diante, fiz vistas grossas para as graves irregularidades que o Sabiá, com a cumplicidade ou descaso dos funcionários do cartório eleitoral, promovia na emissão de novos títulos e, escudado em estatística do pleito anterior, que demonstrava haver, no distrito natal, e maior reduto do candidato dos Canários, um número maior de votantes que de moradores, determinei que fosse feita ali uma revisão de todos os eleitores.

A reação dos Canários foi imediata. Recebi a visita de Miguel, o seu candidato a prefeito, protestando contra a medida e denunciando a atuação do cartório eleitoral que estaria fornecendo títulos eleitorais, com patrocínio dos Sabiás, a moradores de municípios vizinhos.

Assegurei-lhe que a revisão eleitoral alcançaria todos os distritos cujo número de eleitores fosse superior à população adulta e que começara pelo distrito onde essa relação era mais anômala. Quanto à atuação do cartório eu iria verificar se a denúncia era fundamentada e tomaria as providências necessárias para a lisura das eleições.

Tanto ele, quanto eu, sabíamos que seria impossível rever, a tempo, todos os títulos com os recursos que eu podia mobilizar, o que, na prática, significava que a ação moralizadora estaria restrita ao distrito cujo eleitorado ele manipulava.

– Pois tomarei as providências que o caso requer. — Ele me disse.

– O senhor fique à vontade para agir conforme a sua consciência — Encerrei a conversa.

Dois dias depois recebi um telefonema me informando que o deputado estadual, que liderava a facção que os Canários integrava, havia pedido, ao Tribunal Regional Eleitoral, o meu afastamento da condução do pleito no município, representado contra a minha atuação.

Posteriormente, prestei os esclarecimentos que me foram pedidos pelo Tribunal Regional Eleitoral. Esclarecimentos aos quais anexei um quadro estatístico demonstrando que nas eleições realizadas para a Assembléia Estadual, Câmara Federal e Senado da República, em 1978, o número de eleitores houvera sido superior à população adulta em três distritos do município de Vinhedo Novo. Declarei que me empenharia para revisar o eleitorado dos três distritos "com os recursos humanos e materiais que dispunha", ressalvado que para maior celeridade seria necessário o aporte de um maior volume de recursos; e asseverei que havia determinado ao cartório eleitoral que não fosse aceito nenhum alistamento de eleitor que não atestasse, documentalmente, residir no município.

O Tribunal aceitou as minhas alegações. Para exigir que a minha ação moralizadora fosse agilizada a tempo de atingir os três distritos teria que colocar mais recursos à minha disposição, coisa de que não dispunha. Quanto ao alistamento, não há coisa mais fácil que conseguir uma conta de água, luz, telefone ou declaração com fé pública atestando residência. Os Canários estavam perdidos: não elegeriam o prefeito e a sua bancada na Câmara Municipal seria sensivelmente reduzida.

No dia das eleições pude presenciar uma modalidade de fraude da qual já houvera falar, mas que não sabia como funcionava. É a corrente:

Um cabo eleitoral se instala em uma casa, ou mesmo em logradouro público. Assim que a seção é aberta um eleitor deposita na urna uma cédula de propaganda e traz a cédula eleitoral verdadeira que é, então, preenchida pelo próprio eleitor, votando nos candidatos que o cabo eleitoral determina. Essa cédula oficial, com os votos já consignados, é passada ao cabo eleitoral que a entregará ao próximo eleitor e, assim, sucessivamente, são formados os elos da corrente, que dura o até o encerramento do pleito. Como cada eleitor preenche uma cédula oficial, não haverá, na urna, cédulas com a mesma caligrafia; o que seria motivo para nulidade. O último eleitor, em geral o próprio cabo eleitoral, se encarrega de depositar duas cédulas: a última que recebeu e a que receberá da mesa da seção. O único rastro dessa modalidade de fraude, se não for coibida durante a votação, é a presença de uma cédula eleitoral não válida, (ou mais de uma, se na mesma seção atuar mais que um cabo eleitoral), a de propaganda, na urna.

Informado de quais cabos eleitorais estavam a serviço dos Canários, determinei que fossem presos em flagrante e ignorei aqueles que agiam do mesmo modo a favor dos Sabiás.

Na apuração os fiscais dos Canários pediram a nulidade das urnas onde foram encontradas cédulas não oficiais. Não concordei argumentando que qualquer eleitor da seção, de qualquer uma das facções, podia ter colocado na urna a cédula não oficial, ou qualquer outro papel, com o objetivo de postular a nulidade das urnas onde fosse minoritário.

Proclamados os eleitos era hora de conversar com Lídia, dizer-lhe que o futuro prefeito me procurara para sondar a possibilidade de que ela aceitasse uma secretaria municipal:

– Li, você vive dizendo que precisa ter uma atividade fora de casa. Pois tenho uma boa notícia.

– Então diga logo, amor! — Seus olhos brilharam como há muito tempo eu não via.

– Fui surpreendido hoje com a visita de Epaminondas, o prefeito eleito. Ele me disse que pretende entregar a Secretaria de Educação para uma pessoa sem envolvimento na política municipal e que pensou em você.

– Que história maluca é essa. Ele mal me conhece. — Do contentamento passou ao espanto.

– Mas sabe que você é psicóloga e, o principal, que não tem filiação nem com os Sabiás nem com os Canários.

– Você está pensando o quê? Que sou uma idiota? — Do espanto à indignação.

– Não estou lhe entendendo. — Fiz-me sonso.

– Mas eu estou entendendo você e não estou gostando nada disso. — Da indignação à decepção.

– Onde você quer chegar. — Dissimulei.

– É evidente que isso é uma recompensa por sua atuação nas eleições. — Da decepção à acusação.

– Só me faltava essa. Você acha que sou corruptível? — Fiz-me de ofendido.

– Ouvi rumores de que você foi excessivamente rigoroso com os Canários enquanto os Sabiás deitavam e rolavam. — Ainda acusativa.

– Então você prefere acreditar em rumores que em mim? — Apelei para a chantagem emocional.

– Não estava acreditando, mas essa proposta agora me faz desconfiar que onde há fumaça há fogo. — Da acusação ao benefício da dúvida.

– Você me respeite. — Apelei.

– Dê-se o respeito você e diga aos seus amigos que eu não aceito. E muito me admiro de você achar que eu trabalharia para esse bando de corruptos. — De novo acusando, mas sem a mesma firmeza. A dúvida estabelecera-se.

Deu meia volta e se trancou no nosso quarto. Passei aquela noite rolando no sofá e com raiva de mim mesmo. Percebi que cometera uma insensatez de tal ordem que me arriscava a perder a confiança e o respeito de Lídia. Era preciso reparar aquele dano antes que ela resolvesse me abandonar.

No dia seguinte acho que a consegui convencer que não tinha do que me envergonhar. Dei-lhe explicações sobre a minha conduta, enfatizando que a culpa da revisão dos títulos eleitorais não ter sido ampla era do Tribunal que não fornecera os recursos humanos e materiais que eu solicitara. Jurei que não tinha praticado nenhum ato que desabonasse a minha conduta, que estava apenas sendo portador de um convite. Convite que deveria ter avaliado melhor, pois se ela, minha própria esposa, acreditava que a sua indicação era o preço pelo qual eu me vendera, coisas piores pensariam os que não me conheciam. Durante alguns dias ela ficou com a cara amarrada, remoendo, pesando na balança da sua consciência, de um lado o amor e a imagem que fazia de mim, do outro os rumores que ouvira e que acreditou verdadeiros devido àquele convite insólito e extemporâneo. A balança pendeu favoravelmente para o meu lado e o episódio entrou para o rol dos mal-entendidos.

Frustrara-se, assim, o meu projeto de dar uma ocupação digna e produtiva a Lídia e a possibilidade de que ela tomasse gosto pela política, o que poderia nos ser útil no futuro. Nos meus devaneios cheguei a imagina-la como sucessora de Epaminondas, depois sendo eleita deputada estadual, assumindo uma secretária do governo do Estado...

Naquele mesmo dia conversei com o prefeito eleito e lhe disse que pensara melhor no assunto e que achara não ser conveniente me expor desnecessariamente, que a nomeação de Lídia iria resultar em prejuízo da minha imagem ilibada. Ele me disse que achava uma pena. Mas a sua expressão era de satisfação: livrara-se de um compromisso que pensava ter que cumprir e passava a dispor de uma importante posição para compor a sua base de apóio na Câmara.

As lições que tirei deste episódio foram, equivocadamente, que jamais deveria envolver Lídia nas minhas ações e que, doravante, teria que agir com muito mais cuidado, sempre que me envolvesse em situações não éticas. Perdi, ali, a chance de aprender a priorizar a minha consciência em detrimento da minha ambição.

Três improdutivos anos perderíamos ainda naquele inferno sobre a terra. Três anos que gostaria de ver apagados da minha vida. Três anos de pó, calor, asfixia, monotonia e mediocridade.

 

 

 

 

- 10 -

 

 

Em 1983 fui promovido e transferido para Serra do Sapoti, uma comarca maior e mais próxima de Salvador. A notícia foi recebida, primeiro por mim, depois por Lídia, como uma benção divina. Em Vinhedo Novo vivêramos um pesadelo, foram, aqueles, os piores anos das nossas vidas.

Serra do Sapoti é uma cidade de médio porte, na época com uma população em torno de cinqüenta mil habitantes na sede do município e, aproximadamente, trinta mil na área rural, situada a cerca de 150 quilômetros de Salvador, com a qual se liga por estradas que, naquela época, tinham boa conservação. Isso me possibilitou manter dupla residência, em Serra do Sapoti e na capital.

Carlinhos, criado trancado em casa em Vinhedo Novo, sem praticamente nenhum contato com outras crianças, exceto nas ocasiões em que ficara com a mãe em Salvador, tornara-se um "bicho do mato", que chorava com a simples presença de estranhos. Era tempo de sociabiliza-lo e para isso foi matriculado no curso pré-primário para o ano letivo de 1984.

Para instalar a família, vendi, enfim, a casinha da Massaranduba, empregando o dinheiro como entrada em um apartamento de três quartos, um gabinete; uma suíte, sala com closet, living, varanda ampla e com bela vista para o mar, cozinha, dependências para empregados e duas vagas de garagem; na cobertura de um prédio recém construído a cavaleiro de um morro situado no extremo da rua Maranhão, na Pituba. Prédio de luxo, dotado de piscina, quadra de esportes, sauna e sistema de segurança monitorado por câmaras.

Consegui convencer Lídia a suspender o uso de anticoncepcionais, que ela passara a usar após o nascimento de Carlinhos. Disse-lhe que eu queria mais filhos para povoar o nosso novo lar. Aliás, "o nosso, verdadeiramente nosso, primeiro lar".

Hipocrisias à parte, eu queria Lídia sempre grávida ou tendo que se ocupar com crianças pequenas. Assim ela teria, na minha ótica estúpida, mais dificuldades para me trair e eu os argumentos de que precisava para impedi-la de ter a sua própria vida profissional, coisa com a qual ela ainda sonhava. Não foi por outro motivo que insisti para que engravidasse. Eu não queria que ela tivesse nenhum tempo livre quando Carlinhos começasse a freqüentar a escola. Eu não a queria independente, sujeita às cantadas que fatalmente ela receberia no ambiente eminentemente masculino de uma empresa. Canalha, foi isso o que fui. É isso que sou. Em Vinhedo Novo eu não lhe pedira isso porque é injusto colocar filhos no mundo para criá-los naquelas condições.

Em todas as ocasiões em que Lídia e eu não estivemos juntos, sofri o pesadelo de estar sendo traído, mesmo naqueles dias em que dividi a cama com Jussara; mais ainda nas temporadas que Lídia passou em Salvador, me deixando em Vinhedo Novo. Mas não existia nada, exceto o meu ciúme exacerbado, que indicasse aquela possibilidade.

A única vantagem financeira que auferira dos anos vividos nas comarcas de Ari Barroso e Vinhedo Novo, fora o fato de ter conseguido poupar uma parte das minhas remunerações, mas, com a necessidade de dupla residência, meus custos se elevaram além do meu salário e o saldo da poupança seria insuficiente para cobrir, por muito tempo, a diferença. Tornara-se necessário, portanto, buscar nova fonte de renda.

Aproveitando-me de que Antônio, um dos irmãos de Lídia, era, aos 29 anos, um vagabundo que abandonara os estudos e vivia às custas do meu sogro, coisa que preocupava toda a família, convidei-o para ser meu sócio em um mercadinho de frutas e verduras. Para investir no negócio separei metade da poupança e seu Oswaldo aportou, em nome do filho, igual quantia.

Como eu não poderia me dedicar ao negócio, nem concordava que Lídia o fizesse, apesar de que era o nome dela, e não o meu, que aparecia no contrato social; acertamos que Antônio teria uma retirada mensal a título de pró-labore e que dividiríamos o lucro, sendo que a parte dele seria usada para reembolsar o pai. Quitado o investimento, os lucros posteriores seriam aplicados na ampliação do negócio. Sendo solteiro e morando com os pais o pró-labore de Antônio era mais que o suficiente para as suas despesas pessoais.

Minha expectativa, levando em conta um perecimento de vinte por cento nas verduras e dez por cento nas frutas, era de um retorno do capital investido em pouco mais de um ano, posto que a margem bruta era de cinqüenta porcento sobre o preço de custo da mercadoria e as despesas correntes consumiriam cerca de vinte porcento do faturamento. A partir daí poderíamos abrir filiais em outros bairros. Seria, eu pensava, a minha volta ao comércio, agora pelas mãos de Antônio, e sonhava que em 5, no máximo em 10 anos, estaríamos em condições de começar uma rede de supermercados.

Obrigado a permanecer durante a semana em Serra do Sapoti, eu só dispunha dos finais de semana para verificar os números do mercadinho e, mesmo assim, sempre no afogadilho, pois Lídia me exigia assistência para Carlinhos, levando-o à praia, jardim-zoológico, parque de diversões e também para si, em noitadas as sextas e sábados.

– Amor, nosso filho precisa do pai e eu do meu marido. Antônio não é nenhuma criança, basta cumprir o planejamento. Ele tem que assumir a responsabilidade, afinal pra isso mesmo tem o pró-labore. E se precisar de ajuda ele fala. Ou você não confia nele? — Ela protestou, logo no primeiro sábado após a inauguração do mercadinho, quando falei e ficar em casa para analisar detidamente os balancetes diários dos primeiros cinco dias.

No final do primeiro mês de atividade do negócio, reunimo-nos eu, Antônio e seu Oswaldo, que ainda mantinha negócios em Ilhéus, na casa do meu sogro. A reunião, convocada por Antônio, tinha o propósito de pedir que aportássemos mais capital no negócio, com a justificativa de que havíamos superdimensionado a clientela e, em conseqüência, perdêramos por perecimento mais de cinqüenta por cento das verduras e quarenta por cento das frutas.

Confiando em Antônio, aportamos o capital pedido e concluímos que para evitar novos prejuízos só tínhamos duas alternativas: reduzir a oferta à metade, ou fazer investimento em publicidade para atrair uma clientela maior. Seu Oswaldo foi partidário da primeira alternativa, mais conservadora, alegando que a propaganda boca a boca dos clientes bem atendidos resultaria, paulatinamente, no crescimento do negócio até atingir a nossa expectativa inicial de demanda. Eu, mais apressado, ponderei que dado a grande dimensão das nossas instalações teríamos, com a redução na oferta, balcões e prateleiras vazias, dando aos consumidores a falsa impressão de precariedade do estabelecimento. Ficou para Antônio o voto de Minerva e ele optou por investirmos em publicidade.

Passamos, então, a discutir os meios para atingir a clientela. Antônio defendeu que fizéssemos veiculações em rádios, jornais e televisão, um disparate. Neste ponto foi vencido, pois tanto seu Oswaldo quanto eu, concordamos em que, pelo menos a princípio, deveríamos nos limitar a mandar imprimir folhetos para serem distribuídos nas residências situadas no raio de até um quilômetro do mercadinho. De tudo Antônio cuidaria.

No sábado da semana seguinte, eu, Lídia e Carlinhos estávamos indo para a praia quando, parados em um semáforo na Boca do Rio, recebemos um folheto publicitário, impresso em policromia. Os folhetos estavam sendo distribuídos por uma dezena de garotas, todas muito belas e vestidas com short e sutiã de biquíni. Empalideci quando vi que o folheto era do mercadinho. O semáforo ficou verde, arranquei o carro e passei o folheto para Lídia perguntando:

– Seu irmão enlouqueceu?

Ela examinou o folheto e me respondeu com outra pergunta:

– Não foi isso o que vocês combinaram?

– Não. Combinamos que seriam folhetos baratos e para distribuição nos domicílios próximos. Não combinamos contratar modelos para distribuí-los a mais de cinco quilômetros do mercadinho. Isso é jogar dinheiro fora. Não tem retorno. — Respondi, em tom ríspido de voz.

– Agora você não venha querer me atribuir a culpa. Eu já me ofereci, até pedi, para participar ativamente do negócio, você é quem não quer. — Devolveu-me amuada.

– Eu não estou lhe culpando de nada. — Tentei contemporizar — É melhor voltarmos, ele deve estar no mercadinho, preciso conversar com ele.

– Se você quer ir nos deixe na praia, vá conversar com ele, depois volte para nos buscar. — Ela ainda estava irritada.

– Pode deixar, converso com ele mais tarde. — Toquei para a praia.

Assim que cheguei da praia, antes mesmo de tomar um banho para tirar o sal, telefonei para seu Oswaldo, em Ilhéus. Ele não estava em casa, deixei recado pedindo que me desse retorno. Depois telefonei para Antônio e pedi que me viesse ver. Ele protestou, alegando que trabalhara o dia inteiro, enquanto que eu estava me refestelando, e que tinha compromisso inadiável. Só poderia vir no dia seguinte. Para evitar melindres familiares não o mandei ir tomar no cu, que é o que deveria ter feito, e, indignado, engoli a afronta.

Eu jantava quando seu Oswaldo me telefonou, relatei-lhe sobre o folheto e disse que convocara Antônio para esclarecer o motivo pelo qual agira de maneira diferente da que havíamos concordado, mas que meu cunhado, tendo compromisso, só viria me ver no domingo. Seu Oswaldo lamentou não poder vir imediatamente a Salvador e me pediu que o mantivesse informado de tudo. Assegurou-me que se fosse necessário tentaria vir na sexta-feira, antes não seria possível. Eu estava preocupado com o meu investimento, seu Oswaldo com o filho: aquela era, talvez, a melhor oportunidade que jamais tivera para encaminhar-se responsavelmente na vida.

No domingo, Lídia e eu resolvemos ir para a casa dos seus pais, lá conversaríamos com Antônio e depois levaríamos Carlinhos para a praia. Chegamos na casa da família de Lídia às nove horas e dona Vera nos informou que Antônio não dormira em casa e que ainda não chegara. Roberto, o irmão caçula, moço ajuizado que, na época, cursava o último ano de medicina, nos garantiu que Antônio estava na ilha de Itaparica, de onde só retornaria à noite.

Naquele domingo cumpri minhas obrigações de pai e esposo remoendo minha angústia. Antônio chegou em casa quase à meia-noite. Decidi amanhecer o dia no mercadinho, almoçar em casa e ir à tarde para Serra do Sapoti.

A explicação de Antônio foi que o custo de impressão em policromia era só um pouco mais caro que em preto e branco e que, ademais, sem o recurso das cores o folheto ficaria feio. Disse que mandara distribuir nos semáforos porque as pessoas que contratara para entregar nas residências estavam encontrando dificuldades para acesso aos prédios de apartamentos e que ele não confiava em deixar a distribuição a cargo dos porteiros. Para não perder o dinheiro gasto na confecção mandara distribuir os folhetos em semáforos, mas nos da Pituba e prometeu que iria verificar porque os estavam distribuindo na Boca do Rio. Aceitei a justificativa, voltei para casa, telefonei para seu Oswaldo conforme prometera, transmiti-lhe as explicações de Antônio, almocei e viajei para Serra do Sapoti.

Mais experiente do que eu. nos negócios, na vida e, sobretudo, nas malandragens do filho, seu Oswaldo não se dera inteiramente satisfeito com as explicações de Antônio, principalmente porque se alarmara com o fato dos folhetos estarem sendo distribuídos pelo que me parecera, e lhe informara, uma agencia de modelos, dado a beleza das garotas que eu vira. Telefonou para o filho e lhe pediu que detalhasse os custos de impressão e distribuição.

Na terça-feira seu Oswaldo me contatou por telefone em Serra do Sapoti pedindo que, se possível, eu viesse na quinta-feira para Salvador. Ele, no mesmo dia, estaria vindo de Ilhéus e queria uma reunião comigo, sem a presença do filho, na sexta-feira pela manhã, mas não me adiantou o assunto. Fiz o que me pediu. Na conversa que tivemos me mostrou que Antônio gastara em publicidade o valor equivalente ao do faturamento de quase um mês e desabafou:

– Meu filho é um irresponsável, Geraldo. Ele não pode estar no seu juízo perfeito. Se você permitisse que Lídia cuidasse da parte financeira eu ficaria mais sossegado.

– Lídia tem as suas ocupações, seu Oswaldo. — Eu argumentei.

– Quais ocupações?

– Com o Carlinhos.

– Que é isso Geraldo, vocês têm babá, meu neto já está na escola; o que Lídia mais tem é tempo sobrando e o que estou pedindo é que controle o negócio, não que fique todo o tempo no mercadinho. Ela ficaria somente com a incumbência de contatar e pagar os fornecedores, de gerenciar a conta bancária e de não permitir novos desatinos como este.

Eu não tinha argumentos racionais para contrapor e não atender o pedido do meu sogro. Concordei. Seu Oswaldo mandou chamar Lídia, que estava com a mãe na cozinha, para saber da sua disposição em aceitar suas novas atribuições.

– Eu posso começar hoje mesmo — respondeu alegre.

– Melhor não, quero primeiro conversar com seu irmão. Segunda-feira você começa.

Seu Oswaldo cuidaria de tudo. Desocupei-me do assunto: aproveitei para ir ao tribunal à tarde. No sábado seu Oswaldo me telefonou à noite para dizer que conversara com Antônio e que o filho se mostrara aborrecido, mas que aceitara dividir com a irmã a responsabilidade do negócio. Disse-me, ainda, que teríamos que colocar mais dinheiro para cobrir a despesa dos folhetos. O saldo da minha poupança esvaia-se rapidamente, eu precisava que o negócio começasse a gerar lucros e não novos prejuízos, mas não havia outra opção senão preencher um novo cheque.

À frente da gestão financeira, Lídia não demorou para descobrir que o seu irmão nos estava roubando. Notou que quando passava para arrecadar a féria no final do dia, os balcões quase sempre estavam vazios, um sinal de que praticamente todo o estoque fora vendido; mas, em contrapartida, o valor apurado, que lhe entregavam, era consideravelmente inferior ao estimado. Desconfiada, um dia aproveitou a ausência de Antônio e inquiriu Joana, a moça responsável pela caixa registradora. Não tendo como mentir, e com medo de perder o emprego, ela contou a Lídia que Antônio lhe determinara que separasse para ele, diariamente, um terço do dinheiro, instruindo-a, que se fosse perguntada por alguém, a dizer que todos os dias jogavam fora grandes quantidade de legumes e frutas que se deterioravam na falta de fregueses.

– Fiquei morrendo de pena da moça e de raiva de Antônio. A pobre coitada chorava o tempo todo com medo que a acusassem de ser ela a ladra. Ela a havia ameaçado de usar desse estratagema, caso ela não ficasse calada. — Lídia me contou depois.

Na noite daquele mesmo dia Lídia me telefonou comunicando o que houvera e disse que ligaria para o pai pedindo que ele viesse a Salvador para adotar a providência que julgasse necessária. Pediu-me que não fizesse nada, queria evitar que eu tivesse atrito com o seu irmão:

– Papai cuidará de tudo. — Acalmou-me

Perdida a confiança no filho, seu Oswaldo me pediu para escolher entre assumir o negócio sozinho, com Lídia à frente ou em liquidarmos o negócio vendendo-o, caso em que me garantiria a devolução de todo o montante que eu investira, assumindo sozinho o prejuízo da empreitada. Foi essa a opção que escolhi, apesar da oposição de Lídia que queria manter o mercadinho. Foi um erro, deveria ter atendido ao seu pedido, mas meu ciúme sobrepujou-se à razão.

Somente meses depois, quando morreu devido a uma overdose, soubemos que Antônio era viciado em cocaína. O que não sabemos é se o vício precedia a nossa sociedade, se se iniciara com o dinheiro que nos roubou ou se foi uma conseqüência de ter perdido o respeito dos que mais o amavam.

Findo aquele sonho e não enxergando nenhum investimento adequado na atividade comercial para complementar a minha renda, fui obrigado a usar o dinheiro da poupança e já começava a me endividar e a examinar, sem que Lídia soubesse, a possibilidade de permutar o apartamento por um menor, quando me chegou às mãos um processo cível onde um empresário representava contra o antigo dono da sua empresa, a SAPOBRAS, uma grande fábrica, a maior exportadora mundial de doces de sapotis em conserva.

O reclamante postulava, judicialmente, a suspensão dos pagamentos das parcelas mensais de aquisição da empresa, em razão de que uma auditoria, que contratara, apurara que o passivo era superior àquele declarado no contrato de compra e venda.

Analisando o processo, verifiquei que o contrato de compra e venda da empresa detalhava os passivos trabalhistas, bancários, tributários e com os fornecedores; que aqueles passivos foram abatidos no ativo, que, no caso, era o valor que o reclamante aceitava pagar pela empresa; e que, do saldo restante, o reclamante pagou vinte por cento, no ato da assinatura do contrato, e os outros oitenta por cento, correspondentes a cerca de cinco milhões de dólares, deveriam ser pagos em oito parcelas mensais de seiscentos e vinte e cinco mil dólares, cada uma.

Antes mesmo do pagamento da primeira parcela mensal, um contador, pessoa da confiança do reclamante, efetuara um levantamento do passivo e constatara que havia uma pequena diferença no valor declarado como passivo de fornecedores; mas, e aqui estava a polêmica, que, no passivo declarado, havia que se constar ainda, e foram omitidas, as contingências trabalhistas. Ou seja, os valores reclamados em ações trabalhistas por antigos empregados, e que, futuramente, a empresa poderia ser condenada a pagar.

Essas indenizações "podem alcançar um montante superior ao do valor da empresa, se todas resultarem em condenação". Era o que dizia um levantamento realizado, nas diversas esferas da Justiça do Trabalho, por advogado do reclamante.

O reclamado, por sua vez, aceitava deduzir, do valor a receber, a pequena diferença apurada no passivo com fornecedores e alegava, no que se refere às contingências trabalhistas, que "não procede desconta-las, nem ao passivo pertencem, desde quando não há sentenças condenatórias transitadas em julgado". Assim sendo, "requeria e aceitava firmar acordo, nos autos do processo cível, responsabilizando-se por arcar, no devido tempo, com toda e qualquer indenização das reclamações trabalhistas em curso contra a empresa".

O reclamante não aceitava tal acordo com a alegação de que "não há garantias de que o reclamado, o antigo proprietário da empresa, venha dispor, no futuro, de meios financeiros para responder pelas referidas indenizações e que, sendo soberana na esfera que lhe concerne, nada obriga a Justiça do Trabalho a, em assim sendo, aceitar o acordo proposto pelo reclamado, com o que o novo proprietário será obrigado a assumir o ônus indenizatório de empregados que para ele não laboraram".

Eu estava convencido que a melhor solução para o caso seria que as parcelas contratuais, abatendo da primeira a vencer a diferença do passivo com fornecedores, fossem depositadas em conta judicial, nos valores e prazos do contrato e que, à medida das decisões da Justiça Trabalhista, caso a caso, fosse, do montante depositado, sendo liberado o valor de cada indenização, em caso de condenação e, no final de todos os processos, que o saldo remanescente desses depósitos judiciais, monetariamente corrigido na forma da lei, fosse liberado para o reclamado. Assim estariam as partes cumprindo com as suas obrigações. Tal medida provocaria, por parte do reclamado, interesse em propor acordos nas reclamações trabalhistas, com o objetivo de levantar mais rapidamente o saldo do valor depositado em juízo, o que, em tese, beneficiaria os antigos empregados.

Nessa linha de raciocínio estava preparando a sentença quando fui procurado pelo advogado do reclamante que, sem jogar muita conversa fora, propôs me pagar, por uma sentença favorável ao pleito do seu cliente, mensalmente, em espécie, dez por cento de cada uma das oito parcelas. Pedi vinte por cento. Acertamos por quinze, o que significou oito parcelas de noventa e três mil dólares, cada uma. De uma só tacada conquistei a minha independência financeira. Com a primeira parcela, quitei antecipadamente o financiamento do apartamento. Do restante, guardei trezentos mil dólares em cédulas de cem dólares e fiz grandes investimentos em títulos ao portador.

Houve recurso para o tribunal, mas a minha sentença foi mantida.

 

 

 

 

- 11 -

 

 

Recebidas todas as parcelas do suborno, eu me sentia frustrado porque não podia gozar a fortuna, que agora dispunha, sem despertar suspeitas em Lídia. Ela nem sabia que eu já quitara o financiamento do apartamento, como poderia justificar-lhe um cruzeiro marítimo nas férias, a aquisição de uma chácara ou uma casa de praia: luxos que eu desejava, luxos com os quais sonhara toda a vida? Não consigo entender as pessoas que têm dinheiro e vivem com um padrão de vida bem inferior ao que poderiam gozar. São os que gostam do dinheiro pelo dinheiro, como um fim e si mesmo, e não como um meio para a realização dos seus desejos.

A solução que se me apresentou, comprar um bilhete de loteria premiado, não foi original; soube-se publicamente, poucos anos depois, que políticos corruptos utilizaram-se deste artifício para a lavagem de dinheiro das comissões e propinas recebidas. Entre esses, louvo-me aqui de informações publicadas pela imprensa, havia um deputado federal pela Bahia, em episódio conhecido como "Os anões do orçamento", que disso se utilizou centena de vezes. Para mim a oportunidade surgiu, e a idéia me ocorreu, quando o telejornal que eu estava assistindo noticiou que o ganhador de um prêmio da loteria federal fizera o jogo em uma certa casa lotérica de Serra do Sapoti, exatamente aquela onde eu costumava fazer as minhas apostas.

Na mesma hora telefonei para João, o agente lotérico, e perguntei se ele já sabia quem era o "feliz ganhador". Ele me respondeu que ainda não sabia, mas que esperava ser contatado, exceto na hipótese do apostador dirigir-se diretamente à Caixa Econômica Federal, lá mesmo na agência de Serra do Sapoti ou em Salvador. Pedi-lhe que me avisasse, imediatamente, se fosse procurado e que, neste caso, me informasse qual era o paradeiro da pessoa. Pedi, ainda, que mantivesse absoluto sigilo, dizendo que o meu interesse decorria da necessidade de apurar uma denúncia que eu recebera, de um cidadão que se dizia dono do bilhete, mas que alegava ter sido assaltado e que, em sendo isso verdade, o bilhete estaria na posse dos ladrões.

Naquela mesma noite, por volta das vinte e uma horas, João me telefonou. O ganhador, ele me disse, era um lavrador analfabeto, de nome Lázaro, que tinha um pequeno sítio próximo à cidade e estava, naquele momento, em sua residência, buscando informações para o resgate do prêmio. Asseverou-me que era pessoa honesta, ou nisso ele acreditava porque fazia, semanalmente, uma fezinha na sua agência. Eu o instruí dizendo que pedisse ao ganhador que me esperasse, e que o tranqüilizasse transmitindo-lhe que eu só queria ter uma conversa com ele, no seu próprio interesse.

Na casa do agente lotérico, perguntei ao lavrador (um senhor sexagenário, mas hirto, descalço, calça velha de brim remendada nos joelhos com as barras enroladas deixando à mostra as canelas, camisa ordinária de gola puída e faltando alguns botões, olhos submissos, basta cabeleira branca) se ele me conhecia, se sabia quem eu era.

– O senhor é o doutor juiz, seu João já me disse. — Respondeu.

– Então o senhor sabe que pode confiar em mim. — Procurei acalmá-lo.

– O senhor pode confiar no doutor — João intrometeu-se.

– Eu confio no doutor. — o Sr. Lázaro, cabisbaixo, trêmulo, disse isso como se estivesse dizendo a si mesmo.

– Preciso conversar com o senhor, vamos lá pra casa — Eu disse ao lavrador, e a seu João disse que fizesse segredo de tudo.

A sós com o Sr. Lázaro inventei uma nova estória. Disse-lhe que eu estava informado da atuação, na região, de uma quadrilha especializada em seqüestros, e que ele, agora, com tanto dinheiro, era uma vítima em potencial. Sendo minha obrigação evitar que qualquer coisa de mal lhe acontecesse, ele deveria acatar as minhas sugestões. Perguntei se mais alguém sabia que ele era o dono do bilhete premiado. Ele disse que além de mim e de seu João só quem sabia era a sua mulher. Propus-lhe, e ele aceitou, irmos até o seu pequeno sítio, buscar a esposa, seguindo de lá para Salvador onde ficariam em segurança.

Antes de sairmos, usando o aparelho do quarto para que o Sr. Lázaro não me ouvisse, telefonei para Lídia e perguntei se ela tinha visto na televisão que um apostador de Serra do Sapoti era o único ganhador do prêmio da loteria. Ela disse que não, não tinha visto. Eu informei que eu era o dono do bilhete premiado e que chegaria em casa ainda naquela madrugada.

Dona Evangelina, a esposa do lavrador, assustou-se quando viu um carro na cancela do sítio e soltou os cachorros, felizmente eu ficara dentro do automóvel; seu Lázaro enxotou-os para o canil e me convidou a entrar. Era uma casinha simples mas asseada. Ele me pediu que explicasse a situação à sua esposa; fi-lo e ela mais que depressa foi vestir a melhor roupa e preparou uma mala com as mudas que necessitariam para dois dias fora.

No percurso até o sítio, seu Lázaro já informara-me que dos onze filhos que botaram no mundo sete sobreviveram, três homens e quatro mulheres, "todos vivendo por aí nesse mundão de Deus", nenhum em Serra do Sapoti, mas que tinham o endereço de todos que correspondiam-se com a mãe.

– Agora vou poder fazer por eles.

O pobre coitado estava assustadíssimo, na estrada imaginou que estávamos sendo seguidos. Não fiz questão de tranqüiliza-lo: quanto mais amedrontado pela possibilidade de seqüestro, eu pensava, menos trabalho vai me dar.

Em Salvador instalei-os em um bom hotel, causando espanto na recepção, o que me obrigou a ter uma conversa ríspida com o gerente do turno. Identifiquei-me e o ameacei de prisão por discriminação. Desculpou-se e mandou instalar os novos hóspedes em uma suíte. Fui para casa, onde Lídia, felicíssima, me esperava acordada. Não consegui dormir e ao amanhecer fui ao hotel, tendo então convencido o Sr. Lázaro a me confiar o bilhete, dizendo que eu receberia o dinheiro e o traria para ele. O lavrador fez alguma resistência, queria ir comigo, argumentei que a televisão estaria lá para o filmar, e que se isso ocorresse ele nunca mais teria sossego. A esposa me ajudou a convence-lo: ela estava deslumbrada com o conforto da suíte e pretendia passar o resto do dia imersa em espuma aromática na banheira, como vira, talvez, alguma atriz de telenovela.

Na Caixa Econômica o gerente me comunicou que um valor tão elevado teria que ser pago com cheque administrativo e insistiu para que eu deixasse o prêmio aplicado naquela instituição financeira. Exigi que o cheque fosse emitido imediatamente e deixei claro que o processaria caso divulgasse que eu era o ganhador. Ele deveria, caso inquirido pela imprensa, dizer que o premiado fora um lavrador pobre que queria ficar anônimo. O que era, diga-se de passagem, absolutamente verdadeiro.

Depositei o cheque emitido pela Caixa Econômica no banco onde mantinha algumas das minhas aplicações e pedi a emissão de um cheque administrativo, no mesmo valor, tendo como favorecido o Sr. Lázaro. Foi este cheque que entreguei ao lavrador com a recomendação de que vendesse o seu sítio o quanto antes e que se mudasse de Serra do Sapoti, além de continuar mantendo segredo sobre o prêmio. Quando estivesse instalado em outra cidade, só então, dona Evangelina deveria escrever para os filhos comunicando-os da ventura.

Fui visitado por seu Lázaro, na casa de Serra do Sapoti, cerca de um mês depois. Veio para me dizer que estava de mudança para Itapetinga onde comprara uma fazenda para criar gado e que queria me agradecer pelo que eu fizera por ele. Presenteou-me, doce ironia, com uma caixa de compota de sapotis "for export", da SAPOBRAS.

– Se não fosse por sua ajuda doutor, talvez os bandidos tivessem até matado a gente pra pegar o bilhete. O senhor é um homem muito bom. Deus lhe pague. — Despediu-se.

A Lídia eu disse que exigira absoluto sigilo, da Caixa Econômica, sobre eu ser o premiado. O que não disse ela, foi que, se, a qualquer tempo, surgisse alguma suspeita sobre a origem da fortuna que, enfim, comecei a usufruir, eu teria como provar ter sido premiado na loteria, pois, além de ter guardado uma cópia xerox do cheque administrativo emitido em meu favor, eu poderia invocaria o testemunho do gerente da Caixa Econômica.

Favorecendo-me contava, ainda, com o direito que tem qualquer cidadão ao sigilo bancário. A única maneira de incriminar-me seria através de um improvável mandato judicial para verificação da minha movimentação financeira, onde apareceria o débito do cheque emitido a favor do Sr. Lázaro, bem como que eu já dispunha, anteriormente, de vultosas aplicações. Por via das dúvidas, três meses depois encerrei toda a minha movimentação naquele banco.

Lídia engravidou em outubro de 1984, quase seis anos após o nascimento de Carlinhos. Nessa mesma época fui procurado por tio Gerson, então com mais de 65 anos, que voltara de São Paulo onde viveu quase quarenta anos. O irmão de meu pai era um estranho para mim, não tínhamos qualquer contato: nem mesmo quando papai morreu, fato de que fora prontamente informado por minhas tias, dignou-se a me mandar uma carta, um cartão, um telegrama de condolências.

Eventualmente, nas minhas visitas a Santo Amaro, ouvia minhas tias comentando notícias suas. Quando da portaria anunciaram, pelo interfone, que um meu tio pedia autorização para subir, pensei que era tio Genésio, mandei que o fizessem vir e fui para a sala espera-lo. Tomei um susto quando vi na minha porta aquele senhor que eu não conhecia, apesar de se parecer com papai, só que quase careca. Recebi-o friamente, mas em respeito à memória de papai convidei-o a entrar e o apresentei a Lídia e a Carlinhos.

– Vovô, você é vovô? — Carlinhos perguntou, talvez reconhecendo naquele senhor os mesmos traços do retrato de papai que tenho emoldurado no gabinete do apartamento.

– Sou o irmão de vovô — Ele respondeu afagando a cabeça do meu filho.

Lídia, percebendo que eu estava desnorteado, pediu que ele se sentasse, disse-lhe que ficasse à vontade e perguntou se aceitava um uísque. Tínhamos acabado de jantar e eu já estava servido da primeira das duas doses, que me habituei a tomar diariamente após a ceia. Ele recusou a bebida e disse que tinha fome. Lídia mandou colocar a mesa. Tio Gerson jantou e depois me pediu que tivéssemos uma conversa a sós. Fomos para o meu gabinete.

Tio Gerson me procurou para pedir ajuda. Contou que, em São Paulo, trabalhara em muitas atividades mal remuneradas, se casou, teve três filhas, enviuvou e que, agora, velho, estava sozinho e doente. Voltou para a Bahia após ser despedido de um prédio onde foi porteiro nos últimos dez anos. Nenhuma das filhas tinha condições de ajuda-lo e, vivendo com uma aposentadoria de um salário mínimo, não tinha como pagar aluguel, alimentar-se e comprar os remédios de que era obrigado a fazer uso diário. Disse que nem mesmo sabia o que eu poderia fazer por ele, mas, que tendo sido informado, que eu estava bem de vida, pelas minhas tias em Santo Amaro, onde tinha ido pedir abrigo, resolvera me procurar.

Estive tentado a lhe jogar na cara o fato de nunca ter se interessado por mim, mas, da parede papai nos observava. Disse-lhe que eu não podia fazer muito, mas que assumiria a responsabilidade por lhe fornecer os medicamentos de que necessitasse. Que ele se instalasse com as tias em Santo Amaro. Com casa pra morar e os remédios garantidos, a sua aposentadoria seria suficiente para se manter. Dei-lhe algum dinheiro e o levei à porta.

Decididamente não posso me incluir entre as pessoas que cultuam indefinidamente e efusivamente os laços familiares, mas nunca perdi contato com minhas tias de Santo Amaro, visitando-as ocasionalmente; nem com tio Genésio. Este herdou o negócio do sogro em Maragojipe, mas vive pobremente porque teve mais filhos e filhas do que se pode contar com os dedos; apesar disso é um velhinho bonachão, invariavelmente semi-embriagado, mas com uma saúde de ferro. Há de viver mais de cem anos.

Nenhuma das irmãs de papai se casou. Tia Guiomar, a mais bem apetrechada para conquistar marido, nunca gostou de homem. Tia Gesilda teve alguns namorados após o rompimento do noivado com Anísio, mas parece que nenhum se animou a leva-la ao altar. Tia Gislene nunca teve namorado devido à doença que a vitimou na infância. Em 1984, quando tio Gerson esteve lá em casa, tia Gislene já houvera falecido; viviam ainda, cuidando da mesma lojinha que herdaram, tias Gesilda e Guiomar. Hoje resta somente tia Guiomar. Tia Gesilda faleceu em 1995 e tio Gerson em 1992.

Quanto à tia Amélia, a irmã de mamãe, na condição esposa de militar, viveu mudando de cidade, ao sabor da vontade do exército. Até morrer, em 1972, ela me mandava cartões no natal, e telegramas, nas datas do meu aniversário. Do seu esposo, após o falecimento de minha tia, o que sei é que o seu nome é citado, como torturador de presos políticos durante a ditadura militar, em um livro publicado nos anos de abertura política, que Lídia leu recentemente. Na época ela me perguntou se aquele Henrique não era o tio de que lhe falara; eu disse que não.

Em dezembro de 1984, poucos dias antes de partirmos para um mês de férias na Europa, realizando um dos meus sonhos, os exames confirmaram a gravidez de Lídia. Deus atendeu as minhas preces com um ano de atraso. Nesse período cheguei a pensar que ela não suspendera de fato o uso de anticoncepcionais.

Na Europa visitamos Portugal, Espanha, França, Itália, Áustria, Iugoslávia e Grécia. Sendo inverno no hemisfério norte, preferimos um roteiro que não incluísse os países do norte, de clima mais frio.

Foi em Florença, Firenze como se diz em italiano, cidade berço da Renascença, que voltei a pensar na possibilidade de escrever um livro. O que imaginei, em plena Piazza della Signoria, fotografando uma cópia que lá existe do Davi de Michelangelo, foi fazer um livro, rico em ilustrações, com as minhas impressões de viagens. Eu pensava em bancar uma edição, pequena, mas luxuosa, que distribuiria com os amigos e, principalmente, para as autoridades do judiciário. Mas me lembrei de Madalena, que um dia me alertou para os riscos da vaidade. Não me recordo exatamente quais as palavras que usou, mas ela disse que o vaidoso sempre se torna vítima dos invejosos e de si próprio, porque se deixa cegar pelos elogios fáceis, tornando-se vítima dos bajuladores. O risco de me deixar iludir pelos áulicos, eu não corro; mas considerei o perigo de atiçar os invejosos, que os há à mancheia entre os meus colegas, arriscando-me a sofrer uma devassa nas minhas finanças.

Cheguei a escrever o texto do livro e a separar cerca de 150 slides para ilustrá-lo. Todo este material está guardado, em uma pasta no armário do meu gabinete. Só desisti completamente do projeto de lança-lo quando resolvi reunir estas memórias da minha turbulenta existência.

"Cesteiro que faz um cesto, faz um cento", sabendo disso, o Dr. José Antônio, advogado da SAPOBRAS e de outras grandes empresas da região, sempre tinha alguma causa que me oferecia algum dividendo, mas nenhum da mesma monta. Cego pela ambição desmedida, aceitei continuar a vender minhas sentenças nos processos sob o seu patrocínio, mas, em um momento de lucidez, preocupado com a possibilidade de cometer algum deslize que pusesse em risco a minha reputação e com ela, talvez, todos os meus bens, resolvi que era hora de parar.

Como não dou laço sem nó, instalei câmaras ocultas em meu gabinete e gravei uma proposta de suborno de José Antônio, ele só se deu conta de que algo estava errado quando repeli violentamente a proposta, ameaçando-o de prisão em flagrante.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, acionei o mecanismo para parar a gravação e lhe disse que gravara e filmara tudo, mas que ele não se preocupasse, aquilo era uma salvaguarda que nunca seria exibida, se ele soubesse manter sigilo sobre as nossas negociatas passadas e comuniquei-o que, doravante, seria imparcial nos meus veredictos. José Antônio ficou lívido, mas, percebendo que não me demoveria, pediu licença e se retirou. Desde então posso ter cometido erros de julgamento, mas todas as minhas sentenças posteriores foram prolatadas em consonância com os textos legais e isenção na sua interpretação.

 

 

 

- 12 -

 

 

Tão logo retornamos da Europa comprei uma casa de praia em um bom loteamento em Caixa Pregos, na ilha de Itaparica, não em Buraquinho como me prometera na adolescência, realizando, assim, outro dos meus sonhos. Escolhi Itaparica pela comodidade de ir para lá direto de Serra do Sapoti, sem necessidade de passar por Salvador e porque a praia, a não mais que cinqüenta metros da casa, é das mais bonitas que conheço, se prestando bem para as crianças, já que raramente apresenta ondas muito fortes. Carlinhos estava com seis anos e Lídia grávida, quando comprei a casa, mas, para ela, a travessia pelo ferry-boat não iria se tornar um problema, pois, sendo matutina a aula de Carlinhos, combinamos que ela atravessaria na sexta-feira à tarde, antes que se formasse fila. Com o tempo deixou de ir usando o seu carro, preferindo tomar táxi, tanto em Salvador quanto na ilha.

Vanessa, minha princesinha, nasceu em quinze de julho de 1985, com boa saúde e de parto normal, Carlinhos cursara, no ano anterior, o pré-primário, após um difícil período de adaptação na escola, devido a sua natureza arredia, mas tornara-se uma criança alegre e participativa superando as nossas mais otimistas expectativas.Tudo me indicava que, a partir daí, poderíamos ter uma existência pacata, não isenta de contrariedades, coisa impossível, mas onde os momentos de alegria predominassem. Mas paz é um sonho que o dinheiro não compra e a minha sina sempre foi viver em sobressaltos.

No verão do ano seguinte estávamos passando as férias na ilha. Não me lembro por qual motivo eu tinha vindo a Salvador. Quando voltei Carlinhos estava no jardim, jogando bola, com duas outras crianças da sua faixa etária, dois meninos que Lídia me informou serem filhos de um casal que conhecera na praia, naquela manhã:

– São pessoas muito simpáticas, têm casa aqui mesmo no loteamento, as crianças fizeram amizade e Carlinhos não queria desgrudar dos meninos e era hora de voltar porque o sol já estava ficando muito forte pra Vanessa...

– Então pra satisfaze-lo você então os adotou. — Eu completei brincando.

– Pedi aos pais que os deixassem vir conosco. Chamam-se Felipe e Gabriel. Parecem-me crianças bem comportadas.

– É bom que ele tenha companhia da mesma idade. Assim deixa a irmã sossegada. — Atormentar a irmãzinha, tomando-lhe os brinquedos, fazendo-a chorar, era, nesses dias, o maior prazer de Carlinhos, que ainda se ressentia de ter perdido a exclusividade das nossas atenções.

O imprevisível aconteceu quando a mãe foi buscar as crianças e Lídia me chamou para as apresentações. Era Bárbara. O mesmo radiante sorriso; os mesmos olhos verdes; a mesma pele morena; o mesmo cabelo negro, agora cortado curto; um pouco mais cheia de corpo, sem dúvidas, mas mesmo assim um corpinho apetitoso. Surpreso, talvez pasmo seja um termo mais adequado, meu coração acelerou e devo ter descorado. Ela percebeu o meu ânimo e fingiu não me ter reconhecido:

– Muito prazer. — Ela disse me estendendo a mão. Eu pensei, meu Deus, ela continua linda e como consegue disfarçar bem, ninguém que não soubesse perceberia que me conhece.

– O prazer é meu. A senhora tem casa aqui há muito tempo? — Perguntei cerimonioso, já recomposto do assombro.

– Compramos recentemente. Este é o nosso primeiro verão aqui e vocês são os primeiros vizinhos que conhecemos. — Ela me respondia, mas era pra Lídia que olhava.

– Será um prazer conhecer também o seu marido; apareçam qualquer hora dessas. — Falei, dando-lhe a entender que não a queria perder de vista.

– E então, porque vocês não vêm jantar hoje conosco? — Lídia, sempre cordial, convidou.

– Vou falar com o Marcelo, se ele concordar viremos. — Bárbara chamou os filhos, se despediu e foi pra casa.

Quando ela saiu, Lídia me perguntou se essa Bárbara não era a mesma que fora minha namorada. Eu disse que não, que a minha Bárbara era muito mais bonita que aquela e inquiri:

– Mas por quê você está perguntando isso?

– Bobagem minha, foi um pensamento bobo que passou na minha cabeça, mas já foi embora. — Respondeu gesticulando, passando as mãos acima da cabeça, como se fossem suas mãos o pensamento bobo.

– A minha Bárbara era mais bonita que essa, mas você é mais bonita que as duas juntas. — Galanteei.

Passei o resto da tarde matutando qual seria o motivo de Bárbara ter fingido não me conhecer. Teria sido para evitar ciúmes em Lídia ou no seu esposo? Talvez. A outra hipótese, eu pensava e desejava que fosse a correta, era que, ao me ver, ela tenha sentido despertar a antiga paixão. E eu? Por que também fingi que não a conhecia? Essa resposta eu sabia. Fingi por nunca ter conseguido saciar o tesão por ela e, ao revê-la, a indomável vontade de possuí-la despertou com a mesma insana fúria da adolescência. Nos nossos cinco anos de namoro ela se me negou. Talvez, agora, surgisse uma nova oportunidade, desde que Lídia de nada suspeitasse.

Bárbara e Marcelo chegaram as oito da noite. Antes do jantar tomamos um vinho branco na varanda, ocasião em que fiz muitas perguntas a Marcelo, sobretudo sobre a sua ocupação e falei das minhas atividades profissionais; procurando localizar os assuntos sempre no presente, evitando que surgisse da conversa, por descuido meu, ou dela, qualquer evidência de que Bárbara e eu éramos velhos conhecidos. Notei que ela, focando seu interesse nos assuntos pertinentes à criação dos filhos, (escolas, doenças infantis, babás), tinha idêntica preocupação.

Naquela noite, bem como nos dias subseqüentes que encontramo-nos, na praia e em um jantar de retribuição que nos fizeram, não tive oportunidade de estar a sós com ela. Isso só viria ocorrer, mais de uma semana depois. Lídia acabara de sair, fora ao supermercado levando Vanessa e deixando Carlinhos comigo, quando Bárbara chegou trazendo os seus filhos para brincarem com o meu. As crianças ficaram no jardim e eu lhe pedi que entrasse. Incontinente, tomei-a nos braços e beijei-a. Ela fez uma pequena resistência, mas rendeu-se.

Temendo que Lídia, por qualquer motivo, retornasse antes do previsto, não a levei para o quarto de hóspedes, como cheguei a pensar em fazer. Sentamo-nos na poltrona da sala, falei-lhe de mim, e ela me contou sobre si, desde o rompimento do nosso namoro.

Disse-me que, na viagem de férias na fazenda do tio, houvera sido estuprada pelo primo e, convicta de que eu não a aceitaria, se soubesse que perdera a virgindade, inventou a estória de ter se apaixonado. Ficou magoada porque eu não aceitei a sua amizade, que era a forma que imaginara para me ter ao seu alcance, e, quem sabe, com o correr dos acontecimentos, para que reatássemos o namoro. Apesar da mágoa, compreendera-me e arrependera-se de não me ter contado a verdade. Ficou sem namorar mais de dois anos até se deixar vencer pela insistência de Marcelo, com quem estava casada há dez anos. Não o amava. Nunca o amara. Nunca deixara de me amar. Foi, resumidamente, o que me falou. Fiz-lhe um breve resumo da minha vida, mas dela vocês já sabem bem mais que o quê falei a Bárbara.

Combinamos que nos encontraríamos, clandestinamente, após o veraneio, sempre que eu pudesse vir a Salvador em dias úteis da semana, para isso me deu o telefone da sua casa e os horários em que eu poderia ligar, ressalvado que "se você ouvir voz de homem é Marcelo, desligue sem dizer nada". Encontrarmo-nos, a sós, lá na ilha, seria perigoso, concordamos com isso, pois, tanto ela quanto eu, sobretudo eu, não cogitávamos romper os nossos casamentos. Agora ela precisava ir, Marcelo já estaria preocupado com a sua demora.

Devido a não residir, na época, em Salvador, onde eu não costumava vir durante a semana, seriam poucos os nossos encontros, e foi preciso esperar até meados de março para ter o primeiro e, portanto, para a consumação dos meus mais remotos desejos sexuais, antes apenas mitigados, com Madalena, com Jussara e com outras mulheres, algumas cujos nomes nem me recordo. Com Lídia não. Lídia nunca foi objeto de transferência. Estando com Lídia, Bárbara não me voltava à lembrança. Lídia pertence a um outro universo erótico e amoroso. É como se em mim existissem duas entidades ou personalidades distintas, que nunca se sobrepujam, uma amando Bárbara, a outra amando Lídia.

O leitor, especialmente o leitor isento de uma moralidade construída no apego religioso à fidelidade masculina no casamento, há de querer saber onde está o sobressalto na minha vida, antes referido, que, decerto, na sua ótica, não se configura no mero estabelecimento de uma relação extramatrimonial, coisa corriqueira e quase tanto natural quanto alternar goles de água com goles de vinho, ou, para fazer uma analogia mais brasileira, comer feijoada no almoço e lagosta no jantar. Analogia de brasileiro rico, é obvio, que lagosta é para poucos. Fiquei numa calça justa dizendo isso, porque senti inevitável a comparação: Bárbara é a feijoada; Lídia a lagosta.

Entre esses leitores eu me inseriria se estivesse na cômoda posição de quem lê as venturas e desventuras, sobretudo desventuras, alheias. Não que eu lide com isso, a infidelidade conjugal, com muita facilidade, não lido, nunca lidei. Sempre fui vítima, nessas ocasiões, de um irracional sentimento de culpa. Mas estabelecido está que "em se lavando limpo fica" e que ao homem é dada essa prerrogativa, a de atender aos apelos da carne fraca, e, de transcendental importância, a de não se engravidar. Ocasiões, essas, quase me perco, da qual, não raras vezes, beneficia-se também a mulher, dita traída, pois, normalmente, nessas ocasiões, o marido se torna mais atencioso, alegre. Não sei do que reclamam as que reclamam. Ademais, essas venturas e desventuras não são d’outrem, são as minhas e pimenta no dos outros é refresco, no nosso arde pra caralho.

Estavam, portanto, com relativa razão os leitores que perguntavam pelos sobressaltos, mas a razão lhes faltará quando souberem, e saberão agora, que Marcelo era vasectomizado e que Bárbara, não adotando nenhum cuidado anticoncepcional, engravidou após o nosso quarto ou quinto encontro.

Foi em Julho que ela me avisou que estava com a menstruação atrasada e só então fiquei sabendo da vasectomia do seu esposo e que ela, não sei por quais cargas d’água, não vinha tomando as precauções que das amantes, namoradas e afins se espera, mas às quais não se deve confiar, porque há as que deixam tudo ao Deus dará e Ele termina dando mesmo, fazendo cumprir inapelavelmente a divina ordem, que para garantir a preservação da espécie, determina: "crescei e multiplicai-vos".

Entrei em pânico, apesar de ainda esperançoso que fosse um rebate falso, que o mênstruo viria a seguir. Não foi assim que aconteceu, Bárbara fez os exames e a gravidez estava confirmada. Ainda aquele leitor, para o qual tudo se resolve com uma simplicidade aritmética, há de dizer: "faça-se o aborto", tivesse feito isso a sua mãe e ele não estariam aqui pensando asneiras, por isso, nisto, com ele eu não concordo, sou visceralmente contrário ao assassínio, seja por qual causa for. Bárbara tem os mesmos cristãos princípios. O caos, não a luz no fim do túnel, estava à vista.

Acusei-a de ter engravidado deliberadamente para forçar que eu a assumisse, rompendo com Lídia. Ela jurou que não e disse que me liberava de qualquer compromisso com ela e com a criança, mas que, inevitavelmente, Marcelo a abandonaria, só temia alguma atitude violenta porque ele não tem a índole do corno manso.

Bárbara estava sendo sincera, jurou pela alma de Pedrinho, e ela não o faria se estivesse mentindo.

Teríamos dois, no máximo três meses, até que já não fosse mais possível disfarçar a barriga com artifícios que somente as mulheres sabem usar, (motivo pelo qual os omito), para encontrar uma solução não traumática, se houvesse alguma. Diga-se, não de passagem, que a sua separação era dada como coisa certa, portanto, traumático ou não traumático, no caso, era a forma como se daria o inevitável.

Contratei Júlio Barbosa, um excepcional investigador, para devassar a vida de Marcelo. Esperava encontrar uma possível amante, fornecendo a Bárbara provas irrefutáveis que ela usaria para expulsa-lo de casa. Ela adorou e elogiou a idéia. Quis a providência que, em menos de quinze dias de investigação, atirando no coelho acertássemos a raposa: Barbosa descobriu que Marcelo era um grande traficante de cocaína e não, como apregoava, um respeitável e próspero representante comercial.

Outros quinze dias foram suficientes para que, com a assistência de Barbosa, a polícia conseguisse prende-lo em flagrante no momento em que recebia, das mãos de um boliviano, no aeroporto Dois de Julho, cerca de cinco quilos do pó.

À distância acompanhei cada passo do inquérito e do processo, sempre que necessário interferindo, através de um colega de Salvador, para que a Marcelo se aplicasse todo o rigor da lei. Recebeu uma sentença de quinze anos de prisão.

Dois dias após à prisão, antes mesmo da condenação, Bárbara, que nunca o visitou preso, requereu litigiosamente o divórcio, alegando a incapacidade moral de Marcelo para criar os filhos, incapacidade sobejamente comprovada por sua atividade hedionda, e se viu livre do marido, mas, agora, sem nenhuma fonte de renda, iria precisar da minha ajuda para manter-se.

Em janeiro de 1987 estávamos de novo, eu, Lídia e as crianças na ilha. Foi nesse verão que Lídia e Bárbara consolidaram a amizade surgida no ano anterior.

A minha amante estava no oitavo mês de gravidez e, em fevereiro, quando surgiram os primeiros sinais do parto ela foi pedir a Lídia que cuidasse dos seus filhos, prometendo que em dois ou três dias os mandaria buscar.

– Que bobagem Bárbara, os meninos podem ficar conosco até o fim do veraneio e se você não puder voltar pra cá nós os levaremos. Deixe-nos o seu endereço e telefone. — Lídia pediu.

– Mas vai ser um incômodo pra vocês.

– Não é incômodo algum. — Eu interferi.

– E você vai sozinha pra Salvador? — Lídia quis saber.

– Vou, ainda dá tempo, não tem problema — Ela disse.

– Geraldo pode lhe levar. — Lídia falou pra ela. E a mim pediu perguntando — Você pode amor?

– Posso. Preciso mesmo ficar um ou dois dias lá para atualizar pagamentos, coisa que estava adiando. — Menti.

– Se for assim então aceito e agradeço. Você é um amor de pessoa Lídia. — Bárbara não estava sendo falsa, Lídia é mesmo uma criatura rara, de uma bondade expontânea.

– Amigo é pra essas coisas — Lídia falou e pediu que eu corresse pra me arrumar antes que a criança nascesse no meio do caminho.

Graças à bondade desarmada de minha esposa é que pude levar a minha amante para a maternidade e esperar que nascesse, às cinco horas da manhã do dia seguinte, o dia oito de fevereiro de 1987, Rafael, o meu terceiro filho.

Tínhamos conseguido manter, durante todo aquele tempo, absoluto segredo sobre o nosso relacionamento, mas o segredo só durou até o dia no nascimento de Rafael.

Bárbara, após o parto, telefonou para dar a noticia à sua família. Eu tinha ido para casa prometendo passar para vê-la no dia seguinte, antes de voltar para a ilha, mas, como não gosto que Lídia durma sozinha na casa de veraneio, resolvi antecipar o meu retorno e voltei ao hospital logo após o almoço, antecipando, também, o cumprimento da minha palavra.

Quando entrei no apartamento que Bárbara ocupava dei de cara com Paulo e ele me reconheceu imediatamente, afinal namorara cinco anos com a sua irmã. Ele, que visitara o cunhado, já sabia, por este, que se Bárbara estava grávida, é porque o traíra. A ficha caiu rápido. Assim que me viu disse:

– Ah! Então é você, Geraldo, o meu cunhado novo; de novo.

Não havia como negar. Confirmei ser o pai de Rafael e contei as circunstâncias em que reencontrara a sua irmã. Só omiti a atuação do investigador Júlio Barbosa, e a minha por trás de tudo, deixando-o com a convicção de que a prisão de Marcelo não tinha nenhuma conexão com o nosso romance. Falei-lhe que era casado, que tinha dois filhos e que, apesar de amar Bárbara, a quem apoiaria sempre, não estava em cogitação a hipótese de eu me separar de Lídia; pedia-lhe, portanto, compreensão e que mantivesse o segredo. Toda a nossa conversa foi testemunhada por Bárbara que reforçou o pedido, acrescentando que ela o inimizaria, no caso de que ele não cumprisse a promessa que lhe cobrávamos. Ele prometeu manter o segredo.

Paulo, a essa altura, não era mais o arruaceiro que fora na juventude, mas, não tendo concluído o curso superior, sobrevivia modestamente como sócio do pai na mesma mercearia de que já lhes dei notícia. Casara-se, morava em casa alugada, nos Dendezeiros, e tinha quatro meninas.

– Só sei fazer o que gosto — Foi como justificou, rindo, não ter filho varão.

Voltei para a ilha naquele mesmo dia, não de todo aliviado, porque segredo de três não é segredo, mas confiante na promessa de Paulo, o que não sabia, nem podia imaginar, era que ele iria me cobrar pelo seu silêncio. Com efeito, não tardou para que me procurasse, propondo-me sociedade, ou que lhe emprestasse capital bastante para abrir uma outra mercearia, livrando-se, assim, da dependência paterna. Era evidente que eu não poderia associar-me a ele sem por em risco o segredo do meu relacionamento com Bárbara. Só me restou tomar-lhe uma nota promissória, sem data. Eu sabia que ele não me pretendia pagar o empréstimo, mas fazendo-o assinar o título, foi como dizer-lhe: estamos quites, você guarda o segredo e eu a sua confissão de dívida. Ele me pediu que não revelasse a Bárbara a extorsão, eu, a ele, que não me procurasse mais.

 

 

 

 

 

- 13 -

 

 

Se a razão fosse mais forte que o tesão, nenhum homem quereria ter duas famílias, sobretudo se ele mora em uma terceira casa, em uma outra cidade, dispondo, apenas, dos finais de semana, para assistir as duas. Dito isto, começo a pensar, agora, que estava equivocado, quando escrevi alhures, que o motivo de ter feito tantas opções erradas na vida, foi o fato de ter, na adolescência, decidido sobrepor a razão aos sentimentos. Pensando bem, nunca ter conseguido cumprir este desiderato, me parece ser a causa verdadeira. Pois, (exceto quando abdiquei de Jussara e quando gastei tudo o que tinha tentando salvar Madalena), sempre deixei que, à razão, se sobrepujassem o tesão e a ambição.

O leitor atento (e paciente, por ter conseguido ler estas mal escritas memórias até aqui) deve estar lembrado que Lídia e Bárbara ficaram amigas na ilha. No final do veraneio, quando voltou para Salvador, Lídia procurou a minha amante para saber notícias de Rafael. Bárbara deveria ter evitado que a amizade se aprofundasse, não o fez e logo estavam freqüentando a casa uma da outra; por um lado isso tinha uma vantagem, pois, como as mães, também Carlinhos, Felipe e Gabriel tornaram-se inseparáveis, coisa que mais adiante aconteceria com Vanessa e Rafael. Assim eu podia levar os garotos à praia, ao futebol, ao parque, ao jardim zoológico, ao cinema, ao teatro... ufa!

Mas, porém, todavia, contudo, a mesma Bárbara, que na presença de Lídia era um primor de dissimulação, nos nossos encontros (sempre em motéis, pois, para evitar que os meninos soubessem que éramos amantes, eu nunca ia à sua casa sozinho), deixava extravasar o ciúme que a corroía e me acusava de não lhe dar a mesma atenção dispensada a Lídia, como se fosse coisa possível. Eram diálogos surrealistas, como este:

– Domingo, na praia, vocês se beijaram o tempo todo. Pareciam um casal de adolescentes. Você faz isso só pra me pirraçar. — Ela reclamou.

– Deixe de bobagens, você sabe que Lídia é carinhosa, sempre foi assim. — Justifiquei.

– Mas na minha frente? Você podia evitar, não é?

– Vou dizer o quê a Lídia? Que você está com ciúmes?

– Claro que você não pode dizer isso a ela. Diga que tem vergonha de beijar na frente das crianças.

– Ela sabe que eu não tenho, nunca tive, por que iria ter agora?

– Porque os meninos estão maiores. Sei lá. Você sempre tem desculpa pra tudo.

– Pra isso não tenho não. Se você sente ciúmes é melhor não ir à praia conosco.

– Só me faltava isso! Agora nem pra praia você quer me levar.

– Não é nada disso amor, você sabe que a amo tanto quanto a Lídia, seja compreensiva, por favor! O erro foi você ter se aproximado dela.

– Eu? Foi ela quem se aproximou de mim. Você queria que eu dissesse que não podíamos ser amigas porque éramos amantes?

Após essas conversas, sem pé nem cabeça, nos abraçávamos, nos beijávamos e, na cama, após saciarmo-nos, riamos de nós próprios.

Mas aquela situação estava me tornando tenso, sobretudo quando saíamos os três e Lídia, com a sua peculiar franqueza, sugeria a Bárbara que ela ainda era jovem, bonita e que deveria arranjar um namorado. Nessas ocasiões eu ficava à beira da loucura e mil pensamentos afluíam-me, entre eles o do ciúme, pela hipótese de Bárbara aceitar o conselho; e o medo de que Lídia estivesse percebendo que era em mim que a amiga tinha interesse e que esta fosse a razão.

– Você não acha, amor? — Lídia perguntou.

– Acho o quê? — O som da boate era alto, mas eu ouvira bem.

– Que Bárbara devia paquerar, arranjar um namorado?

– Talvez ela já tenha enjoado de homem — Respondi como se estivesse brincando, mas disse aquilo porque não podia dizer não, não acho, sob pena de Lídia desconfiar de algo; como não podia dizer sim, porque eu jamais concordaria com isso.

– Ele leva tudo na brincadeira, não ligue não — Ela disse a Bárbara. — Você podia apresentar-lhe um amigo seu — Ela disse, agora falando comigo.

– Eu só conheço gente chata, Li. Bárbara sabe cuidar da vida dela, você não devia se meter, ela já está ficando sem jeito. — Eu falei.

– Desculpe, não está mais aqui quem falou — Lídia murchou.

– Não estou nada de sem jeito. Você é minha amiga e pode dar a opinião que quiser. — Bárbara interveio para animar Lídia.

– Tá vendo, amor? Ela não se importa. Não é possível que você não tenha nem um amigo solteiro pra apresentar a ela. — Lídia insistiu.

– Não Lídia, eu agora só penso na criação dos meninos. Homem agora só iria me dar é trabalho. — Bárbara encerrou o assunto.

Para evitar essas situações, pedi a Lídia que não convidasse mais Bárbara para sair conosco à noite, argumentei que raramente estávamos a sós, ela contrapôs que seria uma maldade deixar a amiga sozinha em casa enquanto nos divertíamos e que não via nenhum inconveniente na presença dela. Foi ai que eu disse:

– Só falta agora você convidar para ela ir pra cama conosco.

Lídia levou na gozação e respondeu:

– Pode ser uma boa idéia, vou pensar nisso.

Eu percebi que ela falara brincando, mas a idéia não me desagradava e comecei a devanear, acreditando que, talvez, aquela hipótese passasse mesmo pela cabeça da minha esposa. Mas seria perigoso insistir no assunto. Na sexta-feira seguinte, no meu vespertino encontro semanal com Bárbara, eu lhe contei o diálogo, evidentemente omitindo que eu pedira a Lídia para excluí-la das nossas noitadas e perguntei:

– Se ele estivesse falando sério, você toparia.

– Hum! — Ela colocou a mão no queixo. — Eu nunca tive vontade de transar com mulher não, mas se é o que você quer, eu topo.

– Eu bem que gostaria. Só de pensar em vocês duas juntas se enroscando e eu mergulhando no meio já me dá o maior tesão. Imagine acontecendo.

– Você ia ficar é com ciúme.

– Se fosse qualquer uma de vocês com qualquer outra pessoa, ou vocês duas, uma com a outra me deixando de fora, eu morreria de ciúmes mesmo. Mas ciúmes de vocês duas trepando juntas comigo, não.

– Tem certeza? — Ela duvidou.

– Tenho. Mas isso é sonho, Lídia nunca concordaria.

– Talvez concorde.

– Eu não tenho nem coragem de pensar em propor isso a ela. Só se ela tomasse a iniciativa.

– Ou eu.

– Você? Você tá é doida.

– Posso tentar?

– Não. É muito arriscado, ela pode não topar e descobrir tudo o que há entre nós.

– Ela não precisa saber de nada. Eu posso só insinuar e se ela alimentar o assunto, mesmo depois, não precisamos falar que já nos amamos.

– Mas ela pode não alimentar a conversa, aborrecer-se e romper a amizade de vocês.

– Acho que ela não brigaria comigo se eu dissesse que sonhei que estávamos os três juntos na cama.

– E se ela concordar. Você não pode dizer que eu concordo. Você terá que convencê-la a me propor e, então, ela vai dizer que não tem coragem de fazer isso com medo da minha reação.

– Se isso acontecer eu lhe conto e, então, você é quem propõe a ela, já sabendo que a resposta será positiva.

– Assim ela pode desconfiar que você me falou, e isso seria um indício de que tramávamos tudo sem ela saber.

– Então ou me ofereço a ela para a tarefa de lhe convencer.

– Ela pode não aceitar que você convide, com medo que eu não aceite e fique sabendo que ela topa. É uma sinuca de bico.

– Você quer ou não quer?

– Eu quero.

– Então pare de colocar dificuldades e me deixe tentar. Prometo que terei cuidado. Se não der certo assumirei a culpa sozinha.

– Ta bem. Mas, por favor, tenha muito, muito cuidado.